Neste artigo24 tópicos
- O que mudou no GOLD 2026?
- Como confirmar o diagnóstico de DPOC?
- O que significam os graus GOLD 1 a 4?
- O que avaliar depois de confirmar o diagnóstico?
- Como classificar o paciente nos grupos A, B e E?
- Qual é o tratamento inicial da DPOC em cada grupo?
- Quando os eosinófilos indicam corticoide inalatório?
- Como ajustar o tratamento no seguimento?
- Quando retirar o corticoide inalatório?
- O que é atividade da doença e por que ela importa?
- Como reconhecer uma exacerbação e o que pode simulá-la?
- Como classificar a gravidade pela proposta de Roma?
- Onde tratar a exacerbação?
- Como tratar a exacerbação?
- Quando dar antibiótico na exacerbação?
- Quando indicar VNI e quando intubar?
- O que fazer antes e depois da alta?
- Quais medidas não farmacológicas não podem faltar?
- Quando encaminhar para redução de volume ou transplante?
- Erros comuns na prova e no plantão
- Perguntas frequentes
- Pontos-chave
- Leia também
- Referências
Guia rápido do artigo
O tratamento da DPOC pelo GOLD 2026 começa com LABA+LAMA nos grupos B e E e com um broncodilatador no grupo A. Uma única exacerbação moderada no ano anterior já coloca o paciente no grupo E. Os eosinófilos decidem o corticoide inalatório, o seguimento tem algoritmo próprio e a exacerbação usa prednisona 40 mg/dia por 5 dias.
O relatório GOLD é revisado todo ano. A edição de 2026 é uma revisão maior: incorporou publicações de janeiro de 2024 a julho de 2025 e acrescentou 338 novas referências. Este guia segue o texto e as figuras do relatório, na ordem em que o clínico usa: confirmar o diagnóstico, classificar, iniciar, ajustar e tratar a exacerbação. Procedimentos como redução de volume pulmonar e transplante aparecem só como "quando encaminhar". Nada aqui substitui a leitura do relatório nem o julgamento do médico responsável.
O que mudou no GOLD 2026?
| Tema | O que o GOLD 2026 diz |
|---|---|
| Grupo E | Passa a incluir quem teve uma exacerbação moderada no ano anterior. Uma exacerbação moderada já deve levar a considerar escalonamento |
| Meta do tratamento | Nova seção sobre atividade da doença: o alvo é a baixa atividade (sem exacerbações, sem piora dos sintomas, sem perda acelerada de função) |
| Algoritmos | Início (paciente virgem de tratamento, Figura 3.8) separado do seguimento (quem já usa manutenção, Figura 3.9) |
| Biológicos | Nova Figura 3.11 com a evidência de dupilumabe e mepolizumabe |
| Vacinas | Recomendações atualizadas para VSR e influenza |
| Exacerbações | Capítulo 4 totalmente revisto, com gravidade pela proposta de Roma |
| Multimorbidade | Capítulo 5 totalmente revisto |
| Novidades estruturais | Capítulo 6 sobre inteligência artificial; parte do texto movida para os Apêndices 1 a 4 |
A mudança no grupo E vem de estudos observacionais: mesmo uma exacerbação moderada ou grave antes da manutenção aumenta o risco de novos eventos.
Na prática: material de 2023 a 2025 pode ainda tratar uma exacerbação moderada isolada como "baixo risco". Pelo GOLD 2026, ela define o grupo E.
Como confirmar o diagnóstico de DPOC?
O critério espirométrico continua o mesmo: VEF1/CVF pós-broncodilatador < 0,7, sempre dentro de um contexto clínico de sintomas e fatores de risco. A razão fixa é simples e foi usada nos ensaios que sustentam as recomendações, mas pode superdiagnosticar DPOC em idosos e subdiagnosticar em adultos jovens. Em menores de 50 anos com suspeita e razão repetidamente ≥ 0,7, o limite inferior da normalidade ou o escore z pode ajudar.
O ponto que mais confunde é quando o pós-broncodilatador é necessário. O GOLD 2026 aceita a espirometria pré-broncodilatador como teste inicial no paciente sintomático:
| Resultado do pré-broncodilatador | O que fazer |
|---|---|
| Sem obstrução | Pós-broncodilatador não é necessário, salvo suspeita clínica muito alta de DPOC. Investigar outras causas e, se preciso, repetir a espirometria depois |
| Com obstrução | Confirmar o diagnóstico com a espirometria pós-broncodilatador |
| Obstrução no pré, ausente no pós | Não fecha DPOC, mas o risco de desenvolver a doença é maior: acompanhar de perto |
A razão pós-broncodilatador entre 0,6 e 0,8 deve ser confirmada em nova espirometria, em outra ocasião, pela variação biológica. Abaixo de 0,6, é muito improvável que suba espontaneamente acima de 0,7.
O grau de reversibilidade ao broncodilatador não serve para decidir tratamento nem para separar DPOC de asma. Por isso, no seguimento, não é preciso suspender a medicação inalatória antes da espirometria.
Na prática: espirometria pré-broncodilatador normal em paciente sintomático não obriga a fazer o pós, a menos que a suspeita seja muito alta. Se o pré mostra obstrução, o pós é obrigatório para confirmar.
O que significam os graus GOLD 1 a 4?
Com VEF1/CVF < 0,7, a gravidade da obstrução é graduada pelo VEF1 pós-broncodilatador, em porcentagem do previsto:
| Grau | Obstrução | VEF1 pós-BD (% do previsto) |
|---|---|---|
| GOLD 1 | Leve | ≥ 80% |
| GOLD 2 | Moderada | 50% a 79% |
| GOLD 3 | Grave | 30% a 49% |
| GOLD 4 | Muito grave | < 30% |
O relatório lembra que a gravidade da obstrução pode diferir da gravidade da doença. A correlação entre VEF1 e sintomas é fraca. Por isso o grau espirométrico saiu da avaliação combinada: ele não define o grupo A, B ou E nem escolhe o tratamento inicial sozinho.
Na prática: "GOLD 3" e "grupo E" são informações diferentes. Um paciente pode ser GOLD 1 e grupo E, ou GOLD 4 e grupo A.
O que avaliar depois de confirmar o diagnóstico?
A avaliação inicial tem cinco eixos:
- Gravidade da obstrução (graus GOLD 1 a 4).
- Natureza e intensidade dos sintomas.
- História de exacerbações moderadas e graves.
- Contagem de eosinófilos no sangue.
- Presença e tipo de outras doenças (multimorbidade).
Sintomas. A avaliação formal com questionário validado é obrigatória. A escala mMRC mede dispneia, de 0 a 4. O CAAT é o novo nome do CAT (Chronic Airways Assessment Test). Os dois são equivalentes e os escores são intercambiáveis. O CAAT tem 8 itens e vai de 0 a 40. O corte para considerar tratamento regular dos sintomas equivale a SGRQ ≥ 25, que corresponde a CAAT 10. Para a mMRC não há equivalência calculável. O GOLD mantém mMRC ≥ 2 para separar "menos" de "mais" dispneia, com a ressalva de que os outros sintomas também precisam ser avaliados.
Exacerbações. Mesmo uma exacerbação moderada ou grave tratada com corticoide e/ou antibiótico é marcante na história natural: piora o estado de saúde, acelera a perda de função e piora o prognóstico. O melhor preditor de exacerbação futura é a exacerbação prévia.
Eosinófilos. São recomendados para guiar o uso de corticoide inalatório, e não para prever exacerbações no indivíduo.
Multimorbidade. Doença cardiovascular, síndrome metabólica, osteoporose, depressão e ansiedade são frequentes. Devem ser buscadas de rotina e tratadas como em quem não tem DPOC. O betabloqueador não deve ser negado quando há indicação cardiovascular.
Como classificar o paciente nos grupos A, B e E?
A ferramenta ABE (Figura 2.13) cruza a história de exacerbações moderadas ou graves no ano anterior com os sintomas:
| Grupo | Exacerbações moderadas ou graves no ano anterior | Sintomas |
|---|---|---|
| A | Zero | mMRC 0–1 / CAAT < 10 |
| B | Zero | mMRC ≥ 2 / CAAT ≥ 10 |
| E | Uma ou mais (≥ 1) | Qualquer nível |
A e B dividem a mesma linha de exacerbação (zero) e só se separam pelos sintomas. Basta uma exacerbação moderada ou grave no ano anterior para o paciente ir ao grupo E, independentemente dos sintomas. O grupo E nasceu em 2023 da fusão dos antigos C e D; em 2026, passou a incluir quem teve uma única exacerbação moderada.
Na prática: primeiro pergunte "teve alguma exacerbação que precisou de corticoide, antibiótico ou internação no último ano?". Se sim, é grupo E. Só se a resposta for não, os sintomas decidem entre A e B.
Qual é o tratamento inicial da DPOC em cada grupo?
O algoritmo inicial (Figura 3.8) vale para o paciente virgem de tratamento de manutenção. O próprio GOLD reconhece que não há ensaios randomizados de alta qualidade sobre estratégias de início em recém-diagnosticados. É orientação clínica.
| Grupo | Tratamento inicial | Observação |
|---|---|---|
| A | Um broncodilatador | Curta ou longa ação, pelo efeito na dispneia. Longa ação é preferível se disponível, salvo dispneia muito ocasional. Manter se houver benefício documentado |
| B | LABA+LAMA | Se a combinação não for apropriada, não há classe preferida entre LABA e LAMA isolados. Investigar e tratar comorbidades |
| E | LABA+LAMA | Considerar LABA+LAMA+ICS se eosinófilos ≥ 300 células/µL |
No grupo B, a recomendação vem de um ensaio em pacientes com até uma exacerbação moderada e CAAT ≥ 10, em que LABA+LAMA foi superior ao LAMA isolado. No grupo E, revisão Cochrane com metanálise em rede colocou LABA+LAMA como a combinação mais bem ranqueada para reduzir exacerbações. A tripla de início com eosinófilos ≥ 300 é chamada de recomendação prática: não há dados diretos sobre começar com tripla em recém-diagnosticados, mas o efeito do ICS acompanha os eosinófilos.
Três regras completam o quadro:
- LABA+ICS não é encorajado na DPOC. Se há indicação de ICS, LABA+LAMA+ICS é superior e é a escolha preferida.
- DPOC com asma concomitante é tratada como asma. Nesse caso, o ICS é mandatório.
- Broncodilatador de curta ação de resgate para todos os pacientes.
Na prática: em prova, "LABA+ICS" como resposta para DPOC sem asma quase sempre é a alternativa errada. Se o ICS tem lugar, ele entra como tripla.
Quando os eosinófilos indicam corticoide inalatório?
A Figura 3.10 lista os fatores a considerar ao somar ICS ao broncodilatador de longa ação:
| Força | Fatores |
|---|---|
| Favorece fortemente | Internação por exacerbação; ≥ 2 exacerbações moderadas por ano; eosinófilos ≥ 300 células/µL; asma atual ou prévia |
| Favorece | 1 exacerbação moderada por ano; eosinófilos de 100 a < 300 células/µL |
| Contra | Pneumonias de repetição; eosinófilos < 100 células/µL; história de infecção por micobactéria |
As exacerbações da tabela são as que ocorrem apesar de manutenção adequada com broncodilatador de longa ação. Os eosinófilos formam um contínuo: os valores são cortes aproximados e a contagem flutua. A figura vale para o início do ICS; a retirada segue outras regras (veja abaixo).
Como ajustar o tratamento no seguimento?
O seguimento segue a lógica revisar, avaliar e ajustar. Revisar dispneia e risco de exacerbação (história e eosinófilos). Avaliar técnica inalatória, adesão e medidas não farmacológicas. Ajustar, escalonando ou desescalonando, trocando dispositivo ou molécula da mesma classe e revendo a resposta depois.
O algoritmo de seguimento (Figura 3.9) vale para qualquer paciente já em manutenção, seja qual for o grupo atribuído no início. Se a resposta é adequada, mantém-se o tratamento. Se não, escolhe-se o traço a tratar: dispneia ou exacerbações. Quando os dois estão presentes, segue-se a trilha de exacerbação.
Trilha da dispneia persistente:
- Em monoterapia broncodilatadora: passar para LABA+LAMA.
- Sem melhora com o segundo broncodilatador: considerar trocar dispositivo ou molécula, iniciar ou intensificar a reabilitação pulmonar e considerar ensifentrina, se disponível.
- Em qualquer etapa: investigar e tratar outras causas de dispneia.
Trilha da exacerbação (uma ou mais moderadas ou graves):
| Tratamento atual | Situação | Conduta sugerida |
|---|---|---|
| LABA ou LAMA | Eosinófilos < 300 | LABA+LAMA |
| LABA ou LAMA | Eosinófilos ≥ 300 | LABA+LAMA+ICS (ramo da Figura 3.9) |
| LABA+LAMA | Eosinófilos ≥ 100 | LABA+LAMA+ICS; a resposta tende a ser maior quanto mais altos os eosinófilos |
| LABA+LAMA | Eosinófilos < 100 | Azitromicina (em quem não fuma; pesar resistência) ou roflumilaste (VEF1 < 50%, bronquite crônica e exacerbação prévia com internação) |
| LABA+LAMA+ICS | Eosinófilos ≥ 300 | Considerar biológico: dupilumabe (se bronquite crônica) ou mepolizumabe (com ou sem bronquite crônica) |
| LABA+LAMA+ICS | Qualquer contagem | Azitromicina ou roflumilaste nos mesmos perfis |
Na Figura 3.9, a seta para o biológico parte da tripla quando há duas exacerbações moderadas ou uma grave e eosinófilos ≥ 300. A bronquite crônica, nesse contexto, é tosse produtiva crônica por 3 meses no ano anterior, sem outra causa. A indicação de biológico costuma ficar com o especialista.
A espirometria deve ser repetida ao menos uma vez por ano, sem interromper o broncodilatador.
Na prática: paciente em LABA+LAMA que exacerbou com eosinófilos de 150: a resposta é tripla, e não azitromicina. Com eosinófilos de 80, a tripla deixa de ser o próximo passo.
Quando retirar o corticoide inalatório?
Em quem usa LABA+LAMA+ICS, o ICS só deve ser retirado se:
- foi iniciado sem indicação adequada;
- não houve resposta ao ICS;
- houve efeitos colaterais significativos;
- houve pneumonia grave ou recorrente.
Riscos e benefícios da retirada devem ser pesados, com supervisão médica próxima. Com eosinófilos ≥ 300 células/µL, a desescalada se associa a maior chance de novas exacerbações.
O que é atividade da doença e por que ela importa?
É a seção nova do GOLD 2026. Atividade da doença são os processos biológicos que causam dano e podem ser revertidos ou controlados com tratamento. Na DPOC, os eosinófilos sanguíneos já ajudam a identificar inflamação tipo 2; outros biomarcadores ainda precisam de validação.
O GOLD propõe como objetivo central reduzir a atividade da doença, para que o paciente tenha:
- nenhuma exacerbação;
- nenhuma piora dos sintomas;
- nenhuma perda acelerada da função pulmonar.
É essa meta que explica por que uma exacerbação moderada já justifica considerar escalonamento.
Como reconhecer uma exacerbação e o que pode simulá-la?
Exacerbação é um evento agudo com piora dos sintomas em poucos dias (até 14 dias), com aumento da dispneia e/ou da tosse e do escarro, às vezes com taquipneia e/ou taquicardia. Costuma vir com inflamação local e sistêmica, por infecção, poluição ou outra agressão às vias aéreas.
O diagnóstico diferencial é obrigatório, porque outras condições simulam ou agravam o quadro (Figura 4.3):
| Condição | Ferramentas sugeridas |
|---|---|
| Bronquite aguda viral ou bacteriana | Pesquisa microbiológica, radiografia de tórax |
| Insuficiência cardíaca | Radiografia ou TC de tórax, NT-proBNP e BNP, ecocardiograma |
| Infarto e/ou arritmias | Eletrocardiograma, troponina |
| Embolia pulmonar | Probabilidade clínica, D-dímero, angiotomografia |
| Pneumonia | Pesquisa microbiológica, radiografia ou TC, ultrassom pulmonar |
| Pneumotórax (menos frequente) | Radiografia ou TC, ultrassom torácico |
O risco cardiovascular sobe durante e depois da exacerbação e continua elevado por até um ano.
Como classificar a gravidade pela proposta de Roma?
O GOLD abandonou a classificação pela utilização de recursos (internou = grave) e passou a graduar pela clínica no momento do atendimento, com a proposta de Roma (Figura 4.2):
| Variável | Leve (padrão) | Moderada |
|---|---|---|
| Dispneia (EVA 0–10) | < 5 | ≥ 5 |
| Frequência respiratória | < 24 irpm | ≥ 24 irpm |
| Frequência cardíaca | < 95 bpm | ≥ 95 bpm |
| SaO2 em repouso (ar ambiente ou O2 habitual) | ≥ 92% e queda ≤ 3% | < 92% e/ou queda > 3% |
| PCR | < 10 mg/L | ≥ 10 mg/L |
- Moderada: pelo menos 3 das 5 variáveis acima do limiar. A gasometria, se colhida, pode mostrar PaO2 de 70 a 80 mmHg.
- Grave: as mesmas variáveis da moderada e, na gasometria, PaO2 ≤ 60 mmHg e/ou hipercapnia com acidose (PaCO2 > 45 mmHg e pH < 7,35).
Sem laboratório, como na atenção primária, a gravidade pode ser estimada pela dispneia, frequência respiratória, frequência cardíaca e saturação. A PCR é recomendada onde estiver disponível.
Na prática: pela proposta de Roma, parte dos pacientes internados tem exacerbação leve. Internação mede o lugar de tratamento, e não a gravidade do evento.
Onde tratar a exacerbação?
A maioria é tratada fora do hospital. A decisão pesa a gravidade do evento, o estado mental, a estabilidade hemodinâmica, as comorbidades, o suporte em casa e a resposta ao tratamento inicial (Figura 4.4). Sinais de insuficiência respiratória, falha da resposta inicial, comorbidade grave ou suporte insuficiente em casa indicam internação. Hipoxemia ou hipercapnia em piora apesar do suporte ventilatório, piora do estado mental, necessidade de ventilação invasiva ou instabilidade hemodinâmica indicam UTI.
Como tratar a exacerbação?
O tratamento deve começar o quanto antes.
| Intervenção | O que o GOLD 2026 recomenda |
|---|---|
| Broncodilatador | SABA, com ou sem anticolinérgico de curta ação, como broncodilatador inicial |
| Corticoide sistêmico | Prednisona 40 mg/dia (ou equivalente) por 5 dias |
| Antibiótico | Quando indicado, por 5 dias (≤ 5 dias no tratamento ambulatorial; o texto do relatório admite 5 a 7 dias) |
| Metilxantinas | Não recomendadas, pelos efeitos adversos |
| Broncodilatador de longa ação | Manter durante a exacerbação ou iniciar o quanto antes, antes da alta |
Broncodilatador. Se usar nebulização, prefira a movida a ar, e não a oxigênio, pelo risco de elevar a PaCO2. Evite doses altas de SABA.
Corticoide. O corticoide sistêmico encurta a recuperação, melhora VEF1 e oxigenação e reduz recaída precoce, falha terapêutica e tempo de internação. A prednisolona oral é tão eficaz quanto a via intravenosa. Cursos mais longos se associam a pneumonia e mortalidade, e mesmo cursos curtos têm risco: o uso deve ficar restrito a exacerbações significativas.
Medidas adjuvantes. Balanço hídrico, profilaxia de tromboembolismo no internado, tratamento das comorbidades e reforço da cessação do tabagismo.
Na prática: prednisona 40 mg por 5 dias, e a via oral é tão eficaz quanto a intravenosa. Cinco dias tendem a bastar nas exacerbações leves a moderadas, e cursos mais longos se associam a mais pneumonia e mortalidade. Aminofilina não entra.
Quando dar antibiótico na exacerbação?
O antibiótico deve ser dado ao paciente que tem:
- pelo menos dois entre aumento da dispneia, febre, aumento do volume do escarro e purulência do escarro, desde que a purulência seja um deles;
- cultura de escarro positiva em exacerbação anterior; ou
- necessidade de ventilação mecânica, invasiva ou não invasiva.
A escolha segue a resistência local. O empírico inicial costuma ser aminopenicilina com clavulanato, macrolídeo, tetraciclina ou, em pacientes selecionados, quinolona. Em exacerbações frequentes, obstrução grave ou ventilação mecânica, colher cultura (risco de Pseudomonas e germes resistentes). A procalcitonina não é recomendada para decidir o antibiótico.
Quando indicar VNI e quando intubar?
O alto fluxo nasal (HFNT) é o primeiro modo na insuficiência respiratória aguda hipoxêmica. Na hipercápnica, ou quando o alto fluxo não funciona, usa-se VNI, salvo contraindicação absoluta. A VNI melhora a troca gasosa, reduz o trabalho respiratório, a necessidade de intubação, o tempo de internação e a mortalidade.
| Indicações | |
|---|---|
| VNI (pelo menos uma) | Acidose respiratória (PaCO2 ≥ 45 mmHg e pH ≤ 7,35); dispneia grave com sinais de fadiga muscular respiratória (musculatura acessória, respiração paradoxal, tiragem intercostal); hipoxemia persistente apesar do oxigênio |
| Intubação | Hipoxemia grave persistente apesar de alto fluxo ou VNI; intolerância a alto fluxo e/ou VNI; pós-parada respiratória ou cardíaca; rebaixamento de consciência ou agitação não controlada com sedação; aspiração maciça ou vômitos persistentes; incapacidade persistente de eliminar secreções; instabilidade hemodinâmica grave sem resposta a volume e vasoativos; arritmias ventriculares ou supraventriculares graves |
Quando o paciente tolera pelo menos 4 horas sem suporte, a VNI pode ser suspensa sem desmame.
O que fazer antes e depois da alta?
- Manutenção com broncodilatador de longa ação iniciada o quanto antes.
- ICS na alta: com pelo menos uma exacerbação moderada ou grave e eosinófilos elevados, considerar ICS somado à dupla broncodilatação.
- Reavaliação precoce, em até 1 mês, e nova consulta em 3 meses para confirmar a volta à estabilidade, revisar sintomas e espirometria e reavaliar a necessidade de oxigênio domiciliar.
- Prevenção de novos eventos: rever o tratamento da DPOC e das comorbidades. Em exacerbações recorrentes ou internações, TC para pesquisar bronquiectasias e enfisema.
A recuperação pode levar 4 a 6 semanas, e parte dos pacientes não volta ao estado anterior. A readmissão em 30 dias ocorre em 30% a 50% dos internados, e a mortalidade em cinco anos após uma internação é de cerca de 50%.
Na prática: dar alta com SABA isolado depois de uma internação por exacerbação é erro. O paciente sai com broncodilatador de longa ação e, se os eosinófilos forem elevados, com ICS considerado.
Quais medidas não farmacológicas não podem faltar?
Cessação do tabagismo. Todo fumante deve ser fortemente estimulado e apoiado a parar. Reposição de nicotina e farmacoterapia aumentam a abstinência de longo prazo. Não há evidência de eficácia e segurança do cigarro eletrônico como auxílio para parar de fumar.
Vacinas. Todas as vacinas recomendadas pelas diretrizes locais. Influenza, pneumococo e VSR reduzem infecções respiratórias baixas. Covid conforme as recomendações nacionais. Tdap para quem não foi vacinado na adolescência e vacina contra herpes-zóster de rotina.
Reabilitação pulmonar. Treinamento físico com educação melhora capacidade de exercício, sintomas e qualidade de vida em todos os graus de gravidade.
Oxigênio domiciliar prolongado. Melhora a sobrevida na hipoxemia crônica grave em repouso. Indicações em DPOC estável:
| Critério | Condição |
|---|---|
| PaO2 ≤ 55 mmHg ou SaO2 ≤ 88% | Com ou sem hipercapnia, confirmado duas vezes em 3 semanas |
| PaO2 de 55 a 60 mmHg ou SaO2 de 88% | Se houver hipertensão pulmonar, edema periférico sugestivo de insuficiência cardíaca ou policitemia (hematócrito > 55%) |
O oxigênio não deve ser prescrito de rotina na dessaturação moderada em repouso ou ao esforço. A VNI domiciliar de longo prazo pode ajudar pacientes selecionados, sobretudo com hipercapnia diurna acentuada e internação recente. Abordagens paliativas são eficazes para controlar sintomas na doença avançada.
Quando encaminhar para redução de volume ou transplante?
Esses procedimentos são do especialista. O papel do clínico é reconhecer o candidato e encaminhar:
- Redução de volume pulmonar (cirúrgica ou broncoscópica): enfisema com hiperinsuflação importante refratário ao tratamento clínico otimizado. Bulectomia em pacientes com bolha grande.
- Transplante pulmonar, encaminhar para avaliação: doença progressiva apesar do tratamento máximo, sem indicação de redução de volume, com BODE de 5 a 6, PaCO2 > 50 mmHg e/ou PaO2 < 60 mmHg e VEF1 < 25%.
- Transplante pulmonar, considerar inclusão em lista: BODE ≥ 7, VEF1 < 15% a 20%, três ou mais exacerbações graves no ano anterior, uma exacerbação grave com insuficiência respiratória hipercápnica ou hipertensão pulmonar moderada a grave.
Erros comuns na prova e no plantão
- Usar o grau GOLD para definir o grupo. O grau mede a obstrução. O grupo ABE vem de exacerbações e sintomas.
- Achar que A e B podem ter uma exacerbação. A e B têm zero exacerbações moderadas ou graves no ano anterior. Uma já é grupo E.
- Inverter a regra do pós-broncodilatador. Pré-broncodilatador sem obstrução dispensa o pós, salvo suspeita muito alta. Pré com obstrução exige o pós para confirmar.
- Reclassificar em ABE quem já usa manutenção. Paciente tratado segue o algoritmo de seguimento, por dispneia ou exacerbação.
- Prescrever LABA+ICS na DPOC sem asma. Se há indicação de ICS, a escolha é a tripla.
- Ignorar os eosinófilos. Abaixo de 100, o ICS tende a não ajudar e pesa contra o uso. Acima de 300, ele favorece fortemente.
- Retirar ICS sem critério. Com eosinófilos ≥ 300, a retirada aumenta a chance de exacerbação.
- Chamar de grave toda exacerbação internada. A gravidade, pela proposta de Roma, é clínica.
- Estender o corticoide. O esquema é 40 mg de prednisona por 5 dias.
- Dar antibiótico a toda exacerbação. A indicação depende de purulência com outro sintoma, cultura positiva prévia ou ventilação mecânica.
- Dar alta só com SABA. O broncodilatador de longa ação deve começar antes da alta.
Perguntas frequentes
Uma única exacerbação moderada coloca o paciente no grupo E? Sim. Pelo GOLD 2026, uma ou mais exacerbações moderadas ou graves no ano anterior definem o grupo E, independentemente dos sintomas. A e B só existem com zero exacerbações moderadas ou graves.
Sempre preciso fazer espirometria pós-broncodilatador? O diagnóstico de DPOC exige VEF1/CVF pós-broncodilatador < 0,7. Mas, se a espirometria pré-broncodilatador não mostra obstrução, o pós não é necessário, a não ser que a suspeita clínica seja muito alta. Se o pré mostra obstrução, confirme com o pós.
Qual é o tratamento inicial da DPOC pelo GOLD 2026? Grupo A: um broncodilatador, de preferência de longa ação. Grupos B e E: LABA+LAMA. No grupo E com eosinófilos ≥ 300 células/µL, considerar LABA+LAMA+ICS. Todos recebem broncodilatador de curta ação de resgate.
Quando somar corticoide inalatório? Quando o paciente exacerba em LABA+LAMA com eosinófilos ≥ 100 células/µL, ou no início do grupo E com eosinófilos ≥ 300. Com asma concomitante, o ICS é mandatório. Abaixo de 100, prefira azitromicina ou roflumilaste nos perfis indicados.
Pontos-chave
- Diagnóstico: VEF1/CVF pós-broncodilatador < 0,7 em contexto clínico compatível. Pré sem obstrução dispensa o pós, salvo suspeita muito alta.
- Graus GOLD 1 a 4 medem a obstrução, e não a gravidade da doença nem o grupo.
- Grupo E: ≥ 1 exacerbação moderada ou grave no ano anterior. A e B: zero, separados por mMRC 0–1/CAAT < 10 ou mMRC ≥ 2/CAAT ≥ 10.
- Início: A recebe um broncodilatador; B e E recebem LABA+LAMA; E com eosinófilos ≥ 300, considerar tripla.
- LABA+ICS não é encorajado. Asma concomitante: tratar como asma, com ICS.
- Seguimento por dispneia ou exacerbação, qualquer que tenha sido o grupo inicial. Os dois juntos: trilha de exacerbação.
- Retirada de ICS só com indicação inadequada, sem resposta, efeito colateral significativo ou pneumonia grave ou recorrente.
- Exacerbação: SABA ± anticolinérgico de curta ação, prednisona 40 mg por 5 dias, antibiótico por 5 dias quando indicado, sem metilxantinas.
- Gravidade pela proposta de Roma; VNI na insuficiência hipercápnica.
- Alta com broncodilatador de longa ação, ICS considerado se eosinófilos elevados e reavaliação em até 1 mês.
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Este conteúdo tem caráter educacional e de revisão para preparação ao TECM, não substituindo a leitura integral da diretriz nem o julgamento clínico individualizado. As condutas devem ser sempre adaptadas ao contexto de cada paciente.
Referências
Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD). Global Strategy for the Diagnosis, Management, and Prevention of Chronic Obstructive Pulmonary Disease (2026 Report). © 2025, 2026 Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease, Inc. Disponível em www.goldcopd.org.
