CM XpertsBlogDiretrizes e Atualizações

Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose: o que muda na Diretriz SBC 2025

Metas de LDL-c e não-HDL-c por risco, estatina, ezetimiba e PCSK9 na Diretriz SBC 2025. Tabelas práticas e pontos-chave para o TECM.

· Atualizado em · 18 min de leitura

Por

Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose: o que muda na Diretriz SBC 2025

A relação entre o colesterol da lipoproteína de baixa densidade e a aterosclerose deixou de ser apenas uma associação epidemiológica para se firmar como nexo causal. A exposição cumulativa às lipoproteínas aterogênicas ao longo da vida é o motor da formação e progressão da placa, e essa premissa organiza toda a lógica da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 2025. O LDL-c permanece como alvo primário do tratamento, mas o documento amplia o olhar para o conjunto das partículas aterogênicas e desloca o eixo da decisão clínica do número isolado para o contínuo de risco cardiovascular.

A versão de 2025 atualiza e expande a diretriz de 2017 sem romper com seu princípio central, que é a estratificação de risco. As mudanças mais visíveis estão na incorporação de biomarcadores como Lp(a), ApoB e PCR-ultrassensível à avaliação, no reconhecimento formal do não-HDL-c como meta coprimária, na adoção do escore PREVENT como ferramenta preferencial de estratificação em prevenção primária, na criação de uma categoria de risco extremo com alvo de LDL-c mais rigoroso e na valorização da terapia combinada precoce como estratégia inicial em pacientes de maior risco. Para quem se prepara para a prova de título, vale entender não apenas os números, mas a racionalidade que os conecta.

Como ler a graduação GRADE. Ao longo do texto, cada recomendação traz a força (forte ou condicional) e a certeza da evidência (alta, moderada, baixa ou muito baixa). Recomendação “forte” significa que os benefícios superam claramente os riscos; “condicional” indica equilíbrio mais delicado, sensível a preferências do paciente.

Avaliação laboratorial do perfil lipídico

O perfil lipídico deve ser idealmente coletado em condição metabólica estável (forte, moderada). A novidade prática mais relevante é a flexibilização do jejum. Para a avaliação inicial, é aceitável obter a amostra sem jejum, particularmente em populações selecionadas como crianças e idosos (forte, moderada). O jejum deixou de ser obrigatório porque o colesterol total, o HDL-c e o próprio LDL-c sofrem pouca interferência do estado alimentar. O parâmetro que de fato se altera é o triglicéride. Por isso, se os triglicérides estiverem elevados (acima de 440 mg/dL) em amostra sem jejum, recomenda-se nova coleta em jejum de 12 horas, a critério do médico solicitante (forte, moderada). O laudo deve informar se a amostra foi obtida com ou sem jejum.

Parâmetro Em jejum (12 h) Sem jejum
Colesterol total < 190 mg/dL < 190 mg/dL
Triglicérides < 150 mg/dL < 175 mg/dL
HDL-c > 40 mg/dL > 40 mg/dL

Na prática. Apenas o triglicéride muda de valor de referência conforme o jejum (< 150 mg/dL em jejum; < 175 mg/dL sem jejum). CT, HDL-c, LDL-c e não-HDL-c não sofrem influência do estado alimentar.

Cálculo do LDL-c e o papel do não-HDL-c

Quanto ao cálculo do LDL-c, a diretriz recomenda a equação de Martin/Hopkins para todos os indivíduos (forte, moderada), substituindo a tradicional fórmula de Friedewald. A vantagem da equação de Martin/Hopkins aparece justamente em situações de triglicérides elevados ou LDL-c baixo, contextos em que Friedewald perde acurácia. Há um limite a respeitar: quando os triglicérides ultrapassam 800 mg/dL, os resultados de LDL-c pela fórmula de Martin podem estar subestimados, e nessas situações recomenda-se avaliar o não-HDL-c (forte, moderada).

Atenção (pegadinha clássica). Com triglicérides acima de 800 mg/dL, quem subestima é o LDL-c calculado por Martin, e não o não-HDL-c. Por isso a conduta nesse cenário é justamente migrar para o não-HDL-c, que não depende dessa estimativa.

O não-HDL-c ganha protagonismo. Tanto o LDL-c quanto o não-HDL-c têm grande utilidade na avaliação de risco e como metas terapêuticas, com o não-HDL-c sendo particularmente útil para estimar a quantidade de lipoproteínas aterogênicas circulantes em pacientes com triglicérides acima de 150 mg/dL (forte, alta). A ApoB pode auxiliar na avaliação de risco e guiar a terapia em indivíduos com triglicérides acima de 150 mg/dL (forte, moderada), mas a diretriz reconhece que o não-HDL-c é a escolha mais prática, por ser facilmente calculado e não gerar custo adicional ao paciente ou ao sistema de saúde (forte, alta).

Lipoproteína(a)

A lipoproteína(a) recebe atenção própria. Na população geral, recomenda-se a dosagem de Lp(a) uma vez na vida, quando disponível, para auxiliar na estratificação de risco e no manejo (forte, moderada). Em populações específicas, como portadores de doença arterial coronariana precoce, estenose aórtica, hipercolesterolemia familiar, história familiar de doença cardiovascular aterosclerótica precoce ou de Lp(a) aumentada, a mesma dosagem única é recomendada com certeza de evidência alta. O método preferencial é o ensaio independente da isoforma, que mede o número de partículas por litro em nmol/L; a dosagem por unidade de massa em mg/dL deve ser evitada, e as fórmulas de conversão não são recomendadas porque não corrigem a diferença entre os métodos (forte, alta). Quando o ensaio em nmol/L não está disponível, a medida em mg/dL pode ser usada. Diante de Lp(a) igual ou superior a 50 mg/dL (ou 125 nmol/L), cuja concentração é predominantemente genética, recomenda-se investigação em cascata nos familiares (forte, alta).

Estratificação do risco cardiovascular

A estratificação organiza o tratamento. Embora o risco seja, na realidade, uma variável contínua, o estabelecimento de categorias facilita a formulação de recomendações e a instituição da terapia adequada. A diretriz categoriza o risco cardiovascular aterosclerótico em cinco níveis: baixo, intermediário, alto, muito alto e extremo. Para adultos sem evento cardiovascular prévio nem aterosclerose subclínica, a estimativa do risco em 10 anos passa a ser feita preferencialmente pelo escore PREVENT.

Categoria Principais critérios
Baixo Escore calculado < 5% em 10 anos, sem agravantes de risco e sem DM2.
Intermediário Escore calculado de 5% a < 20% em 10 anos, sem agravantes. Também: risco calculado baixo (< 5%) com agravante; DM2 em homem < 50 anos ou mulher < 56 anos sem estratificadores; LDL-c entre 160 e 189 mg/dL.
Alto Escore calculado ≥ 20% em 10 anos; risco intermediário com fator agravante; aterosclerose subclínica (placa carotídea < 50%, CAC > 100 UA ou percentil > 75, placas na angiotomografia de coronárias < 50%, aneurisma de aorta abdominal); LDL-c ≥ 190 mg/dL; certas configurações de DM2; Lp(a) > 180 mg/dL (> 390 nmol/L).
Muito alto Doença aterosclerótica significativa com obstrução ≥ 50% (coronária, cerebrovascular ou periférica) ou evento aterosclerótico prévio manifesto; CAC > 300 UA; configurações mais graves de DM2.
Extremo (nova) Histórico de múltiplos eventos cardiovasculares ateroscleróticos maiores, ou um evento maior associado a pelo menos duas condições de alto risco.

A categoria de risco extremo é a grande novidade da estratificação. Ela combina dois cenários: múltiplos eventos maiores, ou um evento maior somado a duas ou mais condições de alto risco.

Eventos cardiovasculares ateroscleróticos maiores Condições de alto risco
Síndrome coronária aguda recente (últimos 12 meses) Idade ≥ 65 anos
Infarto do miocárdio prévio Hipercolesterolemia familiar
AVC isquêmico prévio Diabetes mellitus
Doença arterial periférica sintomática Hipertensão arterial
Doença renal crônica (TFGe 15-59 mL/min/1,73 m²)
Tabagismo atual
LDL-c ≥ 100 mg/dL apesar de estatina máxima tolerada com ezetimiba
Evento agudo aterosclerótico há menos de dois anos

Dois pontos merecem destaque por refletirem a lógica da exposição cumulativa. Indivíduos com LDL-c igual ou acima de 190 mg/dL são classificados como de risco alto, e aqueles com LDL-c entre 160 e 189 mg/dL são considerados de risco intermediário, independentemente do escore. O escore de cálcio coronário ganha papel definido como refinador.

Na prática. Para indivíduos inicialmente classificados como risco intermediário, com idade acima de 40 anos e LDL-c entre 70 e 159 mg/dL, o CAC pode ser útil para decidir sobre a necessidade e a intensidade da terapia hipolipemiante (forte, moderada). Para os de risco baixo na mesma faixa etária e de LDL-c, o CAC é razoável quando há histórico familiar de doença cardiovascular aterosclerótica prematura (condicional, moderada).

Metas de LDL-c e não-HDL-c por categoria de risco

As metas tornaram-se mais intensivas à medida que o risco aumenta, e a diretriz estabelece pares de alvos de LDL-c e não-HDL-c para cada categoria. Este é o ponto central do documento e o conteúdo mais cobrado em prova.

Categoria de risco LDL-c (meta primária) Não-HDL-c (coprimária) Redução do LDL-c ApoB (secundária) Certeza
Extremo < 40 mg/dL < 70 mg/dL ≥ 50% < 45 mg/dL forte, moderada
Muito alto < 50 mg/dL < 80 mg/dL ≥ 50% < 55 mg/dL forte, alta
Alto < 70 mg/dL < 100 mg/dL ≥ 50% < 70 mg/dL forte, alta
Intermediário < 100 mg/dL < 130 mg/dL ≥ 30% < 90 mg/dL forte, alta
Baixo < 115 mg/dL < 145 mg/dL ≥ 30% < 100 mg/dL forte, moderada

A meta de não-HDL-c segue uma regra mnemônica útil: situa-se 30 mg/dL acima da meta de LDL-c correspondente em cada categoria. Além do alvo absoluto, há uma meta relativa. Em indivíduos de risco alto, muito alto ou extremo, recomenda-se redução percentual do LDL-c de pelo menos 50% (forte, alta). As duas metas, absoluta e percentual, devem ser perseguidas em conjunto nessas categorias. Vale ainda a orientação de considerar tratamento farmacológico mesmo em baixo risco quando o LDL-c estiver persistentemente igual ou acima de 145 mg/dL.

Na prática. Memorize a escada de LDL-c: extremo < 40, muito alto < 50, alto < 70, intermediário < 100, baixo < 115. O não-HDL-c é sempre “+30” sobre cada degrau. E, do alto risco para cima, some a exigência de queda de pelo menos 50% no LDL-c.

Tratamento

Estilo de vida

A base da prevenção cardiovascular é a adoção precoce e sustentada de hábitos saudáveis ao longo da vida. A cessação do tabagismo é recomendada em todos os fumantes para reduzir o risco cardiovascular (forte, alta). A atividade física é recomendada tanto para reduzir o risco quanto para melhorar o perfil lipídico, com aumento do HDL-c e redução dos triglicérides (forte, alta), e a meta proposta para todos os adultos é de pelo menos 150 minutos semanais de atividade aeróbica de intensidade moderada ou 75 minutos de atividade vigorosa, podendo-se combinar ambas (forte, alta). Em indivíduos com sobrepeso ou obesidade, a redução de peso por medidas não farmacológicas eleva o HDL-c, reduz triglicérides e produz redução menos pronunciada do LDL-c. As medidas de estilo de vida não substituem a terapia farmacológica quando indicada, mas a potencializam e devem acompanhar todo o seguimento.

Estatinas: a primeira opção

A estatina permanece como primeira opção de tratamento em indivíduos com indicação de terapia hipolipemiante (forte, alta). A escolha do fármaco e da intensidade deve ser guiada pela magnitude da redução de LDL-c necessária para atingir a meta da categoria de risco. Quando a meta exige redução de 50% ou mais, há uma alternativa relevante: em indivíduos sem tratamento prévio, recomenda-se a associação de estatina com ezetimiba como alternativa à estatina de alta intensidade isolada (forte, alta). Esse ponto reforça que a combinação pode ocupar a linha de frente, e não apenas o resgate.

Escalonamento: ezetimiba, PCSK9 e ácido bempedoico

A intensificação segue uma sequência definida. As recomendações de uso combinado são escalonadas pela categoria de risco, e a terapia combinada precoce é um dos eixos da diretriz: a combinação de estatina com ezetimiba, com ou sem anti-PCSK9, pode ser iniciada precocemente em pacientes de alto, muito alto ou extremo risco, em vez de aguardar sucessivas falhas de monoterapia.

Categoria de risco Terapia inicial recomendada Certeza
Alto Estatina de alta intensidade + ezetimiba forte, alta
Muito alto Estatina de alta intensidade + ezetimiba, com potencial associação de anti-PCSK9 forte, alta
Extremo Estatina de alta intensidade + ezetimiba + anti-PCSK9 já como terapia inicial forte, alta

Para quem não atinge a meta apesar de estatina em dose máxima tolerada, recomenda-se intensificação com ezetimiba ou terapia anti-PCSK9 (forte, alta). Entre os inibidores de PCSK9, a inclisirana é recomendada como alternativa aos anticorpos monoclonais evolocumabe ou alirocumabe (forte, moderada). Para indivíduos intolerantes às estatinas que não atingem o alvo apesar da ezetimiba, recomenda-se intensificação com ácido bempedoico (forte, alta). Quem não atinge a meta com estatina de alta intensidade e ezetimiba deve receber anti-PCSK9 ou ácido bempedoico conforme a meta (forte, alta).

Na prática. A magnitude esperada ajuda a calibrar a expectativa: estatina de alta potência com ezetimiba reduz o LDL-c em até 65%, e a adição de anti-PCSK9 a esse esquema alcança reduções superiores a 85%.

Abordagem dos triglicérides

A hipertrigliceridemia exige raciocínio distinto, e o limiar de 500 mg/dL é o divisor de águas entre prevenção cardiovascular e prevenção de pancreatite.

Cenário Conduta Certeza
TG ≥ 150 mg/dL com indicação de hipolipemiante para reduzir risco CV Estatina é a terapia de escolha forte, alta
TG 150-499 mg/dL com DCV aterosclerótica ou alto risco Icosapenta etila 4 g/dia (indisponível no Brasil) condicional, moderada
TG 150-499 mg/dL com DCV ou alto risco Recomendado contra formulações de EPA + DHA para prevenir eventos forte, alta
TG ≥ 500 mg/dL persistente apesar de estilo de vida Fibrato, com foco na prevenção de pancreatite forte, moderada

A diretriz também recomenda contra o tratamento farmacológico voltado a aumentar o HDL-c (forte, alta).

Seguimento e adesão

O Brasil tem desafios próprios reconhecidos pela diretriz, com baixa adesão ao tratamento e dificuldade em atingir as metas terapêuticas. O acompanhamento deve verificar se as metas de LDL-c e não-HDL-c foram atingidas e se a redução percentual esperada foi alcançada, ajustando a terapia quando necessário. A adesão é tema transversal, e o uso de combinações em dose fixa figura entre as estratégias que favorecem a continuidade do tratamento. A diretriz dedica atenção ao manejo estruturado da intolerância às estatinas, frequentemente subestimada na prática, com algoritmos de diagnóstico que distinguem sintomas musculares toleráveis e intoleráveis, consideram o efeito nocebo e orientam a interrupção e o reinício do fármaco, bem como o uso de doses diárias menores ou de estatinas com menor risco de rabdomiólise quando indicado. O objetivo é evitar que a queixa muscular leve ao abandono indevido de uma terapia comprovadamente eficaz.

Situações especiais: hipercolesterolemia familiar

A hipercolesterolemia familiar exemplifica a exposição cumulativa em sua forma mais intensa e justifica condutas específicas. A suspeita clínica deve ser levantada em crianças com LDL-c persistentemente igual ou acima de 160 mg/dL ou adultos com LDL-c persistentemente igual ou acima de 190 mg/dL, sem causa secundária aparente, quando há familiar de primeiro grau igualmente afetado, doença arterial coronária prematura (antes dos 55 anos em homens e dos 65 anos em mulheres) ou quando o histórico familiar não está disponível. A suspeita também se impõe diante de LDL-c persistentemente igual ou acima de 190 mg/dL em crianças ou de 250 mg/dL em adultos, sem causa secundária, mesmo na ausência de histórico familiar positivo. Persistente, aqui, significa elevação confirmada em pelo menos duas dosagens separadas, descartadas causas secundárias como hipotireoidismo, síndrome nefrótica e doença hepática colestática.

O teste genético é oferecido ao caso-índice com forte indício clínico, e o rastreamento em cascata para a variante familiar conhecida deve ser estendido a todos os parentes de primeiro grau, prosseguindo pela família extensa até identificar todos os portadores. No tratamento, em indivíduos com HF ou LDL-c igual ou acima de 190 mg/dL, recomenda-se estatina de alta intensidade associada à ezetimiba como terapia inicial para atingir a meta (forte, alta). Na HF homozigótica que não atinge a meta com doses máximas das terapias hipolipemiantes, recomenda-se o uso de evinacumabe a partir dos 5 anos de idade (forte, moderada). A dosagem de Lp(a) tem indicação reforçada nessa população, e a presença de HF figura entre as condições de alto risco que contribuem para a classificação de risco extremo.

Perguntas frequentes

O perfil lipídico precisa ser colhido em jejum? Não na avaliação inicial. A amostra sem jejum é aceitável, sobretudo em crianças e idosos, porque colesterol total, HDL-c e LDL-c quase não variam com a alimentação. Só o triglicéride muda: se vier acima de 440 mg/dL sem jejum, repete-se a coleta em jejum de 12 horas.

Por que abandonar a fórmula de Friedewald? A diretriz recomenda a equação de Martin/Hopkins para todos, por ser mais acurada justamente quando os triglicérides estão altos ou o LDL-c está baixo, cenários em que Friedewald falha. Atenção: com triglicérides acima de 800 mg/dL, até o LDL-c de Martin fica subestimado, e a conduta passa a ser usar o não-HDL-c.

Quais são as metas de LDL-c por categoria de risco? LDL-c abaixo de 40 mg/dL no risco extremo, 50 no muito alto, 70 no alto, 100 no intermediário e 115 no baixo. A meta de não-HDL-c é sempre 30 mg/dL acima de cada valor. Do alto risco para cima, soma-se a exigência de reduzir o LDL-c em pelo menos 50%.

Quando iniciar terapia combinada em vez de estatina isolada? Quando a meta exige queda de 50% ou mais, a associação de estatina com ezetimiba já pode ser a escolha inicial. Em alto, muito alto e extremo risco, a combinação precoce é a estratégia preferencial, chegando a estatina de alta intensidade, ezetimiba e anti-PCSK9 como esquema inicial no risco extremo.

Como manejar a hipertrigliceridemia? Com triglicérides a partir de 150 mg/dL e indicação de reduzir risco cardiovascular, a estatina é a escolha. Quando os triglicérides são iguais ou superiores a 500 mg/dL de forma persistente, o objetivo muda para prevenir pancreatite, e o fibrato passa a ser indicado.

Quem deve dosar Lp(a)? Todo adulto deve dosar a Lp(a) ao menos uma vez na vida, preferencialmente por ensaio em nmol/L. Valores iguais ou superiores a 50 mg/dL (ou 125 nmol/L) têm origem predominantemente genética e indicam investigação em cascata na família.

Pontos-chave: o que todo médico deve saber

A coleta do perfil lipídico pode ser feita sem jejum na avaliação inicial, com nova dosagem em jejum de 12 horas se os triglicérides ultrapassarem 440 mg/dL em amostra sem jejum. O LDL-c estimado pela fórmula de Martin torna-se subestimado quando os triglicérides excedem 800 mg/dL; nesses casos, usa-se o não-HDL-c. A Lp(a) deve ser dosada uma vez na vida em todos os adultos, preferencialmente por ensaio em nmol/L.

A estratificação usa cinco categorias, e o escore PREVENT é a ferramenta preferencial em prevenção primária. As metas de LDL-c são de 40 mg/dL no risco extremo, 50 mg/dL no muito alto, 70 mg/dL no alto, 100 mg/dL no intermediário e 115 mg/dL no baixo, com as metas de não-HDL-c situadas 30 mg/dL acima de cada uma. No risco alto, muito alto ou extremo soma-se a exigência de redução de pelo menos 50% do LDL-c.

A estatina é sempre a primeira opção, mas a terapia combinada com ezetimiba pode ser inicial quando se requer redução de 50% ou mais. Em alto, muito alto e extremo risco, a combinação precoce de estatina de alta intensidade com ezetimiba, com adição de anti-PCSK9 conforme a categoria, é a estratégia preferencial. O foco no triglicéride muito elevado (igual ou acima de 500 mg/dL) desloca-se para a prevenção de pancreatite com fibrato. LDL-c igual ou acima de 190 mg/dL classifica como risco alto e levanta a hipótese de hipercolesterolemia familiar.

Erros comuns e armadilhas

Exigir jejum de rotina para toda solicitação de perfil lipídico contraria a recomendação atual e cria barreira desnecessária ao paciente; o jejum só se justifica em situações específicas e na repetição diante de triglicérides muito elevados. Manter a fórmula de Friedewald por hábito leva a subestimar o LDL-c em pacientes com triglicérides altos ou LDL-c baixo, justamente onde a precisão importa mais.

Tratar a meta de LDL-c como número único, ignorando o não-HDL-c, deixa de captar o risco residual do paciente com hipertrigliceridemia, no qual o não-HDL-c é o parâmetro mais informativo. Esquecer a meta percentual de pelo menos 50% nas categorias de maior risco é outra falha frequente, já que atingir o alvo absoluto sem alcançar essa redução pode ser insuficiente. Reservar a terapia combinada apenas para o fracasso da monoterapia atrasa o controle em pacientes de alto risco, para os quais a diretriz recomenda combinação precoce. Interromper definitivamente a estatina diante de qualquer queixa muscular, sem investigar o efeito nocebo ou tentar reintrodução e alternativas, expõe o paciente a risco evitável. Por fim, não dosar a Lp(a) ao menos uma vez deixa de identificar um componente genético e hereditário de risco que altera a estratificação e justifica investigação familiar em cascata.


CM Xperts — preparação para o TECM

Conteúdo produzido pela equipe CM Xperts. Se você se prepara para o Título de Especialista em Clínica Médica, baixe gratuitamente o Mapa da Aprovação ou conheça o Estudo Dirigido TECM.


Este conteúdo tem caráter educativo e de revisão para fins de preparação ao Título de Especialista, não substituindo a leitura integral da diretriz nem o julgamento clínico individualizado. As condutas devem ser sempre adaptadas ao contexto de cada paciente.

Referência: Rached F et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025; 122(9):e20250640.