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Tuberculose em doenças imunomediadas: o que todo médico deve saber

Rastreio e tratamento da infecção tuberculosa em pacientes com doenças imunomediadas que vão usar imunossupressores e anti-TNF, segundo a SBR 2025.

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Tuberculose em doenças imunomediadas: o que todo médico deve saber

A reativação de tuberculose em pacientes que iniciam imunossupressores e imunobiológicos é um dos temas de interface entre clínica médica, reumatologia, pneumologia e infectologia que mais aparece em prova de título, justamente porque combina raciocínio epidemiológico, interpretação de testes e decisão terapêutica. O Brasil concentra cerca de um terço dos casos novos de tuberculose da América Latina, o que torna o tema ainda mais sensível na nossa realidade.

Em 2025, a Sociedade Brasileira de Reumatologia publicou, em colaboração com as sociedades de dermatologia, pneumologia, infectologia e o grupo de estudo de doença inflamatória intestinal (GEDIIB), uma diretriz dedicada ao manejo da infecção tuberculosa nas doenças inflamatórias imunomediadas (DIIM). São nove recomendações construídas por uma força-tarefa de 42 especialistas, a partir de 14 perguntas clínicas e revisão sistemática, com votação pelo método Delphi.

Neste artigo organizamos, de forma didática, essas nove recomendações com seu grau de evidência (GRADE) e nível de concordância, sempre fiéis aos números da fonte. O foco prático recai sobre o que mais importa para a prova e para o consultório: quem rastrear, com que testes, como interpretar o resultado, quando indicar o tratamento preventivo e como conduzir cada cenário com anti-TNF e demais classes de medicamentos.

Por que rastrear tuberculose antes do imunobiológico

A tuberculose doença (TBD) foi, nos últimos quatro anos, a segunda causa de morte por agente infeccioso isolado, atrás apenas do SARS-CoV-2. Estima-se que 1,7 bilhão de pessoas tenham infecção tuberculosa (ITB, o termo atual para a antiga infecção latente), e essa condição progride para doença em 5 a 10% dos indivíduos quando a resposta imune ao bacilo é ineficaz.

A questão central é que o próprio paciente com DIIM já tem risco aumentado de TBD, mesmo sem biológico. Na artrite reumatoide (AR), esse risco varia de 2,0 a 8,9 vezes em pacientes não tratados com agentes biológicos. E há um mecanismo específico: o TNF é fundamental para manter a integridade do granuloma. Bloquear o TNF aumenta a suscetibilidade à TBD em quem tem ITB. Keane et al. mostraram, em 2001, que a incidência de TBD nos Estados Unidos saltou de 6,2 para 24,4 por 100.000 habitantes após a introdução dos inibidores de TNF (TNFi).

Por outro lado, a inibição de CD20, CD28, IL-1, IL-6, IL-12, IL-23 e IL-17a tem efeito desprezível ou nulo sobre o granuloma. Em estudos com tocilizumabe, rituximabe, abatacepte, ustequinumabe, secuquinumabe, ixequizumabe, risanquizumabe e guselcumabe, a ocorrência de TBD foi baixa ou ausente. A evidência atual sugere que inibidores de IL-17 ou IL-23 são bastante seguros em pacientes com ITB ou em risco de TBD, especialmente quando comparados aos TNFi.

Na prática: o raciocínio de fundo é simples. Toda DIIM em uso de imunossupressor aumenta o risco de tuberculose, e o anti-TNF é o que mais aumenta, porque desmonta o granuloma. Por isso, no Brasil, com alta carga de TB, rastrear antes de iniciar qualquer DMARD é a regra, e não a exceção.

O peso de cada classe de medicamento

A diretriz reuniu as incidências de TBD por classe. Os tsDMARDs (inibidores de JAK) foram o grupo com menor incidência e, por isso, serviram de comparador. A tabela abaixo resume as incidências combinadas extraídas dos estudos incluídos.

Classe de DMARD Incidência combinada de TBD/100.000 pessoas-ano (IC 95%)
Todos os TNFi 0,84 (0,7–0,97)
Etanercepte 0,39 (0,24–0,54)
Adalimumabe 0,85 (0,62–1,07)
Infliximabe 0,98 (0,60–1,36)
Golimumabe 0,47 (0,28–0,66)
Certolizumabe 0,19 (0,02–0,36)
Todos os bDMARDs não TNFi 0,35 (0,25–0,46)
Rituximabe 0,72 (-0,63–2,07)
Abatacepte 0,32 (0,21–0,43)
Tocilizumabe 0,32 (0,01–0,63)
Todos os tsDMARDs 0,18 (0,09–0,27)
Todos os csDMARDs 0,20 (0,05–0,34)

Quando se compara a razão de taxas de incidência (IRR) usando os tsDMARDs como referência, adalimumabe e infliximabe elevam as taxas de TBD de forma muito semelhante, em torno de 2,5 vezes mais que os usuários de tsDMARD. A tabela a seguir traz essa comparação.

DMARD IRR (referência: tsDMARDs) p
tsDMARDs Comparador Comparador
csDMARDs 1,67 < 0,00001
Todos os TNFi 3,61 < 0,00001
Etanercepte 1,67 < 0,0001
Adalimumabe 4,05 < 0,0001
Infliximabe 4,19 < 0,0001
Certolizumabe pegol 0,82 0,0474
Golimumabe 2,28 < 0,0001
bDMARDs não TNFi 1,62 < 0,0001
Tocilizumabe 1,37 0,0003
Rituximabe 3,08 < 0,0001
Abatacepte 1,50 < 0,0001

Vale a ressalva da própria diretriz: a maioria dos estudos é retrospectiva, não comparativa e com alto risco de viés, além de haver viés de publicação favorecendo os TNFi (classe mais antiga e mais estudada). Por isso, embora os números apontem maior risco com TNFi, a recomendação de rastrear vale para todas as classes.

As nove recomendações em panorama

Todas as recomendações da diretriz são condicionais, e mais de 80% dos painelistas votaram “concordo” ou “concordo fortemente” em todos os cenários. A tabela abaixo resume as nove recomendações, com a certeza da evidência (GRADE) e o nível de concordância (LOA).

Recomendação (resumo) Certeza (GRADE) LOA
1 Investigar ITB de rotina e tratar quando indicado, em toda DIIM que vai iniciar imunossupressor, independentemente da classe, se não há história recente de tratamento de TBD ou ITB. Muito baixa 95,0%
2 Diagnosticar ITB e indicar tratamento preventivo (TPT) diante de PT ≥ 5 mm, IGRA positivo, sequelas de TBD em imagem ou exposição recente a TBD pulmonar/laríngea. Muito baixa* 100,0%
3 Quando PT/IGRA não estão disponíveis: sem história de tratamento prévio, recomendar TPT em decisão compartilhada após excluir TBD; com história de tratamento prévio, TPT não é obrigatório. Baixa 95,0%
4 PT e IGRA podem ser usados para diagnosticar ITB, pois não há padrão-ouro na prática clínica. Moderada 100,0%
5 Não é obrigatório nem recomendado fazer PT e IGRA simultaneamente; o tratamento da DIIM não deve ser adiado para isso. Moderada 97,5%
6 Diante de IGRA indeterminado, repetir o quanto antes; se permanecer inconclusivo, considerar TPT. Moderada 97,5%
7 Se o PT/IGRA pré-tratamento é negativo, repetir anualmente até o terceiro ano, sobretudo com TNFi; depois, vigilância clínica e epidemiológica. Moderada 85,0%
8 Ao trocar de medicação, com rastreio prévio negativo, repetir PT/IGRA anualmente por 3 anos, conforme a recomendação 7. Muito baixa 85,0%
9 Vacinados com BCG nos 2 anos anteriores: IGRA é preferível ao PT. Se BCG há mais de 2 anos, PT ou IGRA positivo é diagnóstico de ITB. Baixa 100,0%

Na prática: a recomendação 1 dá a moldura, a 2 dá os critérios de diagnóstico, e as demais resolvem cenários específicos (testes indisponíveis, resultado indeterminado, troca de droga, BCG). Decorar o critério de PT ≥ 5 mm e os quatro gatilhos de TPT da recomendação 2 resolve a maior parte das questões de prova.

Recomendação 1: rastrear toda DIIM que vai imunossuprimir

A primeira recomendação estabelece que a investigação de rotina para ITB, e o consequente tratamento preventivo quando indicado, deve ser feita em todas as pessoas com DIIM que vão se submeter a tratamento imunossupressor, independentemente da classe de medicamento escolhida, desde que não haja história recente de tratamento para TBD ou ITB.

A força-tarefa concluiu que, apesar de uma busca extensa (cerca de 10.000 títulos examinados), a literatura não permite diferenciar com razoável certeza estatística o risco de TBD entre as diferentes classes de DMARDs. Como o risco de TBD é maior nos pacientes com DIIM em uso de DMARDs, recomenda-se de forma condicional o rastreio em todos eles, em especial no Brasil e em países de alta incidência.

A diretriz lembra ainda o contexto brasileiro: pelas diretrizes nacionais, o rastreio de ITB já é indicado em quem vai usar TNFi ou corticoide em dose equivalente a 15 mg/dia ou mais de prednisona por mais de um mês.

Certeza da evidência (GRADE): muito baixa. LOA: 67,5% concordo fortemente e 27,5% concordo, somando 95%.

Recomendação 2: quando indicar o tratamento preventivo

Esta é a recomendação mais operacional e a de maior concordância (100%). O diagnóstico de ITB deve ser considerado e o tratamento preventivo indicado em qualquer das situações abaixo. Basta uma delas.

Critério para diagnóstico de ITB e indicação de TPT
1. Prova tuberculínica (PT) ≥ 5 mm
2. IGRA positivo
3. Sinais de sequela de TBD pulmonar em imagem (raio-X ou TC de tórax) em paciente não tratado previamente para TBD
4. Exposição recente a TBD pulmonar ou laríngea, na ausência de evidência clínica e/ou de imagem de TBD

Alguns detalhes que a fonte detalha e costumam ser cobrados:

  • O ponto de corte da PT para quem usa DMARDs é 5 mm. Não há evidência suficiente para reduzir esse corte abaixo de 5 mm nos pacientes com DIIM.
  • Para o IGRA, a positividade segue as recomendações do fabricante.
  • O raio-X de tórax é necessário antes de iniciar DMARDs.

A tabela abaixo lista os achados radiológicos de sequela de TBD que, em paciente nunca tratado, indicam ITB e tratamento preventivo, mesmo sem teste imunológico positivo.

Achados de imagem que indicam ITB (sequela de TBD, paciente não tratado)
Sequelas fibróticas
Nódulos calcificados em lobo superior
Espessamento pleural apical
Bronquiectasias de lobo superior
Calcificação granulomatosa intersticial
Cavitação
Calcificação de linfonodo, pericárdica ou pleural

A tomografia de tórax não é recomendada de rotina no rastreio se o raio-X está disponível. Porém, achados casuais dessas mesmas sequelas em TC feita por outro motivo, em quem usa DMARDs, devem motivar a prescrição de TPT, independentemente do resultado dos testes. Em imagens confundidoras, ou na presença de doença intersticial, derrame pleural ou algo que comprometa a acurácia do raio-X, deve-se solicitar TC e opinião de especialista (pneumologista/infectologista).

Quanto à exposição recente, define-se como contato domiciliar ou comunitário próximo, conhecido, com caso de TBD pulmonar ou laríngea nos últimos dois anos. O contato domiciliar é quem compartilha o mesmo espaço fechado de moradia com o caso-índice por uma ou mais noites, ou por períodos diurnos frequentes/prolongados. O contato comunitário próximo compartilha espaço fechado (local de convívio social, trabalho, escola) por períodos prolongados durante o dia. Ambos consideram os três meses anteriores ao início do tratamento.

Na prática: o resumo do comitê é direto. Oferece-se tratamento preventivo na presença de pelo menos um de três achados: positividade de PT ou IGRA, sinais de sequela de TBD na imagem pulmonar, ou história de exposição recente a TBD. Antes de tudo, é claro, exclui-se a TBD ativa.

Certeza da evidência (GRADE): muito baixa. LOA: 82,5% concordo fortemente e 17,5% concordo, somando 100%. (*) Há uma divergência interna na própria fonte: a tabela-resumo das recomendações classifica esta certeza como “moderada”, enquanto o texto detalhado da recomendação a descreve como “muito baixa”; adotamos aqui o valor do texto detalhado.

Onde estão os esquemas e as doses de tratamento

Aqui cabe uma observação importante de fidelidade. Esta diretriz brasileira é sobre rastreio e indicação do tratamento preventivo nas DIIM, e remete o esquema terapêutico às diretrizes nacionais. A fonte afirma que, no Brasil, estão disponíveis para o tratamento preventivo: isoniazida, rifampicina ou a combinação de isoniazida e rifapentina. O detalhamento de doses, durações e número de tomadas (por exemplo, os esquemas 6H/9H, 4R ou 3HP) consta do Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil e da nota informativa do Ministério da Saúde sobre ILTB, citados como referências, e não no corpo desta diretriz.

Opção de tratamento preventivo disponível no Brasil (segundo a fonte)
Isoniazida
Rifampicina
Combinação de isoniazida + rifapentina

Na prática: para a prova desta diretriz, o ponto-chave é saber que o tratamento preventivo é obrigatório diante de qualquer resultado positivo, depois de excluída a TBD ativa, e que existem essas três opções disponíveis no país. As doses exatas e a duração de cada esquema devem ser confirmadas no Manual do Ministério da Saúde antes de prescrever, e não foram especificadas nesta recomendação.

Recomendação 3: quando PT e IGRA não estão disponíveis

A indisponibilidade de testes é uma realidade brasileira, e a diretriz a enfrenta de forma pragmática.

Cenário (PT/IGRA indisponíveis, TBD excluída) Conduta
Paciente com história de tratamento prévio de ITB/TBD TPT não é obrigatório, mesmo sem teste
Paciente sem história de tratamento prévio de ITB/TBD Recomendar TPT em decisão compartilhada, independentemente da classe de medicamento

A lógica vem de uma extrapolação das recomendações da OMS para pessoas vivendo com HIV: pelo alto risco de doença em cenários de alta transmissão em imunossuprimidos, recomenda-se tratar todos os que vão receber imunossupressores quando o teste não está disponível, sobretudo os que tiveram contato recente (até dois anos) com TBD pulmonar ou laríngea, após excluir TBD por rastreio de sintomas e exame de imagem do tórax, em decisão compartilhada.

A própria Sociedade Brasileira de Reumatologia já orientava que pacientes com AR em uso de bDMARDs, sem história de contato, devem receber TPT se ambos os testes (PT/IGRA) estiverem indisponíveis.

Certeza da evidência (GRADE): baixa. LOA: somando concordo fortemente e concordo, 95%.

Recomendações 4 e 5: PT, IGRA e como combiná-los

A recomendação 4 estabelece que tanto PT quanto IGRA podem ser usados para diagnosticar ITB nas DIIM, já que não há padrão-ouro na prática clínica. A tabela abaixo, derivada da revisão, resume o desempenho de cada teste, considerando como referência o outro (positividade de qualquer um como padrão).

Parâmetro PT IGRA
Sensibilidade 61% (IC 95%: 58–64) 43% (IC 95%: 41–46)
Especificidade 82% (IC 95%: 81–83) 90% (IC 95%: 89–91)
Valor preditivo positivo 60% 64%
Valor preditivo negativo 16% 21%

Pontos conceituais que a fonte destaca:

  • A PT usa um conjunto de proteínas precipitadas de cultura de micobactérias, sendo menos específica que o IGRA, que se baseia em peptídeos mais específicos (ESAT-6 e CFP-10), ausentes na BCG e na maioria das micobactérias não tuberculosas.
  • Ambos podem ter falso-negativo por anergia ligada à imunossupressão, sobretudo em AR, artrite psoriásica e doença inflamatória intestinal. Um rastreio negativo não exclui totalmente a possibilidade de TBD ao longo do tempo.
  • O IGRA pode ter sensibilidade reduzida no imunossuprimido, e a taxa de resultados indeterminados chega a até 40% em relatos da literatura (nos estudos incluídos pela diretriz, a variação foi de 2,1% a 31,5%, detalhada na recomendação 6), o que desafia a ideia antiga de que o IGRA seria sempre superior à PT no hospedeiro imunocomprometido.

A recomendação 5 trata da combinação. Não é obrigatório nem recomendado fazer PT e IGRA simultaneamente, e o tratamento imunossupressor não deve ser adiado para realizar os dois. Se o primeiro teste é negativo, o outro pode ser considerado. O tratamento preventivo deve ser iniciado a qualquer momento se um dos testes for positivo.

Análise (sem padrão-ouro) IGRA PT
Razão de verossimilhança positiva (IC 95%) 3,87 (2,81–5,34) 3,04 (2,32–3,97)
Razão de verossimilhança negativa (IC 95%) 0,66 (0,59–0,73) 0,51 (0,44–0,60)
VPP (probabilidade pós-teste) de cada teste isolado 64% 60%
Probabilidade pós-teste se PT e IGRA positivos 84%

Embora usar os dois testes simultaneamente aumente em 20% a chance de diagnosticar ITB (a probabilidade pós-teste sobe para 84% quando ambos são positivos), esse ganho não justifica a obrigatoriedade, e o tratamento da DIIM não deve ser atrasado.

Na prática: PT e IGRA são intercambiáveis para essa indicação. O IGRA é mais específico (útil em vacinados com BCG); a PT é mais sensível. Como qualquer teste positivo já indica tratamento preventivo, não vale a pena adiar o imunobiológico para empilhar exames.

Certeza da evidência (GRADE) da recomendação 4: moderada (LOA 100%). Da recomendação 5: moderada (LOA 97,5%).

Recomendação 6: o IGRA indeterminado

Diante de um IGRA indeterminado, recomenda-se repetir o teste o quanto antes. Se o resultado permanecer inconclusivo, considerar o tratamento preventivo.

Os estudos mostraram ampla variação de resultados indeterminados de IGRA, de 2,1% a 31,5%. Alguns fatores associados a esse resultado, segundo a fonte, são: viver em área endêmica, uso de glicocorticoides e outros imunossupressores, atividade da doença, idade avançada, baixa proteína e albumina séricas, linfopenia e proteína C-reativa elevada.

Fatores associados a IGRA indeterminado
Residência em área endêmica para TBD
Uso de glicocorticoide e outros imunossupressores
Atividade da doença de base
Idade mais avançada
Baixa proteína e albumina séricas
Linfopenia
Proteína C-reativa elevada

Certeza da evidência (GRADE): moderada. LOA: somando concordo fortemente e concordo, 97,5%.

Recomendações 7 e 8: repetir o rastreio ao longo do tempo

A recomendação 7 orienta que, se o teste PT/IGRA pré-tratamento é negativo, recomenda-se a repetição anual até o terceiro ano de tratamento, especialmente nos pacientes em uso de TNFi. Após esse período, indica-se vigilância clínica e epidemiológica durante o tratamento imunossupressor, independentemente da classe. Em pessoas com história prévia de tratamento de ITB ou TBD, o rastreio não deve ser repetido.

Os dados que sustentam isso: a taxa média de conversão após exposição a TNFi foi de 12,8% ao longo de média de 12,4 meses, e 4% dos que converteram desenvolveram TBD. O diagnóstico de TBD ocorre cedo, na maioria dos pacientes em menos de três anos após iniciar DMARDs, principalmente com TNFi. O Ministério da Saúde recomenda repetir o teste um ano após a introdução do imunossupressor, se os testes iniciais foram negativos.

Situação de rastreio Conduta de repetição
PT/IGRA pré-tratamento negativo Repetir anualmente até o 3º ano, sobretudo com TNFi
Após o 3º ano Vigilância clínica e epidemiológica, independentemente da classe
Qualquer teste positivo na repetição Iniciar tratamento preventivo
História prévia de tratamento de ITB ou TBD Não repetir o rastreio
Rastreio basal positivo com tratamento adequado de ITB Não repetir PT ou IGRA

A recomendação 8 estende essa lógica à troca de medicação: se é necessário mudar o fármaco, independentemente da classe, e há rastreio prévio negativo, o PT/IGRA deve ser realizado anualmente pelos próximos três anos, conforme a recomendação 7. A diretriz observa que, se o paciente está em TNFi e não desenvolve TBD, o risco pode reduzir ao longo do tempo se a troca for para um agente não TNFi; mas, se a troca for para outro TNFi, pode haver risco maior de TBD.

Certeza da evidência (GRADE) da recomendação 7: moderada (LOA 85%). Da recomendação 8: muito baixa (LOA 85%).

Recomendação 9: o impacto da vacina BCG

A vacina BCG, derivada de cepa atenuada de Mycobacterium bovis, pode causar reação cruzada com a PT, com proporção estimada de até 8,5 falsos-positivos para cada 100 vacinados. Há, porém, concordância entre os especialistas de que o efeito da BCG sobre a positividade da PT diminui após dois anos.

Cenário de BCG Conduta de rastreio de ITB
BCG aplicada nos 2 anos anteriores ao início do imunossupressor IGRA é preferível à PT
BCG aplicada há mais de 2 anos PT ≥ 5 mm ou IGRA positivo deve ser interpretado como ITB; iniciar TPT após excluir TBD
Criança < 2 anos vacinada com BCG Evitar PT como rastreio (alto risco de falso-positivo)

A diretriz lembra que, no Brasil, a prática atual é apenas uma dose de BCG (embora a BCG repetida possa ser usada para hanseníase). Nesse cenário, uma PT positiva em paciente que vai iniciar DMARDs deve ser interpretada como ITB e o tratamento preventivo prescrito, independentemente da idade. O IGRA é o melhor teste para rastreio em vacinados com BCG no ano anterior, sobretudo na faixa pediátrica, mas a proporção de IGRA indeterminado é maior nas DIIM (mais frequente em lúpus).

Em locais de baixa renda, em que a realização rotineira de IGRA pode ser inviável, recomenda-se uma abordagem em dois passos: indicar o IGRA nos vacinados com BCG que tenham PT positiva, especialmente em crianças menores de cinco anos.

Na prática: a regra dos dois anos é o ponto cobrável. BCG recente (até 2 anos) confunde a PT, então prefere-se o IGRA. BCG antiga (mais de 2 anos) já não atrapalha, e uma PT ≥ 5 mm ou IGRA positivo vale como diagnóstico de ITB, com tratamento preventivo após excluir a doença ativa.

Certeza da evidência (GRADE): baixa. LOA: 70% concordo fortemente e 30% concordo, somando 100%.

Quando iniciar o imunobiológico em relação ao tratamento da ITB

Um ponto que merece nota de fidelidade: esta diretriz não fixa, no corpo das nove recomendações, um número exato de dias ou semanas de tratamento preventivo a cumprir antes de liberar o imunobiológico. O que ela deixa explícito é o encadeamento lógico do raciocínio, resumido a seguir.

Etapa Conduta segundo a diretriz
1. Rastrear PT ou IGRA, raio-X de tórax e investigação de contato com TBD pulmonar/laríngea, em toda DIIM que vai imunossuprimir
2. Excluir TBD ativa Antes de qualquer tratamento preventivo, afastar doença ativa (sintomas e imagem)
3. Indicar TPT se ITB Diante de PT ≥ 5 mm, IGRA positivo, sequela em imagem ou exposição recente
4. Não adiar o controle da DIIM O tratamento da doença de base não deve ser postergado para realizar os dois testes
5. Vigilância Repetir PT/IGRA anualmente até o 3º ano se rastreio negativo, sobretudo com TNFi

Note que a recomendação 5 é enfática em que o tratamento imunossupressor não deve ser adiado apenas para completar a investigação com os dois testes. O encadeamento prático que se extrai da diretriz é: rastrear, excluir TBD ativa, iniciar o tratamento preventivo quando indicado e, na sequência, conduzir o imunobiológico, com vigilância anual. Para o número exato de tomadas de TPT a cumprir antes do biológico, a referência é o protocolo nacional, e não esta diretriz.

Conduta na tuberculose ativa

A diretriz é, por escopo, voltada à infecção tuberculosa (ITB) e ao seu tratamento preventivo, não ao tratamento da TBD em curso. Ainda assim, ela deixa claros os pontos de articulação com a doença ativa, que sintetizamos abaixo.

Situação Conduta segundo a fonte
Suspeita de TBD ativa antes de imunossuprimir Excluir TBD (clínica e imagem) antes de qualquer tratamento preventivo; o tratamento preventivo é para ITB, condição não infecciosa e sem doença
Imagem confundidora ou doença pulmonar associada Solicitar TC de tórax e opinião de pneumologista/infectologista
Achado de sequela de TBD em paciente não tratado Interpretar como ITB e oferecer tratamento preventivo, mesmo sem teste positivo
História de TBD prévia adequadamente tratada Não repetir o rastreio de ITB

O tratamento da TBD ativa em si, com esquema RIPE e demais condutas, segue o Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil, fora do escopo desta diretriz das DIIM.

Perguntas frequentes

Qual o ponto de corte da prova tuberculínica para indicar tratamento em quem usa imunossupressor?

O corte é de 5 mm. Pela diretriz, uma PT maior ou igual a 5 mm em paciente com doença imunomediada que usa ou vai usar DMARDs caracteriza infecção tuberculosa e indica tratamento preventivo, após excluir a tuberculose ativa. Não há evidência suficiente para reduzir esse corte abaixo de 5 mm nessa população.

PT ou IGRA: qual escolher no rastreio antes do biológico?

Ambos podem ser usados, pois não existe padrão-ouro na prática clínica. A PT é mais sensível (61% contra 43%) e o IGRA é mais específico (90% contra 82%). Na prática, o IGRA é preferível em quem recebeu BCG nos dois anos anteriores, justamente por não sofrer reação cruzada com a vacina. Não é obrigatório fazer os dois ao mesmo tempo, e o tratamento da doença de base não deve ser adiado para isso.

O que fazer diante de um IGRA indeterminado?

Repetir o teste o quanto antes. Se o resultado permanecer inconclusivo na repetição, deve-se considerar o tratamento preventivo. A taxa de IGRA indeterminado é maior em imunossuprimidos (até 31,5% nos estudos incluídos) e associa-se a fatores como uso de corticoide, atividade da doença, linfopenia e hipoalbuminemia.

Quando o tratamento preventivo é obrigatório?

Após excluir a tuberculose ativa, o tratamento preventivo é obrigatório diante de qualquer resultado positivo no rastreio: PT maior ou igual a 5 mm, IGRA positivo, sinais de sequela de tuberculose em imagem (em paciente não tratado) ou exposição recente a tuberculose pulmonar ou laríngea. As exceções são pessoas com história de tratamento prévio de tuberculose doença ou de infecção tuberculosa já tratada.

Por quanto tempo preciso repetir o rastreio depois de iniciar o imunobiológico?

Se o teste pré-tratamento foi negativo, repete-se PT ou IGRA anualmente até o terceiro ano de tratamento, especialmente nos pacientes em uso de inibidores de TNF. Após esse período, mantém-se vigilância clínica e epidemiológica. Quem tem história de tratamento prévio de infecção tuberculosa ou de tuberculose doença não precisa repetir o rastreio.

Como a vacina BCG interfere na interpretação dos testes?

A BCG pode causar falso-positivo na prova tuberculínica, mas esse efeito diminui após dois anos. Por isso, em vacinados com BCG nos dois anos anteriores ao início do imunossupressor, o IGRA é preferível à PT. Se a BCG foi aplicada há mais de dois anos, uma PT positiva ou IGRA positivo deve ser interpretado como infecção tuberculosa, com tratamento preventivo após excluir a doença ativa.

Pontos-chave: o que todo médico deve saber

  • Rastrear sempre: toda doença imunomediada que vai iniciar imunossupressor deve ser rastreada para infecção tuberculosa, independentemente da classe do fármaco, no Brasil e em países de alta carga (recomendação 1).
  • Tripé do rastreio: PT ou IGRA, raio-X de tórax e investigação de contato com TBD pulmonar/laríngea.
  • Quatro gatilhos para tratamento preventivo: PT ≥ 5 mm, IGRA positivo, sequela de TBD em imagem (paciente não tratado) ou exposição recente a TBD. Basta um, após excluir a doença ativa (recomendação 2).
  • Anti-TNF é o de maior risco: desmonta o granuloma; adalimumabe e infliximabe elevam a incidência de TBD em torno de 2,5 vezes em relação aos tsDMARDs.
  • IL-17 e IL-23 são os mais seguros: efeito desprezível sobre o granuloma e baixa incidência de TBD.
  • PT e IGRA são intercambiáveis: PT mais sensível, IGRA mais específico; não fazer os dois de rotina nem adiar o tratamento da doença de base para isso (recomendações 4 e 5).
  • IGRA indeterminado: repetir o quanto antes; se persistir inconclusivo, considerar tratamento preventivo (recomendação 6).
  • Repetição do rastreio: anual até o 3º ano se negativo, sobretudo com TNFi; depois, vigilância clínica e epidemiológica (recomendações 7 e 8).
  • Regra dos dois anos da BCG: BCG recente favorece o IGRA; BCG há mais de 2 anos não atrapalha, e teste positivo vale como diagnóstico de ITB (recomendação 9).
  • Opções de tratamento preventivo no Brasil: isoniazida, rifampicina ou a combinação isoniazida + rifapentina; doses e duração devem ser confirmadas no Manual do Ministério da Saúde.

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Aviso: este conteúdo tem finalidade educacional e de apoio à preparação para provas de título. Não substitui o julgamento clínico individualizado nem as bulas e protocolos institucionais. Doses, esquemas e indicações devem ser sempre confirmados na fonte original antes de qualquer decisão terapêutica.

Referência: de Souza VA, Caparroz ALMA, Trevisani VFM, et al. Brazilian recommendations for the management of tuberculosis infection in immune-mediated inflammatory diseases. Advances in Rheumatology. 2025;65:18. doi:10.1186/s42358-025-00449-4.