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Sepse e Choque Séptico: o que a Surviving Sepsis Campaign 2026 mudou

Sepse e choque séptico segundo a Surviving Sepsis Campaign 2026: rastreio, pacote inicial, fluidos 30 mL/kg, PAM 65, noradrenalina e corticoide.

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Sepse e Choque Séptico: o que a Surviving Sepsis Campaign 2026 mudou

A sepse permanece como uma das emergências mais cobradas no TECM, e por bons motivos: é definida como disfunção orgânica aguda e ameaçadora à vida secundária à infecção, e exige decisões rápidas à beira do leito. A atualização 2026 da Surviving Sepsis Campaign (SSC) reorganiza recomendações antigas, revisita evidências e introduz pontos novos relevantes para a prova e para a prática. Este artigo concentra os números exatos, a força de cada recomendação e a qualidade da evidência, no formato que você precisa para resolver questões com segurança.

Ao longo do texto, lembre-se da convenção GRADE adotada pela SSC: “recomendamos” indica recomendação forte; “sugerimos” indica recomendação condicional (chamada de “fraca” em diretrizes anteriores).

Definições: a base Sepsis-3

As diretrizes mantêm o alinhamento ao Sepsis-3 (Third International Consensus Definitions).

Conceito Definição (SSC 2026 / Sepsis-3)
Sepse Disfunção orgânica aguda e ameaçadora à vida decorrente de infecção
Choque séptico Subgrupo da sepse com disfunção circulatória que confere maior risco de mortalidade
Diagnóstico Avaliação clínica holística, que pode variar conforme recursos locais (ex.: disponibilidade laboratorial)

As diretrizes também padronizam a linguagem de probabilidade diagnóstica — sepse definitiva, provável, possível e improvável — usada de forma transversal em várias recomendações, sobretudo as de antibioticoterapia.

Na prática: o diagnóstico de sepse pode ser incerto à beira do leito. A SSC reconhece isso e gradua as condutas (especialmente o tempo de antibiótico) conforme a probabilidade de infecção e a presença ou não de choque.

Rastreio e gestão precoce

O reconhecimento precoce é o primeiro elo da cadeia de sobrevida. A SSC 2026 reforça programas de melhoria de desempenho e ferramentas estruturadas de rastreio.

Recomendação Conduta Força / Certeza
Programa de melhoria de desempenho Implementar programa institucional para sepse (rastreio, POPs, tratamento padronizado) Forte / muito baixa
Ferramenta de rastreio hospitalar Usar NEWS, NEW2, MEWS ou SIRS em vez de qSOFA como ferramenta isolada Forte / moderada
“Code sepsis” multidisciplinar Sugerido como resposta organizada à sepse Condicional / baixa
Rastreio pré-hospitalar Usar ferramenta padronizada de rastreio na ambulância/transporte aéreo Condicional / muito baixa

Ponto de prova importante: a diretriz recomenda explicitamente NEWS, NEW2, MEWS ou SIRS em vez de qSOFA como ferramenta única de rastreio. O qSOFA tem baixa sensibilidade — deve alertar para a possibilidade de sepse, mas não serve sozinho para triagem. Em metanálise de 50 estudos observacionais, iniciativas de qualidade em sepse associaram-se a maior entrega de cuidados recomendados e menor mortalidade.

Na prática: qSOFA positivo aumenta a suspeita, mas qSOFA negativo não afasta sepse. Para rastrear, prefira NEWS2 e ative o fluxo institucional de resposta.

O pacote inicial: lactato, culturas, antibiótico e fluidos

Sepse e choque séptico são emergências médicas — tratamento e ressuscitação devem começar imediatamente (good practice statement). O pacote inicial reúne quatro pilares.

Lactato e hemoculturas

Medida Recomendação Força / Certeza
Lactato sérico Medir lactato em sepse possível, provável ou definitiva Condicional / baixa
Hemoculturas Coletar hemoculturas, idealmente antes do antimicrobiano Forte

As hemoculturas devem ser coletadas o mais rápido possível, idealmente antes do antimicrobiano — mas sem atrasar o início do antibiótico, especialmente em pacientes hipotensos. O dado citado é eloquente: a positividade das hemoculturas cai de 31,4% (pré-antimicrobiano) para 19,4% quando colhidas após o antibiótico, uma redução absoluta de 12,0% e relativa de 38,2%.

Antibiótico precoce

Esta é a área com a mensagem temporal mais forte da diretriz.

Cenário clínico Conduta Força / Certeza
Choque séptico (possível, provável ou definitivo) Antimicrobiano imediato, idealmente em até 1 hora Forte
Sepse provável/definitiva sem choque Antimicrobiano imediato, idealmente em até 1 hora Forte
Sepse possível sem choque Investigação rápida; se a preocupação com infecção persiste, antimicrobiano dentro de 3 horas a partir do reconhecimento Condicional
Baixa probabilidade de infecção Investigar enquanto se considera a necessidade de antimicrobiano; se a preocupação com infecção persiste, administrar terapia Condicional

A SSC emitiu recomendação forte para administrar antimicrobiano imediatamente (em até 1 hora) em adultos com choque séptico possível, provável ou definitivo, refletindo a associação mais consistente e robusta entre o tempo até o antibiótico e a mortalidade de curto prazo nesse grupo.

Na prática: no choque séptico — e também na sepse provável ou definitiva sem choque — trate o antibiótico como você trataria a desfibrilação numa FV: relógio correndo, meta de 1 hora (recomendação forte). Só na sepse possível, com diagnóstico mais incerto, há espaço para investigar, com teto de 3 horas.

Fluidos: 30 mL/kg de cristaloide balanceado

Recomendação Conduta Força / Certeza
Volume inicial Pelo menos 30 mL/kg de cristaloide IV nas primeiras 3 horas (hipoperfusão induzida por sepse ou choque) Condicional / —
Tipo de fluido (1ª linha) Cristaloides como fluido de primeira linha Forte / moderada
Cristaloide balanceado Cristaloides balanceados em vez de salina 0,9% Condicional / moderada
Albumina Cristaloides isolados em vez de cristaloides + albumina suplementar Condicional

O volume fixo de 30 mL/kg baseia-se em evidência observacional. Atenção à exceção destacada na própria diretriz: para pacientes com sepse e traumatismo cranioencefálico, sugere-se usar salina 0,9% (e não balanceado). A hipoperfusão pode ser identificada por hipotensão (ex.: PAM < 65 mmHg), sinais clínicos ou lactato elevado — lactato ≥ 4 mmol/L é um marcador clássico de hipoperfusão, e o clareamento (normalização seriada) do lactato deve guiar a ressuscitação.

Na prática: o cálculo é por peso. Em obesos (IMC > 30 kg/m²), a diretriz sugere considerar o peso corporal ajustado para estimar o volume, evitando sobrecarga em quem pesa muito.

Metas da ressuscitação

Depois do bolus inicial, a ressuscitação é guiada por alvos hemodinâmicos e marcadores de perfusão.

Alvo / Marcador Recomendação Força / Certeza
PAM inicial Alvo de PAM ≥ 65 mmHg em vez de alvos mais altos Forte / moderada
PAM em ≥ 65 anos Faixa inicial de 60–65 mmHg em vez de faixas mais altas Condicional
Lactato seriado Usar medidas seriadas de lactato para guiar a ressuscitação Condicional / baixa
Tempo de enchimento capilar (TEC) Usar TEC como adjuvante a outras medidas de perfusão Condicional / baixa

A meta de PAM ≥ 65 mmHg apoia-se principalmente em RCT que comparou alvos de PAM em choque séptico, sem benefício consistente de alvos mais altos — que, ao contrário, associaram-se a maior risco de fibrilação atrial. Para o lactato, a diretriz orienta individualizar a administração de fluidos após o bolus inicial, guiando-se pelo decremento do lactato (clareamento), em vez de protocolos fixos. O TEC ganhou espaço como marcador de perfusão tecidual periférica reprodutível e factível, inclusive em cenários de baixos recursos; o alvo testado em ensaios foi normalizar o TEC para ≤ 3 segundos.

Na prática: PAM 65 é o piso para a maioria. No idoso (≥ 65 anos), 60–65 mmHg é aceitável. Acompanhe a resposta com clareamento de lactato e TEC, não apenas com a pressão.

Vasopressores: noradrenalina como pedra angular

Situação Agente Força / Certeza
Choque séptico (1ª linha) Noradrenalina em vez de dopamina, adrenalina ou selepressina Forte
Choque séptico (1ª linha) Noradrenalina em vez de vasopressina ou angiotensina II Condicional
Doses crescentes de noradrenalina Adicionar vasopressina Condicional / moderada
PAM inadequada apesar de noradrenalina + vasopressina Adicionar adrenalina Condicional / muito baixa
Choque séptico com disfunção cardíaca concomitante Noradrenalina ou adrenalina como 1ª linha Condicional / muito baixa
Terlipressina Sugere-se contra o uso Condicional / baixa

A noradrenalina permanece como vasopressor de primeira linha. A vasopressina entra como segundo agente quando há escalonamento da noradrenalina (apoiada em evidência de menor uso de terapia renal substitutiva), e a adrenalina como terceiro agente. Pontos novos úteis para a prova: na disfunção cardíaca concomitante, noradrenalina ou adrenalina podem ser 1ª linha — noradrenalina pode ser preferida em taquiarritmia/taquicardia sinusal significativa, e adrenalina em bradiarritmia/bradicardia sinusal significativa. Em cenários sem vasopressina disponível, a adrenalina pode ser adicionada à noradrenalina.

A diretriz também aborda o início precoce e a via do vasopressor: sugere iniciar vasopressores perifericamente para restaurar a pressão enquanto o acesso central é providenciado, com evidência de viabilidade e segurança da administração periférica.

Na prática: noradrenalina é a resposta padrão de prova para 1ª linha. Subindo a dose, agregue vasopressina; persistindo PAM baixa, agregue adrenalina. Não há vergonha em começar o vasopressor em acesso periférico enquanto se obtém o central.

Corticoide: quando usar hidrocortisona

Recomendação Conduta Força / Certeza
Corticoide IV no choque séptico Sugere-se usar corticoide IV Condicional / baixa

A SSC sugere o uso de corticoide IV no choque séptico. A base de evidência é robusta em volume (metanálise com 45 RCTs e 9.543 pacientes) e mostra possível pequena redução de mortalidade em 28 dias (RR 0,92; IC 95% 0,83–1,01) e em 60 dias ou mais (RR 0,94; IC 95% 0,88–1,00), além de maior reversão do choque em 7 dias (RR 1,29; IC 95% 1,13–1,46, alta certeza). Os efeitos adversos incluem mais hiperglicemia (RR 1,19) e hipernatremia (RR 1,64). Importante: o subgrupo de sepse sem choque não mostrou benefício (RR 1,09; IC 95% 0,91–1,31).

Quanto ao regime, a diretriz referencia o esquema do estudo ADRENAL: 200 mg IV de hidrocortisona por dia, durante 7 dias (equivalente de hidrocortisona, ~200 mg por período de 24 horas).

Na prática: corticoide é para o choque séptico, não para sepse sem choque. O esquema de referência é hidrocortisona 200 mg/dia por 7 dias.

Controle do foco

Recomendação Conduta Força / Certeza
Controle precoce do foco Sugere-se controle precoce em vez de tardio, idealmente em até 6 horas Condicional

O controle do foco é princípio fundamental e engloba intervenções cirúrgicas e procedurais para remover a fonte de infecção (ex.: abscessos intra-abdominais, peritonite, colangite por estenose biliar). A definição de “precoce” mais usada nos estudos foi controle dentro de 6 horas a partir do diagnóstico, do diagnóstico de choque séptico ou da identificação da necessidade de controle. A diretriz adverte contra a estabilização clínica prolongada sem controle do foco quando este é necessário.

Na prática: identificou foco drenável ou cirúrgico? O relógio aqui é de 6 horas. Não posterge indefinidamente o procedimento na tentativa de “estabilizar primeiro”.

Antibioticoterapia: descalonamento e duração

Além do tempo até a primeira dose, a SSC trata da gestão racional do antimicrobiano (stewardship).

Tema Recomendação Força / Certeza
Descalonamento (patógeno confirmado) Descalonar a terapia em vez de não descalonar Forte
Descalonamento (sem patógeno identificado) Sugere-se descalonar a terapia Condicional
Duração Curso mais curto em vez de mais longo (com controle adequado do foco) Condicional / muito baixa
Biomarcador para suspensão Procalcitonina + avaliação clínica em vez de avaliação clínica isolada Condicional / baixa
Descontaminação digestiva seletiva Sugerida em ventilados, em unidades com baixa prevalência de resistência Condicional / moderada

Sobre a duração, a diretriz cita o ensaio BALANCE, que comparou 7 vs. 14 dias de tratamento para bacteremia e mostrou não inferioridade do esquema de 7 dias, reforçando cursos mais curtos. Para a decisão de suspender, o estudo ADAPT-Sepsis adiciona evidência de que a procalcitonina pode reduzir com segurança a duração do antibiótico.

Na prática: com foco controlado e paciente melhorando, prefira o curso curto (a referência é 7 dias na bacteremia). Patógeno isolado? Descalone. A procalcitonina é adjuvante para guiar a suspensão, nunca substituta da avaliação clínica.

Perguntas frequentes

Qual o volume de cristaloide na ressuscitação inicial da sepse?

Pelo menos 30 mL/kg de cristaloide IV nas primeiras 3 horas, em adultos com hipoperfusão induzida por sepse ou choque séptico (recomendação condicional). Prefira cristaloides balanceados à salina 0,9%, exceto na coexistência de TCE, situação em que se sugere salina 0,9%.

Em quanto tempo o antibiótico deve ser iniciado?

No choque séptico (possível, provável ou definitivo), recomendação forte para antimicrobiano imediato, idealmente em até 1 hora. Na sepse provável ou definitiva sem choque, a recomendação também é forte: administrar imediatamente, idealmente em até 1 hora. Já na sepse possível sem choque, a recomendação é condicional — investigação rápida e, se a preocupação com infecção persiste, antimicrobiano dentro de 3 horas a partir do reconhecimento (o teto de 3 horas aplica-se a esse cenário). As hemoculturas devem preceder o antibiótico sempre que possível, mas nunca devem atrasá-lo em pacientes hipotensos.

Qual a meta de PAM no choque séptico?

Alvo inicial de PAM ≥ 65 mmHg (recomendação forte), sem benefício de alvos mais altos. Em pacientes com 65 anos ou mais, sugere-se faixa inicial de 60–65 mmHg.

Noradrenalina, vasopressina ou adrenalina: qual a ordem?

Noradrenalina é a primeira linha (forte, sobre dopamina, adrenalina e selepressina). Com doses crescentes de noradrenalina, adiciona-se vasopressina. Se a PAM permanecer inadequada apesar de noradrenalina e vasopressina, adiciona-se adrenalina.

Quando indicar corticoide e em que dose?

Sugere-se corticoide IV no choque séptico (condicional, baixa certeza) — não na sepse sem choque, que não mostrou benefício. O regime de referência é hidrocortisona 200 mg IV por dia durante 7 dias.

Qual o prazo para o controle do foco?

Sugere-se controle precoce em vez de tardio, idealmente em até 6 horas a partir da identificação da necessidade, quando o paciente requer controle do foco (recomendação condicional).

Pontos-chave: o que todo médico deve saber

  • Sepse é disfunção orgânica aguda e ameaçadora à vida por infecção; choque séptico é o subgrupo com disfunção circulatória e maior mortalidade (Sepsis-3).
  • Para rastreio hospitalar, prefira NEWS, NEW2, MEWS ou SIRS ao qSOFA isolado (forte). qSOFA tem baixa sensibilidade.
  • Pacote inicial: lactato, hemoculturas antes do antibiótico (sem atrasá-lo), antimicrobiano precoce e 30 mL/kg de cristaloide balanceado em 3 horas.
  • Choque séptico: antibiótico em até 1 hora (recomendação forte).
  • Metas: PAM ≥ 65 mmHg (60–65 em ≥ 65 anos), clareamento seriado de lactato e TEC ≤ 3 segundos como adjuvante.
  • Vasopressores: noradrenalina (1ª linha, forte) → vasopressina → adrenalina. Início periférico é seguro enquanto se obtém acesso central.
  • Corticoide IV (hidrocortisona 200 mg/dia por 7 dias) apenas no choque séptico — não na sepse sem choque.
  • Controle do foco em até 6 horas quando indicado.
  • Antibioticoterapia: descalonar quando possível (forte com patógeno confirmado), cursos mais curtos (7 dias na bacteremia, BALANCE) e procalcitonina + clínica para guiar a suspensão.

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Este conteúdo tem caráter educacional e de apoio à preparação para provas de título. Não substitui o julgamento clínico individualizado nem protocolos institucionais. Sempre consulte a diretriz original e a literatura vigente para decisões assistenciais.

Referência: Surviving Sepsis Campaign 2026 — International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock. Society of Critical Care Medicine, Critical Care Medicine, abril de 2026.