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Doença de Crohn: diagnóstico, estratificação e tratamento segundo a diretriz ACG 2025

Guia prático da diretriz ACG 2025 sobre doença de Crohn: diagnóstico, estratificação de risco, biológicos, anti-TNF, doses e recomendações GRADE.

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Doença de Crohn: diagnóstico, estratificação e tratamento segundo a diretriz ACG 2025

A doença de Crohn (DC) é uma das duas grandes formas de doença inflamatória intestinal (DII) e, talvez, a que melhor expressa a complexidade do manejo das DII na prática contemporânea. Na maioria dos casos é crônica, progressiva e destrutiva: a inflamação transmural pode comprometer qualquer segmento do trato gastrointestinal, da boca ao ânus, com predileção pela região ileocecal. O entendimento atual desloca o foco do simples alívio sintomático para o controle objetivo da inflamação e a prevenção de complicações estruturais, refletindo a percepção de que sintomas e atividade inflamatória frequentemente caminham em descompasso.

A diretriz da American College of Gastroenterology (ACG) de 2025 consolida esse paradigma e gradua suas recomendações pelo sistema GRADE, classificando cada uma quanto à força (forte ou condicional) e à qualidade da evidência (alta, moderada, baixa ou muito baixa). Este artigo sintetiza os pontos de maior relevância para a prática e para a prova.

Definição, fenótipos e história natural

A DC é definida clinicamente, e não existe achado verdadeiramente patognomônico. O diagnóstico depende da combinação de critérios endoscópicos, radiográficos e histológicos com evidência de inflamação intestinal crônica. A classificação fenotípica, derivada da clássica estratificação de Montreal, distingue três comportamentos de doença com implicações prognósticas e terapêuticas diretas.

Fenótipo (Montreal) Característica Frequência na apresentação
Inflamatório Não estenosante, não penetrante Maioria dos pacientes
Estenosante (estricturante) Estreitamento luminal fibroestenótico 5% a 25%
Penetrante (fistulizante) Fístulas, abscessos, fleimão 5% a 25%

Esse cenário inicial não é estático. Dados populacionais do condado de Olmsted mostraram que o risco cumulativo de desenvolver uma complicação intestinal (estenose, abscesso, fístula ou fleimão) entre os que se apresentaram com comportamento inflamatório foi de 51% em 20 anos de seguimento. O acometimento ileal, ileocólico ou do trato gastrointestinal proximal associa-se a progressão mais rápida para complicações quando comparado à doença exclusivamente colônica, que se mostra protetora nesse aspecto.

A história natural reforça a magnitude da doença, conforme os marcos a seguir.

Marcador de história natural Estimativa
Curso não progressivo / indolente 20% a 30% dos pacientes
Corticodependência ou corticorresistência (sem imunomodulador/biológico) Até 50%
Risco cumulativo de cirurgia abdominal maior em 10 anos 40% a 55% (cerca de 30% na era dos biológicos)
Razão de mortalidade padronizada 1,4 vs. população geral

A leitura é clara: como a maioria não tem curso indolente, a maior parte dos pacientes necessitará de terapias capazes de controlar a inflamação intestinal.

Apresentação clínica e diagnóstico

Os sintomas cardinais da DC incluem dor abdominal, diarreia e fadiga. Perda de peso, febre, falência de crescimento, anemia, fístulas recorrentes ou manifestações extraintestinais também podem ser formas de apresentação. As manifestações extraintestinais clássicas abrangem artropatia (axial e periférica), achados dermatológicos (pioderma gangrenoso e eritema nodoso), oculares (uveíte, esclerite e episclerite) e hepatobiliares (notadamente a colangite esclerosante primária). Eventos tromboembólicos, doença óssea metabólica, colelitíase e nefrolitíase compõem o espectro de complicações associadas.

A investigação laboratorial inicial deve avaliar inflamação, anemia, desidratação e desnutrição. Em pacientes com sintomas de atividade, recomenda-se a pesquisa de patógenos nas fezes, teste para Clostridioides difficile e marcadores de inflamação intestinal, como a calprotectina fecal. O teste genético não é indicado para estabelecer o diagnóstico, assim como o uso rotineiro de marcadores sorológicos de DII.

A ileocolonoscopia com biópsias é o exame central na avaliação de pacientes com suspeita de DC e deve documentar a distribuição e a gravidade da doença ao diagnóstico, incluindo biópsias de mucosa não acometida para identificar a extensão histológica e documentação fotográfica do íleo. A endoscopia digestiva alta fica reservada a pacientes com queixas do trato gastrointestinal superior, e a cápsula endoscópica é adjunto útil quando há alta suspeita de doença de intestino delgado, desde que afastado o risco de retenção em pacientes com sintomas obstrutivos por meio de imagem e/ou cápsula de patência.

A imagem do intestino delgado faz parte da investigação inicial. A enterografia por tomografia computadorizada é sensível para detecção de doença de delgado e comparável à enterografia por ressonância magnética, que deve ser preferida em pacientes jovens (abaixo de 35 anos) e naqueles que provavelmente necessitarão de exames seriados, dada a ausência de radiação. A ultrassonografia intestinal oferece método não invasivo e isento de radiação, sendo adjunto ao diagnóstico e à monitorização da resposta terapêutica. Para caracterizar doença perianal e abscessos perirretais, emprega-se a ressonância magnética da pelve e/ou a ultrassonografia endoscópica.

Recomendação diagnóstica (ACG) Força Qualidade da evidência
Calprotectina fecal (corte de 50 a 100 mcg/g) para diferenciar doença inflamatória de não inflamatória do cólon Forte Moderada
Vigilância endoscópica de rotina para câncer colorretal na colite de Crohn Forte Moderada

Os fatores de risco para câncer colorretal incluem a duração da doença, a extensão do acometimento colônico, a colangite esclerosante primária, a história familiar de câncer colorretal e a gravidade da inflamação colônica em curso.

Na prática: sintomas não são o único guia. A calprotectina fecal e a colonoscopia ancoram tanto o diagnóstico quanto o seguimento, e a vigilância de câncer colorretal é regra na colite de Crohn.

Avaliação de atividade e estratificação de risco

Um princípio recorrente atravessa toda a diretriz: os sintomas da DC não se correlacionam bem com a presença de inflamação ativa e, portanto, não devem ser o único guia da terapia. Estudos demonstraram dissociação entre o Crohn’s Disease Activity Index (CDAI) e índices endoscópicos como o Simple Endoscopic Score for Crohn’s Disease (SES-CD), bem como entre o CDAI e a proteína C-reativa ou a calprotectina fecal. A consequência prática é clara: a avaliação objetiva por endoscopia ou imagem seccional deve ser realizada periodicamente para evitar erros de subtratamento ou supertratamento.

A cicatrização mucosa, determinada pela endoscopia, tornou-se um alvo de tratamento, e dispõe-se de sistemas de escore para mensurar a atividade endoscópica e monitorar a resposta. O SES-CD é o mais simples de usar, e suas faixas estão resumidas abaixo.

SES-CD Categoria
0 a 2 Remissão endoscópica
3 a 6 Doença leve
7 a 15 Doença moderada
Acima de 15 Doença grave

Em pacientes com DC em estágio inicial, a cicatrização endoscópica completa após dois anos de terapia prediz remissão clínica sustentada e livre de corticosteroide a três e quatro anos, e a associação com remissão histológica reduz ainda mais os riscos de recidiva e escalonamento terapêutico. Esse conjunto de evidências fundamenta a abordagem de tratamento por alvos (treat-to-target), em que metas objetivas orientam o ajuste da conduta.

A estratificação de risco orienta a intensidade do tratamento. As características de maior risco de doença progressiva estão sintetizadas a seguir.

Estratificação de risco Fatores
Maior risco de progressão Idade jovem ao diagnóstico; acometimento intestinal extenso inicial; envolvimento ileal/ileocólico; doença perianal ou retal grave; manifestações extraintestinais ao diagnóstico; fenótipo penetrante ou estenosante; úlceras profundas; acometimento anatômico extenso
Menor risco Doença colônica isolada; comportamento inflamatório limitado; doença silenciosa e leve

O reconhecimento desses elementos no momento da apresentação é essencial para a iniciação precoce de terapia médica e/ou cirúrgica.

Na prática: estratifique o risco já na apresentação. Idade jovem, doença ileal/ileocólica extensa, acometimento perianal e fenótipo penetrante ou estenosante deslocam o paciente para terapia mais intensiva e precoce.

Tratamento: indução e manutenção

O tratamento médico organiza-se em terapia de indução e de manutenção, escolhida conforme localização, gravidade e perfil de risco. Uma mudança conceitual importante é a recomendação contra a exigência de falha da terapia convencional antes da introdução de terapia avançada no manejo da DC (recomendação condicional, qualidade de evidência baixa), o que abre espaço para o uso precoce de agentes avançados em pacientes selecionados de maior risco.

Doença leve a moderada e baixo risco

Para a doença ileocecal leve a moderada, a budesonida de liberação ileal controlada é a opção de indução. A mesalazina oral é desaconselhada de forma forte, o que marca distinção relevante em relação à retocolite ulcerativa. A sulfassalazina deve ser considerada apenas para doença colônica leve sintomática, e os antibióticos não são tratamento eficaz para a DC inflamatória luminal, não devendo ser usados como terapia primária. Em pacientes com doença leve, de baixo risco, estratégias dietéticas com monitorização cuidadosa podem ser consideradas, e a ausência de tratamento de manutenção é uma opção em casos selecionados de doença silenciosa e leve, desde que mantida a vigilância para progressão.

Agente / classe Indução Manutenção Recomendação (força, qualidade)
Budesonida liberação ileal 9 mg/dia Sim (sintomática, ileocecal) Não Indução: forte, moderada. Manutenção: forte (contra), baixa
Mesalazina oral Não Não Forte (contra), moderada
Sulfassalazina Apenas doença colônica leve sintomática
Antibióticos Não (não é terapia primária na DC luminal)

Na prática: na DC ileocecal leve a moderada, budesonida 9 mg/dia induz, mas não mantém. Mesalazina oral não tem papel na DC, ao contrário da retocolite ulcerativa.

Doença moderada a grave e maior risco

Os corticosteroides orais induzem, mas não mantêm remissão. As doses equivalentes de prednisona situam-se entre 40 e 60 mg/dia, tipicamente mantidas por uma a duas semanas, com desmame que, em regra, não deve exceder três meses; doses acima de 60 mg/dia não são recomendadas. Associam-se a eventos adversos relevantes, incluindo aumento de cinco vezes no risco de eventos tromboembólicos venosos, e cerca de 15% dos pacientes tornam-se corticodependentes. Por isso, uma vez iniciados, devem ser desmamados de forma gradual com a introdução de agentes poupadores de corticosteroide.

As tiopurinas têm papel circunscrito: servem à manutenção, não à indução, e exigem dosagem da tiopurina metiltransferase (TPMT) antes do início. Azatioprina, 6-mercaptopurina ou metotrexato também podem servir como terapia adjuvante para reduzir a imunogenicidade associada à terapia anti-TNF.

Nota oncológica das tiopurinas: o uso associa-se a risco aumentado de câncer de pele não melanoma e de doenças linfoproliferativas, com o risco de linfoma demonstrado em múltiplos estudos observacionais e crescente conforme o uso continuado, a duração da exposição e a idade. Há ainda um risco raro, porém aumentado, de linfoma hepatoesplênico de células T, particularmente em homens jovens tratados com terapia combinada de anti-TNF e tiopurina, o que reforça a necessidade de individualizar benefícios e riscos dessa combinação.

A tabela a seguir reúne os fármacos por classe, posicionamento (indução/manutenção), doses e graduação GRADE para a doença moderada a grave.

Fármaco / classe Indução Manutenção Dose Recomendação (força, qualidade)
Corticosteroides orais Sim (curto prazo) Não Prednisona 40 a 60 mg/dia; desmame até 3 meses; não exceder 60 mg/dia Forte, baixa
Azatioprina Não Sim (após indução com corticosteroide) 1,5 a 2,5 mg/kg/dia Indução: forte (contra), moderada. Manutenção: condicional, baixa
6-mercaptopurina Não Sim (após indução com corticosteroide) 0,75 a 1,5 mg/kg/dia Indução: forte (contra), moderada. Manutenção: condicional, baixa
Dosagem de TPMT antes de azatioprina/6-MP Forte, baixa
Metotrexato Sim (após indução com corticosteroide) Até 25 mg/semana IM ou SC Condicional, moderada
Anti-TNF: infliximabe IV, adalimumabe SC, certolizumabe pegol SC Sim Sim Forte, moderada
Infliximabe IV + imunomodulador (tiopurina), em naive Sim Sim — (superior às monoterapias) Forte, moderada
Infliximabe SC Sim (após indução IV) Forte, moderada
Vedolizumabe IV (anti-integrina) Sim Sim Forte, moderada
Vedolizumabe SC Sim (após 2 doses de indução IV) Forte, moderada
Ustequinumabe (anti-IL-12/23) Sim Sim Forte, moderada
Risanquizumabe (anti-IL-23) Sim Sim Forte, moderada
Risanquizumabe vs. ustequinumabe (exposição prévia a anti-TNF) Preferir risanquizumabe Condicional, baixa
Mirikizumabe (anti-IL-23) Sim Sim Forte, moderada
Guselkumabe (anti-IL-23), IV seguido de SC Sim Sim Forte, moderada
Guselkumabe totalmente SC Sim Sim Forte, moderada
Upadacitinibe (inibidor de JAK), após exposição a anti-TNF Sim Sim Forte, moderada

A otimização de dose dos biológicos pode ser considerada na resposta inadequada ou perda de resposta a um agente específico. Os biossimilares de infliximabe, adalimumabe e ustequinumabe são eficazes e podem ser usados tanto para indução e manutenção de novo quanto para transição em pacientes em manutenção estável.

Na prática: em pacientes naive de maior risco, a terapia combinada de infliximabe IV com tiopurina supera as monoterapias. O upadacitinibe e o risanquizumabe (vs. ustequinumabe) têm posicionamento preferencial após exposição a anti-TNF.

Antes de iniciar terapia imunobiológica: rastreio pré-biológico e vacinação

Antes da introdução da maioria das terapias avançadas, o rastreio de infecções e de anormalidades laboratoriais é obrigatório. O quadro abaixo resume o rastreio pré-biológico de tuberculose e hepatite B.

Rastreio pré-biológico Conduta
Tuberculose (latente e ativa) Avaliar fatores de risco de exposição; ensaios de liberação de interferon-gama complementam o teste tuberculínico e são preferidos em vacinados com BCG. Considerar testagem/terapia também antes de corticosteroides ou imunomoduladores em alto risco. Se TB latente: iniciar quimioprofilaxia antituberculosa por algumas semanas antes do anti-TNF
Hepatite B Painel com HBsAg, anti-HBc e anti-HBs (risco de reativação). Soronegativos: vacinar com vacina recombinante, idealmente antes do biológico, com avaliação sorológica pós-vacinal. HBsAg-positivos: iniciar profilaxia antiviral (análogos de nucleosídeos/nucleotídeos) antes do biológico; infectados ativos postergam o biológico até duração adequada de antiviral. Anti-HBc positivos e HBsAg negativos: pesquisar HBV-DNA para estimar risco de reativação

A atualização do calendário vacinal compõe esse preparo, e o estado vacinal deve ser revisado já no momento do diagnóstico.

Vacinas Conduta
Apropriadas antes do biológico Pneumocócica, influenza inativada, hepatites A e B, varicela, HPV, herpes-zóster e SARS-CoV-2, idealmente antes da terapia biológica
Vírus vivo atenuado (evitar em uso de imunomodulador/biológico) Tríplice viral, varicela, febre amarela, influenza nasal atenuada, poliomielite oral e BCG

Na prática: rastreie TB e hepatite B e atualize o calendário vacinal antes do biológico. Vacinas de vírus vivo atenuado são contraindicadas durante imunossupressão.

Doença perianal e fistulizante

Fístulas ocorrem em aproximadamente um terço dos pacientes com DC, e a localização perianal é a mais comum, podendo acometer até um quarto dos pacientes. Antes de iniciar terapia avançada, complicações piogênicas como abscesso devem ser excluídas por imagem seccional. Quando presente, o abscesso deve ser tratado com drenagem antes do início de biológico ou imunossupressão, embora abscessos menores possam não requerer drenagem cirúrgica.

As fístulas perianais classificam-se em simples (distais à linha pectínea, com trajeto único na região do esfíncter anal) ou complexas (transesfincterianas, supraesfincterianas ou interesfincterianas, eventualmente com múltiplos trajetos). A drenagem de abscessos perianais com colocação apropriada de setons deve ser realizada antes de tratar a doença fistulizante perianal com terapia avançada, a fim de aumentar a efetividade do tratamento. A combinação de seton seguido de infliximabe demonstrou melhor resposta de cicatrização e menor recorrência de fístula. Mesalazina e corticosteroides são ineficazes para a DC fistulizante.

Tratamento medicamentoso da DC fistulizante perianal Recomendação (força, qualidade)
Infliximabe (indução) Forte, moderada — único anti-TNF estudado em ensaio randomizado prospectivo nesse contexto
Adalimumabe (indução) Condicional, baixa
Antibióticos combinados a infliximabe ou adalimumabe Condicional, muito baixa
Vedolizumabe (indução) Condicional, muito baixa
Ustequinumabe (indução) Condicional, muito baixa
Upadacitinibe (indução) Condicional, muito baixa

Os antibióticos imidazólicos podem ser considerados como terapia primária em fístulas perianais simples.

Na prática: drene o abscesso e posicione o seton antes da terapia avançada. O infliximabe tem a melhor evidência na DC fistulizante perianal; mesalazina e corticosteroide são ineficazes.

Doença estenosante, tabagismo e medidas gerais

Na DC estenosante, a avaliação combinada de sintomas, achados radiológicos e endoscópicos é necessária para orientar a conduta. Como muitas estenoses, senão a maioria, possuem componentes tanto fibroestenótico quanto inflamatório, pacientes com estenoses sintomáticas e evidência de inflamação ativa podem responder a terapias avançadas. Já aqueles com estenoses sintomáticas e características predominantemente fibroestenóticas tendem a se beneficiar de dilatação endoscópica ou cirurgia.

Os modificadores de doença merecem atenção sistemática. O tabagismo exacerba a atividade da doença e acelera a recorrência, associando-se a fenótipo penetrante; fumantes ativos devem ser orientados quanto à cessação, que reduz surtos e a necessidade de corticosteroides e imunomoduladores. Os anti-inflamatórios não esteroides podem exacerbar a atividade da doença, e seu uso rotineiro deve ser visto com cautela. A avaliação e o manejo de estresse, depressão e ansiedade são recomendados como parte do cuidado integral, dado o aumento de atividade da doença e de utilização de serviços de saúde entre pacientes com essas comorbidades.

Cirurgia e profilaxia pós-operatória

A cirurgia integra o manejo da DC em situações bem definidas. É requerida para tratar complicações entéricas, podendo ser considerada para doença sintomática localizada em segmento curto de intestino. A ressecção de segmento doente é a operação mais comum. Quando se suspeita de abscesso intra-abdominal maior que 2 cm, a ACG sugere tratá-lo com antibióticos e procedimento de drenagem, mantendo a imunossupressão suspensa até que a drenagem seja obtida, radiologicamente ou cirurgicamente (recomendação condicional, qualidade de evidência baixa).

Após a cirurgia, a estratégia de prevenção da recorrência depende da estratificação de risco. Os três fatores de maior risco para recorrência pós-operatória são o tabagismo ativo após a cirurgia, a presença de doença penetrante e a história de duas ou mais cirurgias prévias. A diretriz sugere avaliação endoscópica pós-operatória entre 6 e 12 meses em pacientes com remissão induzida cirurgicamente, valendo-se sobretudo do escore de Rutgeerts. A calprotectina fecal acrescenta valor como biomarcador não invasivo, com níveis acima de 100 a 150 mcg/g associados a maior risco de recidiva endoscópica.

Escore de Rutgeerts Risco de recidiva
i0 a i2a Baixo risco
i2b a i4 Risco elevado

As condutas profiláticas conforme o risco estão organizadas a seguir.

Profilaxia pós-operatória Conduta Recomendação (força, qualidade)
Avaliação endoscópica pós-operatória 6 a 12 meses na remissão induzida cirurgicamente Condicional, moderada
Baixo risco de recorrência Observação continuada em vez de início imediato de terapia Condicional, muito baixa
Antibióticos imidazólicos (metronidazol) após ressecção de delgado 1 a 2 g/dia para prevenir recorrência (intolerância comum) Condicional, baixa
Alto risco — anti-TNF Prevenir recorrência endoscópica pós-operatória Forte, moderada
Alto risco — vedolizumabe Prevenir recorrência pós-operatória Condicional, baixa

O tratamento profilático é recomendado após ressecção de intestino delgado em pacientes com fatores de risco.

Na prática: no pós-operatório, estratifique o risco e faça endoscopia entre 6 e 12 meses guiada pelo Rutgeerts. Baixo risco pode observar; alto risco recebe anti-TNF.

Perguntas frequentes

A mesalazina oral tem papel na doença de Crohn? Não. A ACG recomenda de forma forte contra o uso de mesalazina oral tanto para indução quanto para manutenção na DC leve a moderada (qualidade de evidência moderada). A sulfassalazina pode ser considerada apenas para doença colônica leve sintomática. Esse é um ponto de distinção importante em relação à retocolite ulcerativa.

Por que os sintomas não bastam para guiar o tratamento? Porque os sintomas da DC não se correlacionam bem com a inflamação ativa: o CDAI pode divergir do SES-CD, da proteína C-reativa e da calprotectina fecal. A avaliação objetiva por endoscopia ou imagem seccional deve ser periódica, sustentando a lógica do treat-to-target e evitando subtratamento ou supertratamento.

Quais exames de rastreio são obrigatórios antes de iniciar um biológico? Rastreio de tuberculose latente e ativa (ensaios de interferon-gama preferidos em vacinados com BCG), painel de hepatite B (HBsAg, anti-HBc e anti-HBs) e atualização do calendário vacinal. Vacinas de vírus vivo atenuado devem ser evitadas durante a imunossupressão. Na TB latente, inicia-se quimioprofilaxia algumas semanas antes do anti-TNF.

As tiopurinas servem para induzir remissão? Não. A azatioprina (1,5 a 2,5 mg/kg/dia) e a 6-mercaptopurina (0,75 a 1,5 mg/kg/dia) têm recomendação forte contra a indução na doença moderada a grave, mas são sugeridas para manutenção após indução com corticosteroides. É obrigatório dosar a TPMT antes do início, e deve-se pesar o risco oncológico (câncer de pele não melanoma, linfoma e, raramente, linfoma hepatoesplênico de células T).

Quando usar terapia combinada com anti-TNF? A combinação de infliximabe IV com imunomodulador (tiopurina) é recomendada de forma forte em pacientes naive, por ser superior a qualquer das monoterapias isoladas. A combinação anti-TNF mais tiopurina, porém, eleva o risco raro de linfoma hepatoesplênico de células T, sobretudo em homens jovens, e deve ser individualizada.

Todo paciente operado precisa de terapia profilática? Não. A conduta depende da estratificação de risco. Pacientes de baixo risco (Rutgeerts i0 a i2a) podem ser observados; pacientes de alto risco (tabagismo ativo, doença penetrante, duas ou mais cirurgias prévias, Rutgeerts i2b a i4) têm recomendação forte para anti-TNF. A endoscopia entre 6 e 12 meses guia a decisão.

Pontos-chave: o que todo médico deve saber

A DC é doença crônica e, na maioria dos casos, progressiva, em que apenas 20% a 30% dos pacientes terão curso indolente. Os sintomas não refletem fielmente a inflamação, de modo que a avaliação objetiva por endoscopia, imagem seccional e biomarcadores como a calprotectina fecal é indispensável para guiar a terapia. A cicatrização mucosa é alvo terapêutico, sustentando a lógica do treat-to-target.

A estratificação de risco define a estratégia. Idade jovem, acometimento extenso ou ileal/ileocólico, doença perianal e fenótipo penetrante ou estenosante apontam maior risco e justificam terapia mais intensiva e precoce, sendo desnecessário exigir falha da terapia convencional antes de uma terapia avançada. Na doença ileocecal leve a moderada, a budesonida 9 mg/dia é a opção de indução, mas não de manutenção, e a mesalazina oral não tem papel na DC. Os corticosteroides convencionais induzem, mas não mantêm remissão, e devem ser limitados a três meses com introdução de poupadores. As tiopurinas servem à manutenção, não à indução, e exigem dosagem de TPMT antes do início.

O armamentário de terapias avançadas é amplo e graduado por força e qualidade de evidência: anti-TNF (com terapia combinada superior às monoterapias em pacientes naive), anti-integrina (vedolizumabe), anti-IL-12/23 e anti-IL-23 (ustequinumabe, risanquizumabe, mirikizumabe, guselkumabe) e inibidor de JAK (upadacitinibe, após exposição a anti-TNF). Na doença perianal fistulizante, a drenagem com seton precede a terapia avançada, e o infliximabe tem a melhor evidência. No pós-operatório, a estratificação de risco e a monitorização endoscópica entre 6 e 12 meses orientam a profilaxia, com anti-TNF recomendado nos pacientes de alto risco.

Por fim, as armadilhas mais frequentes: guiar a terapia apenas pelos sintomas; transpor o manejo da retocolite ulcerativa para a DC prescrevendo mesalazina oral; usar budesonida ileal como manutenção; prolongar corticosteroides além de três meses sem poupadores (com risco tromboembólico cinco vezes maior); empregar tiopurinas como indução isolada ou omitir a dosagem de TPMT; iniciar biológico sem excluir e drenar abscesso ou sem seton quando indicado; tratar fístula com mesalazina ou corticosteroide; negligenciar o tabagismo; manter imunossupressão na vigência de abscesso intra-abdominal não drenado; e deixar de estratificar o risco no pós-operatório.


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Este conteúdo tem finalidade educacional e de atualização para profissionais de saúde, não substituindo o julgamento clínico individualizado nem a leitura integral da diretriz original. As recomendações, doses e graduações de evidência baseiam-se exclusivamente no documento de referência.

Referência: Lichtenstein GR, et al. ACG Clinical Guideline: Management of Crohn’s Disease in Adults. The American Journal of Gastroenterology. Volume 120, June 2025. American College of Gastroenterology.