A estratégia do Global Initiative for Asthma (GINA) é, há mais de duas décadas, o documento de referência que orienta diagnóstico, avaliação e tratamento da asma em todos os níveis de atenção. Trata-se de uma estratégia baseada em evidências, e não de uma diretriz prescritiva rígida, que precisa ser adaptada à realidade de cada sistema de saúde. Para o médico que acompanha pacientes com asma, e para quem se prepara para concursos e provas de título, entender a lógica do GINA importa mais do que decorar esquemas: ela define o que se considera, hoje, padrão de cuidado.
A grande mudança estrutural que o GINA consolidou nos últimos anos, e que permanece no centro da estratégia de 2026, é o abandono definitivo da monoterapia com beta2-agonista de curta ação (SABA) isolado. Durante décadas o broncodilatador de alívio foi o primeiro contato do paciente com o tratamento, frequentemente sem nenhum corticosteroide inalatório (ICS) associado. O GINA reposicionou esse modelo porque o tratamento apenas com SABA, sem ICS, é em si um fator de risco para exacerbações. Esse esquema alivia sintomas sem tratar a inflamação subjacente, favorece a não adesão seletiva ao controlador e se associa a maior risco de exacerbações graves, hospitalizações e morte. A recomendação atual é que todo adulto e adolescente com asma receba tratamento contendo ICS, mesmo quando os sintomas são pouco frequentes.
Na prática: a monoterapia com SABA isolado acabou. Todo adulto e adolescente com asma deve receber tratamento contendo ICS, mesmo com sintomas infrequentes. O SABA isolado não é mais opção de primeira linha em nenhum step.
Diagnóstico de asma
O diagnóstico de asma deve, sempre que possível, ser confirmado e documentado antes do início do tratamento, porque as características que o sustentam tendem a desaparecer uma vez iniciado o ICS. Ele se apoia em dois pilares descritos no Box 1-2: a história de sintomas respiratórios típicos e variáveis, e a confirmação objetiva de limitação variável ao fluxo expiratório.
Os sintomas característicos são sibilância, dispneia, aperto torácico e tosse, com descritores que variam conforme a região e a idade. O padrão é tão importante quanto o sintoma em si. Falam a favor de asma os sintomas que variam ao longo do tempo e em intensidade, frequentemente piores à noite ou ao despertar, desencadeados por exercício, riso, alérgenos ou ar frio, que pioram após cessar o exercício (um achado muito distintivo) e que costumam surgir ou piorar com infecções virais.
A confirmação objetiva exige demonstrar variabilidade excessiva do fluxo expiratório. Quanto maior a variação, ou quanto mais ocasiões em que ela é documentada, mais confiável o diagnóstico. A espirometria é o método preferencial; se não disponível, o PEF pode ser usado, porém é menos confiável. Os critérios do Box 1-2 estão resumidos abaixo.
| Critério objetivo | Achado diagnóstico em adultos | Observações |
|---|---|---|
| Resposta broncodilatadora positiva (reversibilidade) | Aumento do VEF1 ou da CVF de ≥12% e ≥200 mL após 200–400 mcg de salbutamol | Maior confiança quando o aumento é ≥15% e ≥400 mL. Medida 10–15 min após o broncodilatador. Teste mais sensível se o SABA for suspenso ≥4 h antes (LABA por 24–48 h) |
| Variabilidade diurna excessiva do PEF | Variabilidade média diária >10% | Em crianças, >13% |
| Aumento da função pulmonar após 4 semanas de ICS | Aumento do VEF1 de ≥12% e ≥200 mL (ou do PEF ≥20%) | — |
| Teste de provocação brônquica positivo | Queda do VEF1 ≥20% com metacolina em doses padrão | Ou ≥15% com hiperventilação, salina hipertônica ou manitol; ou >10% e >200 mL no teste de exercício padronizado |
Na prática: confirme e documente o diagnóstico antes de iniciar o ICS. Depois de iniciado o tratamento, a variabilidade objetiva tende a desaparecer e a confirmação posterior fica muito mais difícil.
Um ponto de atenção do GINA 2026: novos dados de grandes bases mostraram que uma proporção significativa de adultos com teste de reversibilidade positivo pelo critério clássico (≥12% e ≥200 mL, ERS/ATS 2005) seria classificada como negativa pelo critério alternativo de >10% do predito proposto em 2022. Esses indivíduos tinham alta carga respiratória, sugerindo que o critério de >10% do predito levaria a subdiagnóstico de asma. O GINA mantém os critérios consolidados.
Avaliação da asma
A avaliação, descrita nos Box 2-1 e 2-2, organiza-se em dois domínios independentes que devem ser examinados separadamente: o controle de sintomas e o risco futuro de desfechos adversos. Um paciente com bom controle de sintomas ainda pode ter alto risco de exacerbações, e essa dissociação é central na conduta.
O controle de sintomas nas últimas 4 semanas é avaliado por quatro perguntas (Box 2-2A). A classificação depende de quantas respostas são positivas.
| Domínio | Perguntas (últimas 4 semanas) | Classificação |
|---|---|---|
| Controle de sintomas | 1. Sintomas diurnos mais de 2×/semana? 2. Algum despertar noturno por asma? 3. Necessidade de reliever (SABA) mais de 2×/semana? 4. Alguma limitação de atividade pela asma? | Nenhuma resposta positiva: bem controlada. 1–2 positivas: parcialmente controlada. 3–4 positivas: não controlada |
Instrumentos como ACT e ACQ também avaliam o controle recente.
Os fatores de risco para exacerbações devem ser avaliados mesmo quando o controle de sintomas é bom, pois são independentes do controle sintomático.
| Fatores de risco independentes para exacerbação |
|---|
| História de ≥1 exacerbação no ano anterior |
| Tratamento apenas com SABA (sem qualquer ICS) |
| Uso excessivo de SABA |
| Problemas socioeconômicos |
| Má adesão |
| Técnica inalatória incorreta |
| VEF1 baixo |
| Exposições como tabagismo |
| Eosinófilos sanguíneos ou FeNO elevados |
A função pulmonar, sobretudo o VEF1 em percentual do predito, é parte importante da avaliação de risco futuro e deve ser registrada no diagnóstico, 3–6 meses após o início do tratamento e periodicamente (em geral a cada 1–2 anos, mais frequentemente em pacientes de risco e na asma grave).
Tratamento por etapas: Track 1 e Track 2
O GINA apresenta o tratamento de adultos e adolescentes (Box 4-6) em duas “tracks”. A escolha entre elas é a primeira decisão terapêutica e estrutura todo o restante.
O Track 1 é o preferencial. Nele, o reliever é a combinação ICS-formoterol em baixa dose, usada conforme necessário. A combinação ICS-formoterol é a única ICS-LABA que pode ser usada como reliever anti-inflamatório (AIR), graças ao início de ação rápido do formoterol. A preferência por esse esquema baseia-se em evidência de menor risco global de exacerbações, menor necessidade de corticosteroide oral (OCS) e menor necessidade de atendimento de urgência, com controle de sintomas semelhante ao das alternativas. É também um regime mais simples: um único medicamento em combinação, um único dispositivo e uma única dose ao longo dos Steps 1 a 4, o que reduz erros de técnica inalatória e evita a não adesão seletiva, situação típica do Track 2, em que reliever e manutenção estão em inaladores separados.
O Track 2 é a alternativa, para quando o Track 1 não está disponível, não é adequado ou o paciente já está bem controlado e estável em outro esquema. Nele, o reliever é um SABA ou a combinação ICS-SABA (AIR com ICS-SABA), e a manutenção, quando indicada, é feita com ICS ou ICS-LABA em inalador à parte.
| Aspecto | Track 1 (preferencial) | Track 2 (alternativa) |
|---|---|---|
| Reliever | ICS-formoterol em baixa dose, conforme necessário | SABA ou ICS-SABA, conforme necessário |
| Inaladores | Único (mesmo medicamento p/ manutenção e alívio) | Separados (manutenção e reliever distintos) |
| Manutenção | ICS-formoterol (MART, a partir do Step 3) | ICS ou ICS-LABA em inalador à parte |
| Quando escolher | Padrão para a maioria dos pacientes | Track 1 indisponível/inadequado, ou paciente já estável em outro esquema |
A lógica do tratamento em ambas as tracks é a do alívio anti-inflamatório. Dois regimes do Track 1 organizam a estratégia:
- AIR (anti-inflammatory reliever): ICS-formoterol em baixa dose usado apenas conforme necessário, sem manutenção diária (esquema “AIR-only” dos Steps 1–2). Reduz de forma marcada o risco de exacerbações graves que requerem OCS em comparação com SABA isolado.
- MART (maintenance-and-reliever therapy): ICS-formoterol em baixa ou média dose usado tanto como manutenção diária quanto como reliever (Steps 3–4). Reduz o risco de exacerbações graves em comparação com a mesma dose ou dose maior de ICS ou ICS-LABA, ou em comparação com cuidado usual.
Steps 1 a 5: Track 1 vs Track 2
A tabela a seguir compara as duas tracks step a step em adultos e adolescentes.
| Step | Track 1 (preferencial) | Track 2 (alternativa) |
|---|---|---|
| Steps 1–2 | ICS-formoterol em baixa dose, conforme necessário (AIR-only) | Step 1: ICS-SABA conforme necessário (AIR). Step 2: ICS diário em baixa dose + SABA (ou ICS-SABA) conforme necessário |
| Step 3 | ICS-formoterol em baixa dose como MART (manutenção e alívio) | ICS-LABA de manutenção em baixa dose + reliever |
| Step 4 | ICS-formoterol em média dose como MART (mais inalações de manutenção). Alta dose não recomendada no Track 1 Step 4 | ICS-LABA em média dose + reliever |
| Step 5 | Otimizar terapia inalatória + add-on; encaminhar para avaliação fenotípica e considerar biológico | Referência + add-on |
Detalhando os steps do Track 1. Nos Steps 1 e 2 (combinados), usa-se ICS-formoterol em baixa dose apenas conforme necessário (AIR-only). Em pacientes considerados de asma leve (em uso de SABA isolado ou controlados com ICS diário em baixa dose ou antagonista do receptor de leucotrieno), essa estratégia reduziu em cerca de dois terços o risco de exacerbações graves e de visitas à emergência ou hospitalizações em comparação com o tratamento apenas com SABA, e reduziu visitas à emergência e hospitalizações em comparação com o ICS diário, sem diferença clinicamente relevante no controle de sintomas. No Step 3, ICS-formoterol em baixa dose como MART. No Step 4, ICS-formoterol em média dose como MART, aumentando o número de inalações de manutenção; ICS-formoterol em alta dose não é recomendado no Track 1 Step 4. No Step 5, otimizar a terapia inalatória e considerar terapia adicional. A evidência sobre LAMAs adicionais foi atualizada, incluindo a combinação tripla ICS-LABA-LAMA (budesonida-formoterol-glicopirrônio) quando a asma não está bem controlada apesar de ICS-LABA em média dose. A redução de exacerbações graves com terapia tripla, porém, é bem menor do que a obtida com biológicos, e a tripla pode ser útil em pacientes que não se qualificam para biológico. O Step 5 envolve também encaminhamento para avaliação fenotípica e consideração de terapia biológica.
No Track 2, a progressão é análoga, porém com inaladores separados. Antes de adicionar um LAMA a um paciente que exacerba apesar de boa adesão e técnica correta com ICS-LABA em baixa dose, o GINA orienta primeiro mudar para MART com ICS-formoterol (Track 1, Step 3) ou aumentar o ICS-LABA para pelo menos média dose (Track 2, Step 4).
Na prática: não adicione LAMA precocemente. Diante de exacerbações apesar de boa adesão e técnica com ICS-LABA em baixa dose, primeiro mude para MART com ICS-formoterol ou aumente o ICS-LABA para ao menos média dose.
Doses de ICS-formoterol no AIR/MART (Box 4-8)
As instruções de dose do Track 1 foram simplificadas no GINA 2026, focando nas formulações de ICS-formoterol mais disponíveis: budesonida-formoterol e beclometasona-formoterol.
| Faixa etária / formulação | Step | Esquema de dose | Limite para buscar atendimento |
|---|---|---|---|
| Adultos (≥18 anos) — budesonida-formoterol 160/4,5 (200/6) ou beclometasona-formoterol 100/6 | Steps 1–2 (AIR-only) | 1 inalação conforme necessário | >12 inalações totais em 24 h |
| Step 3 (MART) | 1 inalação 1–2×/dia + 1 conforme necessário | >12 inalações totais em 24 h | |
| Steps 4–5 (MART) | 2 inalações 2×/dia + 1 conforme necessário | >12 inalações totais em 24 h | |
| Adolescentes (12–17 anos) — mesmas formulações | Steps 1–2 (AIR-only) | 1 inalação conforme necessário | >12 inalações totais em 24 h |
| Step 3 (MART) | 1 inalação 1–2×/dia + 1 conforme necessário | >12 inalações totais em 24 h | |
| Steps 4–5 (MART) | 2 inalações 2×/dia + 1 conforme necessário | >12 inalações totais em 24 h | |
| Crianças (6–11 anos) — budesonida-formoterol 80/4,5 (100/6) ou beclometasona-formoterol 100/6 | Steps 1–2 (AIR-only) | 1 inalação conforme necessário | >8 inalações totais em 24 h |
| Step 3 (MART) | 1 inalação 1×/dia + 1 conforme necessário | >8 inalações totais em 24 h | |
| Step 4 (MART) | 1 inalação 2×/dia + 1 conforme necessário | >8 inalações totais em 24 h | |
| Step 5 (MART) | Não recomendado | — |
Diferentemente do SABA, o paciente não precisa esperar um número de horas para tomar novas doses de ICS-formoterol como reliever. As doses de manutenção e de alívio somam-se no total diário, e é esse total que define o limite para buscar atendimento.
Doses de ICS (Box 4-2) — baixa, média e alta
A faixa de dose isolada ou em combinação com LABA, em doses dosimetradas (metered doses), para adultos e adolescentes:
| ICS (isolado ou com LABA) | Baixa (mcg/dia) | Média (mcg/dia) | Alta (mcg/dia) |
|---|---|---|---|
| Beclometasona dipropionato (DPI ou pMDI, partícula padrão, HFA) | 200–500 | >500–1000 | >1000 |
| Beclometasona dipropionato (DPI ou pMDI, partícula extrafina, HFA) | 100–200 | >200–400 | >400 |
| Budesonida (DPI, ou pMDI, partícula padrão, HFA) | 200–400 | >400–800 | >800 |
| Ciclesonida (pMDI, partícula extrafina, HFA) | 80–160 | >160–320 | >320 |
| Fluticasona furoato (DPI) | 100 | — | 200 |
| Fluticasona propionato (DPI) | 100–250 | >250–500 | >500 |
| Fluticasona propionato (pMDI, partícula padrão, HFA) | 100–250 | >250–500 | >500 |
A dose baixa de ICS oferece a maior parte do benefício clínico para a maioria dos pacientes. A média dose pode ser necessária em pacientes que permanecem não controlados ou com exacerbações apesar de boa adesão e técnica corretas. A alta dose é necessária para poucos pacientes, e seu uso prolongado associa-se a maior risco de efeitos adversos locais e sistêmicos, que devem ser pesados contra os potenciais benefícios.
Escolha do step inicial e step-down
A escolha do step inicial depende da apresentação. Sintomas em menos de 3–5 dias/semana com função pulmonar normal ou levemente reduzida sugerem início no equivalente aos Steps 1–2; sintomas na maioria dos dias (≥4 dias/semana) ou despertar noturno semanal ou função pulmonar baixa sugerem MART em baixa dose (Step 3); e apresentação inicial durante exacerbação deve ser tratada como exacerbação, com curso curto de OCS se grave, iniciando-se MART em média dose.
A revisão periódica deve buscar a menor dose efetiva. Após bom controle mantido por cerca de 3 meses, o GINA recomenda encontrar a dose mínima eficaz de ICS, sempre acompanhada de plano de ação. O step-down só deve ser feito quando a asma está bem controlada e, em pacientes com fatores de risco para exacerbações, apenas com cautela.
Exacerbações e plano de ação
Todo paciente deve receber um plano de ação por escrito (Box 9-2), apropriado ao seu nível de letramento em saúde, para reconhecer e responder à piora da asma. O plano orienta o aumento do tratamento de alívio e do controlador diante de sintomas crescentes e define quando procurar atendimento.
Uma mudança relevante de redação no GINA 2026 diz respeito ao limite de uso do reliever. A linguagem anterior sobre a dose “máxima” de ICS-formoterol ou ICS-SABA foi substituída, por segurança, por uma orientação para que o paciente procure atendimento médico se precisar usar mais do que um número especificado de inalações em 24 horas (no MART com budesonida-formoterol, por exemplo, buscar atendimento se necessárias mais de 12 inalações no total de doses de alívio e manutenção). Orientação semelhante foi adicionada para o SABA. A mensagem clínica é que a necessidade crescente de reliever é um sinal de alarme, não um teto a ser atingido.
Na prática: necessidade crescente de reliever é sinal de alarme, não um teto a alcançar. Oriente o paciente a procurar atendimento ao ultrapassar o número especificado de inalações em 24 horas — não a “completar” a dose máxima.
No esquema do Track 1, o próprio aumento do uso do reliever ICS-formoterol já entrega ICS adicional de forma automática quando os sintomas pioram, o que dá ao regime uma resposta inerente ao início da exacerbação. Nas exacerbações mais intensas, o manejo inclui curso curto de OCS quando indicado, reservando o OCS para asma aguda moderada, grave ou ameaçadora à vida, na menor dose efetiva pelo menor tempo necessário. Não há necessidade de desmame prolongado de OCS, a menos que tenham sido usados por mais de duas semanas. Qualquer exacerbação que exija OCS deve motivar a revisão do manejo, justamente para prevenir o próximo evento.
Asma grave e biológicos
A asma grave é definida como aquela que permanece não controlada apesar do tratamento otimizado com ICS-LABA em alta dose, ou que requer ICS-LABA em alta dose (ou biológico) para não se tornar não controlada. O conceito-chave é distinguir a asma grave, relativamente refratária ao corticosteroide, da asma difícil de tratar, em que a falta de controle decorre de tratamento inadequado, má adesão, técnica incorreta ou comorbidades como rinossinusite crônica e obesidade. Corrigir esses “treatable traits” frequentemente melhora o controle de forma substancial, e é apropriado classificar a asma como difícil de tratar, e não grave, até que tais fatores sejam endereçados. O Box 2-4 orienta essa distinção.
Na prática: antes de rotular como asma grave, investigue treatable traits — adesão, técnica inalatória e comorbidades (rinossinusite crônica, obesidade). Até que sejam endereçados, a classificação correta costuma ser asma difícil de tratar, não grave.
Para o paciente cuja asma permanece não controlada apesar do Step 4, o encaminhamento precoce é essencial: a referência para avaliação fenotípica em centro especializado e a consideração de terapia biológica são parte da estratégia. A adição de biológico reduz substancialmente a necessidade de OCS na asma refratária grave. As quatro classes de biológicos para asma estão resumidas abaixo.
| Classe | Alvo molecular | Exemplos |
|---|---|---|
| Anti-IgE | IgE | Omalizumabe; biossimilar omalizumabe-igec |
| Anti-IL5 / anti-IL5Rα | IL-5 / receptor de IL-5 | Mepolizumabe, reslizumabe, depemokimabe (anti-IL5); benralizumabe (anti-IL5Rα) |
| Anti-IL4Rα | IL-4Rα | Dupilumabe |
| Anti-TSLP | TSLP | Tezepelumabe |
Biomarcadores como eosinófilos sanguíneos e FeNO auxiliam na escolha do biológico.
O que há de novo no GINA 2026
- AIR com ICS-formoterol em crianças (Steps 1 e 2): o estudo CARE, em crianças de 5–15 anos que usavam apenas SABA, demonstrou que a budesonida-formoterol em baixa dose conforme necessário reduziu quase pela metade o risco de exacerbações moderadas a graves em comparação com SABA isolado, sem diferença na velocidade de crescimento. Persiste lacuna de evidência para crianças de 6–11 anos no Step 2 quanto a ICS-formoterol conforme necessário versus ICS diário com SABA.
- AIR com ICS-SABA no Track 2 (Step 1): no estudo BATURA, em pacientes com asma mal controlada, o ICS-SABA conforme necessário reduziu em quase metade o risco de exacerbações graves em comparação com reliever apenas com SABA. O AIR com ICS-SABA foi incluído em todos os steps do Track 2; como exige dois inaladores nos Steps 2–5, reforça-se a necessidade de treinar bem o paciente.
- Track 1 permanece o preferencial em adultos e adolescentes, por reduzir substancialmente o risco de exacerbações graves, a exposição a corticosteroide sistêmico e a necessidade de atendimento de urgência, com regime mais simples. As instruções de dose para AIR e MART (Box 4-8) foram simplificadas, focando nas formulações de ICS-formoterol mais disponíveis.
- Segurança do reliever: o conceito de dose “máxima” foi substituído por uma orientação de procurar atendimento ao ultrapassar um número especificado de inalações em 24 horas, tanto para ICS-formoterol/ICS-SABA quanto para SABA.
- Step 5, LAMAs: evidência atualizada sobre add-on de LAMA, incluindo a combinação tripla budesonida-formoterol-glicopirrônio quando a asma não está bem controlada apesar de ICS-LABA em média dose.
- Novos biológicos: chegada do primeiro biossimilar anti-IgE (omalizumabe-igec), com as mesmas indicações do omalizumabe, e do depemokimabe, um anti-IL5 de longa ação aplicado a cada 26 semanas, aprovado para asma eosinofílica grave a partir dos 12 anos. Uma nova tabela (Box 8-6) lista indicações não asmáticas das quatro classes de biológicos.
Perguntas frequentes
Por que o GINA aboliu a monoterapia com SABA isolado? Porque o tratamento apenas com SABA, sem ICS, alivia sintomas sem tratar a inflamação subjacente e é, em si, um fator de risco para exacerbações. Associa-se a não adesão seletiva ao controlador e a maior risco de exacerbações graves, hospitalizações e morte. A recomendação atual é que todo adulto e adolescente receba tratamento contendo ICS, mesmo com sintomas infrequentes.
Qual a diferença entre AIR e MART? AIR (anti-inflammatory reliever) é o uso de ICS-formoterol em baixa dose apenas conforme necessário, sem manutenção diária — o esquema “AIR-only” dos Steps 1–2. MART (maintenance-and-reliever therapy) usa o mesmo ICS-formoterol tanto como manutenção diária quanto como reliever, nos Steps 3–4. Em ambos, o ICS-formoterol é o reliever anti-inflamatório.
Quando devo escolher o Track 2 em vez do Track 1? O Track 1 é o preferencial. Reserve o Track 2 para quando o Track 1 não está disponível, não é adequado, ou o paciente já está bem controlado e estável em outro esquema com inaladores separados.
Posso usar qualquer ICS-LABA como reliever? Não. Apenas a combinação ICS-formoterol pode ser usada como reliever anti-inflamatório, graças ao início de ação rápido do formoterol. Combinações com LABA não-formoterol (como salmeterol, vilanterol ou indacaterol) não servem como reliever.
Como diferenciar asma grave de asma difícil de tratar? A asma grave permanece não controlada apesar de tratamento otimizado com ICS-LABA em alta dose, sendo relativamente refratária ao corticosteroide. Na asma difícil de tratar, a falta de controle decorre de tratamento inadequado, má adesão, técnica incorreta ou comorbidades (rinossinusite crônica, obesidade). Corrija esses treatable traits antes de classificar como grave.
Quando encaminhar para terapia biológica? Diante de asma que permanece não controlada apesar do Step 4, encaminhe precocemente para avaliação fenotípica em centro especializado e considere biológico. A adição de biológico reduz substancialmente a necessidade de OCS na asma refratária grave, com redução de exacerbações maior do que a obtida com terapia tripla.
Pontos-chave: o que todo médico deve saber
- A monoterapia com SABA isolado não tem mais lugar no tratamento da asma. Todo adulto e adolescente deve receber tratamento contendo ICS, mesmo com sintomas infrequentes.
- Confirme e documente o diagnóstico antes de iniciar o tratamento, demonstrando variabilidade excessiva do fluxo expiratório, preferencialmente por espirometria com resposta broncodilatadora.
- Avalie sempre os dois domínios separadamente: controle de sintomas (4 perguntas das últimas 4 semanas) e fatores de risco para exacerbação, que são independentes do controle sintomático.
- O Track 1, com ICS-formoterol em baixa dose como reliever anti-inflamatório (AIR) e como MART, é a estratégia preferencial em adultos e adolescentes.
- Necessidade crescente de reliever é sinal de alarme: oriente o paciente a procurar atendimento ao ultrapassar o número especificado de inalações em 24 horas.
- Todo paciente precisa de um plano de ação por escrito.
- Diante de asma não controlada, distinga asma difícil de tratar (adesão, técnica, comorbidades) de asma grave verdadeira antes de escalonar; encaminhe precocemente para avaliação fenotípica e biológicos quando a asma permanece não controlada apesar do Step 4.
Erros comuns e armadilhas
- Prescrever SABA isolado ou tratar a asma “leve” sem ICS. Esse é justamente o cenário que o GINA reposicionou: alivia sintoma sem tratar inflamação e aumenta o risco de exacerbações graves.
- Iniciar tratamento sem confirmar o diagnóstico. Após o início do ICS, a variabilidade objetiva tende a desaparecer, tornando a confirmação posterior mais difícil.
- Julgar o paciente “controlado” apenas pelos sintomas. Bom controle sintomático não exclui alto risco de exacerbação; os fatores de risco precisam ser avaliados à parte, mesmo no paciente assintomático.
- Confundir reliever e manutenção no Track 2. Com inaladores separados, é essencial garantir que o paciente entenda a diferença e domine a técnica de cada dispositivo, sob risco de não adesão seletiva ao controlador.
- Usar ICS-formoterol em alta dose no Track 1 Step 4. O documento não recomenda essa conduta; a progressão se faz aumentando a dose de manutenção até média dose.
- Adicionar LAMA precocemente. Antes de incluir um LAMA, o GINA orienta primeiro mudar para MART com ICS-formoterol ou aumentar o ICS-LABA para pelo menos média dose.
- Rotular como asma grave sem investigar treatable traits. Adesão, técnica inalatória e comorbidades como rinossinusite e obesidade frequentemente explicam a falta de controle e devem ser corrigidos antes do diagnóstico de asma grave.
- Tratar exacerbações com OCS sem revisar o manejo. Toda exacerbação que requer OCS deve disparar a revisão do tratamento para prevenir o próximo evento, evitando o uso automático e repetido de corticosteroide oral.
CM Xperts — preparação para o TECM
Conteúdo produzido pela equipe CM Xperts. Se você se prepara para o Título de Especialista em Clínica Médica, baixe gratuitamente o Mapa da Aprovação ou conheça o Estudo Dirigido TECM.
Este artigo tem finalidade educacional e de revisão para a prática clínica e para a preparação ao TECM. As condutas descrevem as recomendações da estratégia GINA, que devem ser individualizadas conforme o contexto clínico, a disponibilidade de medicamentos e o sistema de saúde local. Doses, formulações e detalhes de manejo devem ser confirmados no documento original.
Referência: Global Initiative for Asthma. Global Strategy for Asthma Management and Prevention, 2026 (GINA 2026 Strategy Report). Disponível em ginasthma.org.