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Tromboembolismo Pulmonar Agudo (TEP): o que todo médico deve saber pela diretriz AHA/ACC 2026

Diagnóstico, escore de Wells, D-dímero, categorias A-E e anticoagulação no tromboembolismo pulmonar agudo, segundo a diretriz AHA/ACC 2026.

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Tromboembolismo Pulmonar Agudo (TEP): o que todo médico deve saber pela diretriz AHA/ACC 2026

O tromboembolismo pulmonar agudo continua entre os diagnósticos mais difíceis da medicina aguda, com um espectro clínico que vai do achado incidental e assintomático em uma tomografia de estadiamento oncológico até a parada cardíaca por falência cardiopulmonar. Em 2026, a American College of Cardiology e a American Heart Association, em colaboração com ACCP, ACEP, CHEST, SCAI, SHM, SIR, SVM e SVN, publicaram a primeira diretriz integrada e de novo dedicada à avaliação e ao manejo do TEP agudo no adulto (maiores ou iguais a 18 anos). O documento consolida décadas de evidência dispersa em statements anteriores sobre TEP maciço e submaciço, terapias intervencionistas e suporte circulatório, e propõe uma mudança conceitual relevante na forma como classificamos a gravidade da doença.

A grande novidade é a introdução das AHA/ACC Acute Pulmonary Embolism Clinical Categories, um sistema de categorias clínicas (A a E, com subcategorias) que substitui, na prática, a antiga dicotomia maciço/submaciço de 2011 e refina o esquema europeu de quatro estratos de 2019. A proposta é integrar, em um único eixo de decisão, parâmetros clínicos, hemodinâmicos, respiratórios, biomarcadores e a avaliação da função e do tamanho do ventrículo direito (VD). Para quem se prepara para provas de título e para a prática diária, vale entender o raciocínio por trás dessa categorização, porque é dela que decorrem as condutas de internação, anticoagulação e terapias avançadas.

Quando suspeitar e como o paciente se apresenta

O diagnóstico do TEP começa pelo reconhecimento dos fatores predisponentes de tromboembolismo venoso (TEV). A diretriz orienta que a história e o exame físico dirigidos investiguem cirurgia recente, hospitalização por causa clínica, imobilidade, gestação, uso de estrogênios, trauma, câncer, doenças inflamatórias e trombofilias hereditárias ou adquiridas, entre outros. Fatores adicionais, que podem variar conforme o sexo, incluem doença cardiovascular aterosclerótica, doença pulmonar, doença venosa crônica, imobilidade prolongada e terapia hormonal.

Os sintomas mais comuns são dor torácica pleurítica e dispneia. Hemoptise, síncope e choque são menos frequentes, mas carregam maior gravidade. O quadro a seguir organiza os achados de exame físico por significado clínico.

Achado ao exame físico O que sugere
Taquicardia, hipotensão Comprometimento hemodinâmico
Taquipneia, hipoxemia Distúrbio relevante de troca gasosa
Redução do murmúrio vesicular, atrito pleural Acometimento pleuropulmonar
Turgência jugular, hiperfonese da segunda bulha pulmonar, impulsão paraesternal Sobrecarga de ventrículo direito
Edema ou dor em membro inferior Trombose venosa profunda (TVP) associada

Convém lembrar que o diagnóstico é desafiador justamente porque é inespecífico: menos de 10% dos pacientes avaliados para TEP terminam confirmados.

Probabilidade pré-teste e o papel do D-dímero

A diretriz recomenda (Classe I) que, diante de sintomas sugestivos de TEP agudo, se realize história e exame físico dirigidos para determinar a probabilidade pré-teste. Ferramentas de decisão clínica validadas, como o escore de Wells, o escore de Genebra revisado e os critérios PERC (Pulmonary Embolism Rule Out Criteria), sintetizam esses dados e ajudam a separar quem precisa de imagem de quem pode evitá-la.

Escore de Wells para TEP

Componente Pontos
Sintomas clínicos de TVP (edema de perna, dor à palpação) 3
TEP mais provável que outros diagnósticos 3
Frequência cardíaca maior que 100 bpm 1,5
Imobilização (maior ou igual a 3 dias) ou cirurgia nas 4 semanas anteriores 1,5
TVP ou TEP prévios 1,5
Hemoptise 1
Câncer 1

Interpretação. Wells padrão: baixo, menor que 2; moderado, 2 a 6; alto, maior que 6. Wells modificado: TEP provável, maior que 4; TEP improvável, menor ou igual a 4.

Critérios PERC (Pulmonary Embolism Rule Out Criteria)

Aplicam-se quando a probabilidade clínica (gestalt) de TEP é menor que 15% (por exemplo, Wells menor que 2). Quando todos os critérios são atendidos, a probabilidade de TEP é baixa e nenhum teste adicional é necessário.

Critério PERC (todos devem estar presentes)
Idade menor que 50 anos
Frequência cardíaca menor que 100 bpm
Saturação de oxihemoglobina maior ou igual a 95%
Sem hemoptise
Sem uso de estrogênio
Sem TVP ou TEP prévios
Sem edema unilateral de perna
Sem cirurgia/trauma com hospitalização nas 4 semanas anteriores

Escore de Genebra revisado

Componente Genebra revisado Genebra revisado simplificado
Idade maior que 65 anos 1 1
TVP ou TEP prévios 3 1
Cirurgia sob anestesia geral ou fratura de membro inferior no último mês 2 1
Câncer ativo 2 1
Dor unilateral em membro inferior 3 1
Hemoptise 2 1
Frequência cardíaca 75 a 94 bpm 3 1
Frequência cardíaca maior ou igual a 95 bpm 5 1
Dor à palpação venosa profunda de membro inferior e edema unilateral 4 1

Interpretação. Genebra revisado: baixo, 0 a 3; intermediário, 4 a 10; alto, maior ou igual a 11. Genebra revisado simplificado: baixo, 0 a 1; intermediário, 2 a 4; alto, 5 a 7; improvável, 0 a 2; provável, 3 a 7.

D-dímero como instrumento de exclusão

O D-dímero entra como instrumento de exclusão em uma população específica: a doença é improvável quando coexistem três condições, que são D-dímero abaixo do limiar de normalidade, probabilidade pré-teste clínica baixa ou intermediária (menor que 50%) e paciente não anticoagulado de base. O limiar de segurança aceito (taxa de falha) para ferramentas diagnósticas em TEP é de 2%.

Estratégia de D-dímero Limiar Quando se aplica Classe / NE
D-dímero ajustado pela idade idade × 10 μg/L (ensaios em unidades equivalentes de fibrinogênio) Probabilidade clínica baixa ou intermediária (menor que 50%); exclui TEP e a necessidade de imagem Classe IIa, NE B-R
Algoritmo YEARS 500 μg/L com pelo menos 1 critério; 1000 μg/L sem nenhum critério Identifica quem não precisa de imagem; critérios: sinais clínicos de TVP, hemoptise ou TEP como diagnóstico mais provável Classe IIb, NE B-NR (versão adaptada à gestação: Classe I)

Estudos prospectivos do D-dímero ajustado pela idade mostraram taxa de falha em três meses inferior a 2%. A maior parte dos estudos que validou essas estratégias excluiu pacientes anticoagulados, o que limita a extrapolação para esse grupo. Em ambientes de alta prevalência, há ainda o risco de TEPs perdidos.

Na prática Em probabilidade baixa ou intermediária (menor que 50%) e paciente não anticoagulado, o D-dímero ajustado pela idade ou o YEARS excluem TEP com segurança e dispensam imagem. Não use D-dímero como exclusão em alta probabilidade ou em paciente já anticoagulado.

Diagnóstico por imagem

A angiotomografia de tórax (CTPA) é a modalidade padrão para o diagnóstico do TEP agudo, pela ampla disponibilidade, custo relativo, exposição contemporânea (mais baixa) à radiação e excelente desempenho diagnóstico. As recomendações centrais estão resumidas a seguir.

Recomendação Classe / NE
Imagem para probabilidade alta (maior que 50%) por escore validado ou D-dímero elevado, a fim de confirmar ou excluir TEP Classe I
CTPA positiva ou cintilografia ventilação/perfusão (V/Q) de alta probabilidade são suficientes para o diagnóstico Classe I
CTPA em preferência à cintilografia V/Q para confirmar o diagnóstico Classe I, NE B-R
Quando a CTPA não pode ser realizada, cintilografia V/Q é razoável, preferida à angiorressonância magnética com contraste Classe IIa
V/Q SPECT em preferência ao planar Classe IIa

Vale reforçar que a ecocardiografia é teste inadequado para diagnosticar TEP, mas é central na avaliação da função do VD em pacientes sintomáticos com TEP confirmado. A diretriz orienta relatar parâmetros como razão VD/VE em diástole final, diâmetro diastólico final do VD, TAPSE, pressão sistólica estimada do VD, hipocinesia da parede livre do VD com preservação do ápice (sinal de McConnell), velocidade sistólica tricúspide, trombo intracardíaco, movimento septal paradoxal e colapso respirofásico da veia cava inferior. A sensibilidade e a especificidade aumentam quando mais de um parâmetro de disfunção do VD está presente. Recomenda-se também, na CTPA do TEP agudo, relatar a razão numérica VD/VE.

Estratificação de gravidade: as categorias clínicas A a E

As categorias clínicas são o eixo central da diretriz de 2026. Elas designam a gravidade pelo indicador clínico, laboratorial ou de imagem mais grave, e o paciente pode transitar entre categorias à medida que é reavaliado. Um modificador respiratório (R) pode ser acrescido quando há anormalidades respiratórias proeminentes (por exemplo, C3R, D2R).

Categoria Definição Marcadores e exemplos
A TEP subclínico, incidental e assintomático Tipicamente identificado em TC feita por outra indicação, sem suspeita clínica de TEP. Exemplo: paciente assintomático com câncer de pulmão e TEP subsegmentar de lobo inferior esquerdo achado em estadiamento
B TEP sintomático com escore de gravidade clínica baixo PESI menor ou igual a 85, sPESI igual a 0, Hestia menor que 1. B1: TEPs subsegmentares únicos ou múltiplos. B2: TEPs segmentares e mais proximais
C TEP sintomático com escore de gravidade clínica elevado PESI classe III-V, sPESI maior ou igual a 1, Hestia maior ou igual a 1, incluindo biomarcadores elevados e/ou disfunção do VD
D Falência cardiopulmonar incipiente (choque normotensivo) Lactato maior que 2 mmol/L, lesão renal aguda, débito urinário menor que 0,5 mL/kg/h, alteração do estado mental, índice cardíaco menor que 2,2 L/min/m², pressão arterial média menor que 60 mmHg ou aumento de escore/estágio de choque
E Falência cardiopulmonar estabelecida Hipotensão persistente (instabilidade hemodinâmica)

O paralelo com a nomenclatura antiga ajuda a fixar: a Categoria E corresponde, em linhas gerais, ao que se chamava de TEP maciço/alto risco; as Categorias C e D capturam grande parte do espectro intermediário (submaciço), separando o intermediário-baixo do intermediário-alto e do estado pré-falência; A e B representam o baixo risco.

Categoria Decisão de internação
A Pode receber alta da emergência; não precisa ser hospitalizado
B (sintomático com escore baixo) Geralmente tem indicação de alta hospitalar precoce
C, D e E Devem ser hospitalizados para otimizar o tratamento

Tratamento

Anticoagulação

A anticoagulação é a base do manejo de qualquer TEP. Em todo paciente com TEP confirmado sem contraindicação absoluta, deve-se iniciar anticoagulação para reduzir recorrência de TEV e morte (Classe I). As escolhas de agente seguem uma hierarquia clara.

Situação Conduta Classe / NE
Necessidade de terapia parenteral inicial (Categorias C1-E1) HBPM em preferência à HNF, para reduzir TEV recorrente e sangramento maior Classe I, NE B-R
Paciente elegível para anticoagulação oral DOACs em preferência aos AVK, salvo contraindicação, para prevenir TEV recorrente e reduzir sangramento maior Classe I
Categoria C2 ou superior com baixo risco de sangramento e imagem atrasada ou indisponível Anticoagulação terapêutica pode ser benéfica Classe IIb
Síndrome do anticorpo antifosfolípide trombótica estabelecida AVK em preferência ao DOAC Classe I
Paciente em HBPM (quando se monitora) Medir anti-Xa de pico 3 a 5 horas após a dose, em equilíbrio (maior ou igual a 3 doses), em preferência a vale ou aleatórios Classe I
Maioria dos pacientes em HBPM baseada no peso Monitoramento de rotina do anti-Xa não indicado Classe III, sem benefício

Terapias avançadas por categoria de risco

As terapias avançadas (trombólise sistêmica, trombólise dirigida por cateter [CDL], trombectomia mecânica [MT] e embolectomia cirúrgica) concentram-se nas categorias mais graves, e a diretriz é cuidadosa em delimitar onde cada uma é razoável ou apenas considerável.

Terapia Categoria E1-2 Categoria D1-2 Categoria C3 Categorias A1-C2
Trombólise sistêmica (somada à anticoagulação) Razoável em E1-2 com risco de sangramento aceitável, em quem se considera terapia avançada, sobre anticoagulação isolada, para reduzir mortalidade e TEP recorrente Pode ser considerada (Classe IIb) Utilidade incerta (Classe IIb) Não deve ser usada sobre anticoagulação isolada, pelo aumento de sangramento maior e hemorragia intracraniana (Classe III, dano, NE B-R)
Trombólise dirigida por cateter (CDL) Razoável em E1 (Classe IIa), somada à anticoagulação Pode ser considerada (Classe IIb)
Trombectomia mecânica (MT) Razoável em E1 sobre anticoagulação isolada (Classe IIa, NE B-NR) Pode ser considerada (Classe IIb)
Embolectomia cirúrgica Razoável em E1 comparada à anticoagulação isolada (Classe IIa, NE B-NR) Pode ser considerada (Classe IIb)

Doses menores de trombolítico podem ser consideradas para reduzir sangramento (Classe IIb). Em pacientes D1-E1 candidatos a cirurgia, a embolectomia pode ser considerada sobre a trombólise sistêmica para reduzir o risco de hemorragia intracraniana, embora o benefício comparativo seja incerto (Classe IIb).

Para o paciente em choque cardiogênico refratário decorrente de TEP (Categoria E2), é razoável instituir VA-ECMO, desde que haja recursos disponíveis, para estabilizar a hemodinâmica e melhorar a oxigenação (Classe IIa). Sob VA-ECMO, recomenda-se manter a anticoagulação sistêmica parenteral na ausência de sangramento (Classe I).

O filtro de veia cava inferior tem indicação restrita: em pacientes que não toleram anticoagulação mas nos quais o filtro é considerado necessário, recomendam-se filtros recuperáveis sobre permanentes (Classe I, NE B-R), com tentativa de retirada assim que o risco de TEP permitir.

Na prática Terapias avançadas são razoáveis em E1 e podem ser consideradas em D1-2. Nas Categorias A1-C2, a trombólise sistêmica tem recomendação Classe III por dano: não use.

O papel do PERT

A diretriz formaliza a recomendação dos PE response teams (PERTs). Em pacientes com risco aumentado de desfechos adversos (Categorias C-E), a avaliação multidisciplinar por um PERT é recomendada para melhorar a entrega de cuidados intra-hospitalares (Classe I, NE B-NR). Categorias A ou B com múltiplas comorbidades também podem se beneficiar; o exemplo citado é um paciente Categoria B com hemorragia intracraniana. Os PERTs melhoram a estratificação de risco, agilizam o início da anticoagulação e auxiliam na seleção das intervenções avançadas, embora o efeito sobre mortalidade ainda não esteja conclusivamente estabelecido.

Situações especiais

População Conduta Classe / NE
Gestação (apta a anticoagular) HBPM ou HNF para prevenir TEV recorrente Classe I
Gestação (DOACs e varfarina) Potencialmente danosos; podem causar abortamento ou anomalias fetais Classe III, dano
Gestação (investigação) Com sintomas, critérios YEARS sugestivos e radiografia de tórax normal, CTPA de baixa dose é razoável em preferência à cintilografia de perfusão de baixa dose Classe IIa
Amamentação HBPM, HNF ou varfarina em preferência aos DOACs, para prevenir sangramento no lactente Classe I
Câncer (além da fase inicial) DOAC ou HBPM sobre AVK, para reduzir TEV recorrente Classe I, NE A
Câncer (tumores cerebrais primários ou metastáticos, elegíveis a oral) DOAC pode ser considerado sobre a HBPM para reduzir o risco de hemorragia intracraniana Classe IIb

Na gestação, vale lembrar que o TEP responde por até 11% das mortes relacionadas à gestação nos Estados Unidos. No câncer, em TEP sem fatores reversíveis maiores identificados, diagnostica-se neoplasia em 4% a 10% dos pacientes no primeiro ano, o que reforça história, exame físico e rastreamento oncológico apropriado para a idade.

Instabilidade hemodinâmica. Pacientes em Categorias D e E exigem decisão rápida sobre local de cuidado e terapias avançadas, idealmente dentro do modelo PERT. Quem recebe trombólise (sistêmica ou CDL) deve ser alocado em unidade com monitorização próxima, como UTI ou cuidado intermediário (Classe I). É preciso ainda atenção à sedação: em pacientes com disfunção do VD, sedativos e analgésicos podem precipitar descompensação hemodinâmica, e a equipe deve estar pronta para suporte com vasopressores, inotrópicos e/ou VA-ECMO.

Duração da anticoagulação

A decisão de manter ou suspender a anticoagulação após a fase inicial (3 a 6 meses) depende do tipo de fator de risco.

Cenário Conduta Classe / NE
Primeiro TEP sem fator reversível maior Continuar na fase estendida é benéfico para prevenir TEV recorrente Classe I, NE A
Primeiro TEP por fator reversível maior (cirurgia, trauma maior, imobilização) Suspender ao fim da fase inicial sobre continuar, otimizando recorrência e sangramento Classe I, NE B-NR
TEP por fator de risco persistente Continuar na fase estendida é razoável Classe IIa
Fase estendida (escolha do agente) DOAC sobre AVK Classe I, NE A
Fase estendida (estratégia de dose) Meia dose de apixabana ou rivaroxabana para reduzir sangramento Classe I, NE A
Contraindicação ou recusa à anticoagulação na fase estendida Aspirina em baixa dose sobre nenhuma terapia Classe IIa

A reavaliação periódica do risco de sangramento e de recorrência em quem permanece anticoagulado é recomendada, com revisão de interações medicamentosas e das funções renal e hepática. A testagem de trombofilia não é recomendada quando o TEP se associou a fator reversível maior, pois não altera a duração do tratamento.

O que há de novo (2026)

A mudança estruturante é a substituição do binômio maciço/submaciço (2011) e do esquema de quatro estratos da ESC (2019) pelas AHA/ACC Acute Pulmonary Embolism Clinical Categories (A-E), que incorporam o estado de falência cardiopulmonar incipiente (Categoria D, o “choque normotensivo”) e o modificador respiratório (R), duas situações mal capturadas pelas classificações anteriores. As condutas de internação, anticoagulação e terapias avançadas passam a ser ancoradas explicitamente nessas categorias.

Outros destaques de 2026 incluem a formalização do PERT como recomendação Classe I para Categorias C-E; a consolidação da preferência por HBPM sobre HNF e por DOAC sobre AVK; a validação do D-dímero ajustado pela idade e do YEARS (inclusive a versão adaptada à gestação) como estratégias para evitar imagem; e o reforço da fase estendida com DOAC em meia dose para pacientes selecionados.

Erros comuns e armadilhas

Solicitar CTPA sem antes estabelecer a probabilidade pré-teste leva a exames desnecessários e a achados de significado incerto. Aplicar o D-dímero como exclusão em paciente de alta probabilidade ou já anticoagulado é equívoco frequente, já que as estratégias de exclusão foram validadas em probabilidade baixa ou intermediária e excluíram anticoagulados. Confundir ecocardiografia com método diagnóstico de TEP é outro deslize: ela serve à estratificação do VD, não ao diagnóstico.

No tratamento, três armadilhas se destacam. A primeira é estender a trombólise sistêmica a pacientes de risco intermediário-baixo (Categorias A1-C2), em quem há recomendação Classe III por dano. A segunda é manter varfarina ou DOAC na gestante, ambos potencialmente teratogênicos, quando a indicação é HBPM ou HNF. A terceira é prolongar indefinidamente a anticoagulação após um TEP provocado por fator reversível maior, contrariando a recomendação de suspensão ao fim da fase inicial. Some-se a isso o uso liberal de filtros de veia cava em pacientes que poderiam ser anticoagulados (a indicação é restrita à intolerância à anticoagulação, com preferência por filtros recuperáveis) e a falha em rastrear CTEPD no seguimento, perdendo pacientes com dispneia persistente e limitação funcional.

Perguntas frequentes

Quando devo pedir o D-dímero no TEP? O D-dímero serve para excluir TEP em pacientes com probabilidade pré-teste baixa ou intermediária (menor que 50%) e não anticoagulados. Nessa população, um valor abaixo do limiar (ajustado pela idade ou pelo YEARS) afasta a doença e dispensa imagem. Em alta probabilidade ou em paciente já anticoagulado, o teste não tem esse papel.

Como se calcula o D-dímero ajustado pela idade? Para ensaios que reportam unidades equivalentes de fibrinogênio, o limiar é idade × 10 μg/L em pacientes acima de 50 anos. Estudos prospectivos mostraram taxa de falha em três meses inferior a 2%, dentro do limiar de segurança aceito.

A ecocardiografia faz o diagnóstico de TEP? Não. A ecocardiografia é inadequada para diagnosticar TEP, mas é central para avaliar a função do VD no paciente sintomático com TEP confirmado. A acurácia aumenta quando mais de um parâmetro de disfunção do VD está presente.

Quais pacientes podem receber alta sem internação? Pacientes em Categoria A podem receber alta da emergência. Os de Categoria B sintomáticos com escore de gravidade baixo geralmente têm indicação de alta hospitalar precoce. Já as Categorias C, D e E devem ser hospitalizadas para otimizar o tratamento.

Quando indicar trombólise sistêmica? A trombólise sistêmica é razoável nas Categorias E1-2 com risco de sangramento aceitável e pode ser considerada nas Categorias D1-2 (Classe IIb). Nas Categorias A1-C2, não deve ser usada, com recomendação Classe III por dano, pelo aumento de sangramento maior e hemorragia intracraniana.

Por quanto tempo manter a anticoagulação? Depende do fator de risco. Um primeiro TEP por fator reversível maior favorece a suspensão ao fim da fase inicial (3 a 6 meses). Ausência de fator reversível maior ou fator persistente favorece a fase estendida com DOAC, frequentemente em meia dose de apixabana ou rivaroxabana.

Pontos-chave: o que todo médico deve saber

  1. Use ferramentas validadas (Wells, Genebra revisado, PERC) para estimar a probabilidade pré-teste antes de pedir imagem.
  2. Em probabilidade baixa ou intermediária (menor que 50%) e paciente não anticoagulado, o D-dímero ajustado pela idade ou o YEARS excluem TEP e dispensam imagem com segurança.
  3. A CTPA é a modalidade padrão; CTPA positiva ou V/Q de alta probabilidade fecham o diagnóstico.
  4. A ecocardiografia não diagnostica TEP, mas é essencial para avaliar a função do VD no paciente sintomático confirmado.
  5. Classifique pela categoria clínica A-E: A e B (baixo risco) podem ser manejados ambulatorialmente em pacientes selecionados; C, D e E exigem internação.
  6. Inicie anticoagulação em todo TEP confirmado sem contraindicação absoluta; prefira HBPM à HNF na terapia parenteral e DOAC ao AVK na terapia oral.
  7. Terapias avançadas (trombólise sistêmica, CDL, MT, embolectomia) são razoáveis em E1 e podem ser consideradas em D1-2; não use trombólise sistêmica em A1-C2.
  8. Acione o PERT em Categorias C-E para agilizar e qualificar a decisão terapêutica.
  9. Decida a duração pela natureza do fator de risco; fator reversível maior favorece suspensão em 3 a 6 meses, ausência de fator reversível maior ou fator persistente favorece fase estendida com DOAC, frequentemente em meia dose.
  10. Após o evento, questione sintomas e limitação funcional em toda consulta por pelo menos um ano, para rastrear doença tromboembólica pulmonar crônica (CTEPD).

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Este conteúdo tem finalidade educacional e de atualização profissional, não substituindo o julgamento clínico individualizado nem a leitura integral do documento original. As recomendações, classes e níveis de evidência aqui resumidos devem ser confrontados com o texto-fonte antes de qualquer aplicação à beira do leito.

Referência: Creager MA, Barnes GD, Giri J, et al. 2026 AHA/ACC/ACCP/ACEP/CHEST/SCAI/SHM/SIR/SVM/SVN Guideline for the Evaluation and Management of Acute Pulmonary Embolism in Adults: A Report of the American College of Cardiology/American Heart Association Joint Committee on Clinical Practice Guidelines. Circulation. 2026;153:e977–e1051. DOI: 10.1161/CIR.0000000000001415.