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Epilepsia: diagnóstico e tratamento na prática clínica

Revisão clínica de epilepsia: definição de crise, classificação focal e generalizada, EEG, neuroimagem, fármacos antiepilépticos e quando tratar.

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Epilepsia: diagnóstico e tratamento na prática clínica

A epilepsia é uma das condições neurológicas mais frequentes na clínica geral. O risco de uma crise única ao longo da vida chega a 10% da população, e a epilepsia propriamente dita afeta de 1% a 2% das pessoas. Esta revisão, baseada no “In the Clinic” dos Annals of Internal Medicine (2025), organiza o que o clínico precisa dominar: como diferenciar crise de epilepsia, classificar a crise, conduzir a investigação após a primeira crise, escolher o fármaco antiepiléptico e orientar situações especiais como gestação e direção veicular.

Crise epiléptica versus epilepsia: as definições que caem na prova

Uma armadilha clássica é tratar “crise” e “epilepsia” como sinônimos. São conceitos distintos. A crise é um evento; a epilepsia é a tendência a crises recorrentes.

A Liga Internacional Contra a Epilepsia (ILAE) adotou em 2014 uma definição prática. Considera-se epilepsia quando há uma das seguintes condições:

Critério ILAE 2014 para epilepsia Detalhamento
1. Duas ou mais crises não provocadas Separadas por pelo menos 24 horas
2. Uma crise não provocada com alto risco de recorrência Probabilidade de novas crises semelhante à observada após duas crises não provocadas (≥ 60% nos próximos 10 anos)
3. Diagnóstico de síndrome epiléptica Conjunto de características de tipos de crise, achados de EEG e de imagem que tendem a ocorrer juntos

O segundo critério é o mais sutil. Uma crise única, na presença de fatores como achado estrutural anormal na imagem cerebral ou descargas epileptiformes no EEG, pode elevar o risco de recorrência ao nível de quem já teve duas crises — autorizando o diagnóstico de epilepsia logo na primeira crise.

Na prática: uma crise não provocada com EEG epileptiforme ou lesão estrutural à imagem já pode caracterizar epilepsia, mesmo sem uma segunda crise. O conceito de risco de recorrência ≥ 60% é a chave dessa decisão.

O que significa “não provocada”

A ILAE define crise não provocada como aquela na ausência de um fator temporário ou reversível que reduza o limiar e produza a crise naquele momento.

  • Crise associada a concussão, febre ou abstinência alcoólica é considerada provocada — e exclui o diagnóstico de epilepsia.
  • Estímulos que desencadeiam crises reflexas (por exemplo, estímulos fóticos) ou causas que “produzem uma tendência duradoura a crises” (por exemplo, um tumor cerebral) não afastam o diagnóstico.

A ILAE ressalva que não reconhecer um fator provocador não significa que ele não exista.

Classificação das crises: focal, generalizada e início desconhecido

A classificação inicial baseia-se no local de início. Acertá-la é decisivo porque orienta o tratamento.

Categoria Subdivisão Características
Focal (parcial) Com preservação da consciência* Manifestações motoras (abalos em um lado da face ou do corpo) ou não motoras (distúrbios emocionais súbitos, incapacidade de compreender a linguagem); a consciência pode ser preservada ou perdida
Com comprometimento da consciência†
Generalizada Com manifestações motoras Tônico-clônica, clônica ou tônica; também atônica e mioclônica
Sem manifestações motoras Ausência
Início desconhecido Quando o início não pode ser determinado

* Antes denominadas crises parciais simples. † Antes denominadas crises parciais complexas (ou focais discognitivas).

Pontos que merecem destaque:

  • As crises de início generalizado estão sempre associadas à ausência de consciência.
  • Nas crises focais, a consciência pode ser preservada ou perdida — daí a importância de avaliar a “consciência de si e do ambiente durante a crise, mesmo que o paciente não consiga se mover”.
  • Uma crise tônico-clônica generalizada pode começar focal ou generalizada.

Na prática: abandone os termos antigos. “Crise parcial simples” virou crise focal com preservação da consciência; “crise parcial complexa” virou crise focal com comprometimento da consciência.

Causas, fatores de risco e gatilhos

Distinguir fatores que provocam a crise, fatores de risco para epilepsia e gatilhos é um diferencial em prova. Cerca de um terço a metade dos pacientes com epilepsia não tem causa identificada.

Fatores que provocam crises Fatores de risco para epilepsia Gatilhos
Metabólicos: hipo/hipernatremia, hipo/hipercalcemia, hipomagnesemia, hipoglicemia, hiperamonemia/insuficiência hepática, uremia/insuficiência renal Crises febris; história familiar (sobretudo parentes de 1º grau); meningite/encefalite prévia Privação de sono†
Estruturais agudos: TCE agudo, meningite, encefalite, AVC, hipóxia/isquemia Lesão estrutural cerebral prévia (AVC, tumor); TCE significativo prévio (perda de consciência ou amnésia > 30 min, lesão penetrante de crânio) Febre
Substâncias: intoxicação ou abstinência alcoólica, drogas recreativas Cirurgia cerebral prévia; prematuridade; lesão/asfixia ao nascimento, AVC Estresse emocional
Medicamentos: abstinência de benzodiazepínico ou baclofeno, fluoroquinolonas, carbapenêmicos, cefepime, metronidazol, tramadol, meperidina, morfina, bupropiona, clozapina, lítio, antidepressivos tricíclicos, antipsicóticos típicos Atraso do desenvolvimento neurológico; deficiência intelectual; causas genéticas (início na infância) Hiperventilação, estímulo fótico; música, leitura, alimentação (apenas em epilepsias reflexas específicas); alterações hormonais (p. ex., menstruais)

* Podem ser usados em pacientes com epilepsia se necessário. † A privação de sono em geral não desencadeia crises em pessoas sem epilepsia e não é considerada fator provocador.

Entre as causas adquiridas estão infecções do SNC (encefalite, meningite, HIV, neurocisticercose, malária cerebral, infecções TORCH). A epilepsia mioclônica juvenil é a causa mais comum de epilepsia idiopática em adultos e costuma se manifestar na adolescência e no início da vida adulta. Aproximadamente um terço a metade dos pacientes não tem causa identificada.

Prognóstico e risco de recorrência após a primeira crise

A mortalidade dos pacientes com epilepsia é cerca do dobro da população geral. Mas o número que mais importa na decisão terapêutica é o risco de recorrência.

Cenário Risco de nova crise
Após uma crise única, aparentemente não provocada (adultos) 21% a 45%
Após duas crises não provocadas (risco de uma terceira) Aproximadamente 73%
Primeira crise por insulto cerebral subjacente (AVC, trauma) Equivale ao risco de quem já teve duas crises

Aumentam o risco de recorrência: crise durante o sono, achado anormal no EEG ou na neuroimagem, e insulto cerebral subjacente.

Na prática: iniciar tratamento após a primeira crise não melhora a probabilidade de remissão das crises em 3 anos quando comparado a aguardar uma segunda crise. Por outro lado, uma boa resposta ao primeiro fármaco é um dos mais fortes preditores de bom desfecho de longo prazo.

Dados de segurança a reter: afogamentos ocorrem em pacientes com epilepsia a uma taxa 10 vezes maior que na população geral. A morte súbita inesperada na epilepsia (SUDEP) ocorre em aproximadamente 1,4 em 1000 adultos com epilepsia por ano, com fatores de risco como frequência de crises tônico-clônicas, crises noturnas, viver/dormir sozinho e não adesão à medicação.

Investigação: exames laboratoriais, neuroimagem e EEG

A avaliação da primeira crise costuma ocorrer no pronto-socorro. O objetivo é triplo: identificar causas, estimar o risco de recorrência e excluir mímicas de crise.

Roteiro laboratorial e de imagem

Situação Investigação recomendada
Primeira crise Anamnese e exame físico; glicose, sódio, cálcio, fósforo, magnésio, ureia (BUN), creatinina e álcool séricos; provas hepáticas; hemograma completo; rastreamento toxicológico; teste de gravidez em mulheres em idade fértil. Punção lombar se febril, rigidez de nuca ou imunossupressão. Eletroencefalograma. TC ou RM de crânio. Considerar teste de HIV.
Crise de escape (breakthrough) Mesma anamnese e exames acima, mais níveis séricos (vale) do anticonvulsivante. Avaliação de infecção (urinálise, radiografia de tórax, punção lombar conforme indicado). Sem necessidade de neuroimagem, exceto se o tipo de crise for novo ou houver mudança nos sintomas/frequência. EEG se o paciente não retornar ao basal.

Sobre a neuroimagem: a RM é o exame ideal para a primeira crise, com TC de crânio como alternativa quando a RM não está disponível. Em pacientes com crises recorrentes, deve-se garantir que uma RM de alta resolução tenha sido obtida no último ano.

Sobre a prolactina: um nível elevado sugere crise, mas não distingue crise epiléptica de síncope. Só é confiável se colhido 10 a 20 minutos após o episódio — o que raramente acontece a tempo. Por isso, dosar prolactina não é recomendado de rotina.

Quando e qual EEG solicitar

O EEG deve ser feito em qualquer paciente em que se suspeite de crise ou epilepsia. Há três tipos não invasivos:

Tipo de EEG Características Rendimento
EEG de rotina (rEEG) 20 a 40 minutos de registro; mais facilmente obtido em consultório ou PS Sensibilidade de um único rEEG: apenas 30% a 50%. Descargas interictais (espículas, ondas agudas) sugerem capacidade de ter crises, mas aparecem em ~3% de pessoas sem epilepsia
EEG ambulatorial (aEEG) Registro contínuo ambulatorial por vários dias; paciente marca os eventos Maior chance de captar crise eletrográfica (26% superior ao EEG único)
EEG contínuo (cEEG) Padrão-ouro para diagnóstico; ambulatorial ou hospitalar, com captura de evento Pode dar falso-negativo, sobretudo em uso de fármaco antiepiléptico; usado também para localizar foco antes de cirurgia

Na prática: um rEEG normal não exclui epilepsia — sua sensibilidade é de 30% a 50%. Por outro lado, descargas epileptiformes em ~3% de pessoas sem epilepsia significam que o EEG isolado não “confirma” que o episódio foi crise. O cEEG é o padrão-ouro, mas pode ser falso-negativo sob medicação.

Dada a grande quantidade de mímicas de crise, muitos clínicos encaminham a primeira crise ao neurologista geral para confirmar o diagnóstico e classificar o tipo de crise.

Quando tratar e como escolher o fármaco antiepiléptico

A decisão de iniciar fármaco antiepiléptico (FAE, ou ASM na sigla em inglês) após uma única crise depende de fatores de risco adicionais: AVC ou lesão cerebral prévia, EEG ou imagem anormais e se a crise foi provocada. Para crises não provocadas recorrentes, o tratamento é recomendado.

Princípios da escolha

Há mais de 20 FAEs aprovados, mas poucos estudos diretos comparam um com o outro. A maioria dos ensaios estudou crises de início focal — o tipo mais comum em adultos — de modo que a maior parte dos FAEs tem eficácia comprovada para crises focais. Muitos fármacos novos foram testados apenas como terapia adicional (add-on), nunca em monoterapia.

A escolha inicial deve considerar:

  • Dados de eficácia disponíveis para aquele tipo de crise;
  • Perfil de efeitos adversos;
  • Teratogenicidade em mulheres em idade fértil;
  • Interações medicamentosas.

Recomendações da revisão AAN/AES (2018)

Fármaco Recomendação População
Lamotrigina Deve ser considerada (nível B) Adultos com epilepsia focal de início recente
Levetiracetam e zonisamida Podem ser considerados (nível C) Adultos com epilepsia focal de início recente
Lamotrigina Pode ser considerada (nível B) Pacientes com 60 anos ou mais
Gabapentina Pode ser considerada (nível C) Pacientes com 60 anos ou mais

A revisão concluiu que lamotrigina, levetiracetam e zonisamida podem ser considerados FAEs de primeira linha para “pacientes com epilepsia focal de início recente ou crises tônico-clônicas generalizadas não classificadas”.

Na prática: no pronto-socorro, o levetiracetam costuma ser o primeiro FAE porque tem formulação intravenosa (permite carga rápida), é eliminado predominantemente pelos rins e tem mínimo potencial de interação medicamentosa.

Quando o primeiro agente falha ou causa efeitos adversos inaceitáveis, indica-se um segundo agente — como adjuvante ou com cross-taper para monoterapia. Se as crises não respondem à monoterapia, pode ajudar adicionar um segundo agente com mecanismo de ação diferente. O primeiro ou segundo fármaco prescrito é ineficaz em até um terço dos pacientes, e a chance de liberdade de crises diminui a cada FAE malsucedido.

Monitorização e efeitos adversos

A dosagem sérica (monitorização terapêutica) nem sempre ajuda no ajuste: alguns pacientes têm efeitos dose-dependentes mesmo em “valores terapêuticos”, outros toleram valores supraterapêuticos sem efeitos. É útil documentar a concentração sérica depois de identificada a dose eficaz, para decisões futuras.

Todos os FAEs atravessam a barreira hematoencefálica e podem causar efeitos semelhantes aos do álcool: fadiga, visão borrada ou dupla, fala arrastada, confusão, incoordenação e ataxia. Para mitigar, recomenda-se tomar o FAE dentro de 10 minutos do início ou do fim de uma refeição, com titulação mais gradual que a aprovada pela FDA e vigilância de sinais de supermedicação (nistagmo, sinais cerebelares, ataxia de marcha).

Alertas específicos:

  • Levetiracetam: efeitos adversos peculiares incluem irritabilidade, insônia, depressão, ansiedade e, raramente, psicose.
  • Lamotrigina: tarja preta para síndrome de Stevens-Johnson e alerta mais recente da FDA sobre alterações de ritmo e condução cardíaca; quanto ao risco de reação cutânea grave (síndrome de Stevens-Johnson/necrólise epidérmica tóxica – SJS/NET), o risco descrito (44 casos por 100.000 expostos) foi semelhante ao da fenitoína (46 casos por 100.000 expostos).

Dispositivos e cirurgia na epilepsia refratária

Para a epilepsia clinicamente refratária, há opções além dos fármacos.

Opção Indicação e características
Estimulador do nervo vago (VNS) Terapia adicional em adultos e crianças com crises focais para bilaterais tônico-clônicas e em refratários não candidatos a cirurgia ressectiva. Gerador implantado no tórax, eletrodo no nervo vago esquerdo. Pode ser ativado por ímã externo. Efeitos adversos: rouquidão, dor, sensação de falta de ar
Neuroestimulação responsiva (RNS) Gerador implantado na calota craniana com eletrodos no/sobre o cérebro; entrega estímulo em resposta a padrões ictais. Pode melhorar o controle e reduzir o uso de FAE. Efeitos adversos ligados ao implante (hemorragia intracraniana, infecção)
Cirurgia ressectiva Deve ser considerada em todos os pacientes com epilepsia clinicamente refratária. Remove o foco epileptogênico quando todas as crises se originam de uma região não funcional. Riscos: hemorragia intracraniana, infecção, novo déficit neurológico. Estudos sugerem melhor desfecho com menor duração da epilepsia — justificando consideração mais precoce

Levetiracetam e EEG no pronto-socorro

No ambiente de emergência, o levetiracetam é frequentemente o primeiro FAE empregado justamente por dispor de formulação intravenosa, permitindo carga rápida, com eliminação renal e baixo potencial de interação. O cEEG hospitalar pode ser necessário quando crises prolongadas ou recorrentes levam à hospitalização emergencial, e também para permitir a descontinuação monitorada de FAEs.

Na prática: diante de uma crise que não cede ou de um paciente que não retorna ao basal, o EEG (preferencialmente contínuo) é parte da avaliação — o cEEG é o exame de escolha para documentar focos do SNC e identificar estado de mal não convulsivo.

A revisão também chama atenção para FAEs associados a estado de mal não convulsivo ou encefalopatia mesmo em pessoas sem história de epilepsia, reforçando a vigilância clínica durante ajustes de dose.

Situações especiais: mulheres, gestação e contracepção

Como a taxa de gravidez não planejada em mulheres com epilepsia é semelhante à da população geral, é imperativo orientar contracepção até que a gravidez seja desejada e prescrever FAEs de menor risco fetal.

Tema Conduta
FAEs de menor risco fetal Lamotrigina e levetiracetam demonstraram baixo risco
Contracepção Preferir métodos reversíveis de longa duração (p. ex., DIU): muitos FAEs que interferem no P450 reduzem a eficácia de contraceptivos hormonais, e estes podem reduzir a eficácia de FAEs metabolizados pelo P450
Durante a gestação Se o FAE controlava as crises antes, pode manter eficácia desde que se preservem níveis terapêuticos; várias alterações gestacionais reduzem os níveis séricos (indução hepática, aumento da depuração de creatinina, mudanças na ligação proteica e no volume de distribuição). Monitorar níveis de perto e ajustar dose conforme necessário
Amamentação Considerada segura, desde que a paciente consiga sono adequado (p. ex., extraindo leite e dividindo as mamadas)
Complicações obstétricas Evidência inconclusiva sobre aumento de prematuridade, hipertensão induzida pela gestação ou sangramento tardio

Epilepsia catamenial: agrupamento de crises ligado ao ciclo reprodutivo. Quanto maior a razão estradiol-progesterona, maior a tendência a crises (que se agrupam antes da menstruação, antes da ovulação ou, em ciclos anovulatórios, ao longo de toda a segunda metade do ciclo). Progesterona ou anticoncepcionais orais podem reduzir as exacerbações cíclicas.

Na prática: valproato é relativamente contraindicado na gestação — a exposição intrauterina associa-se a teratogênese dose-dependente, redução do QI verbal e aumento do risco de autismo. Para mulheres em idade fértil, lamotrigina e levetiracetam são as opções de menor risco.

Comorbidades, segurança e direção veicular

Pacientes com epilepsia têm maior frequência de comprometimento cognitivo e de transtornos do humor. De 20% a 30% das pessoas com epilepsia têm depressão concomitante, e a coexistência aumenta em 3 vezes as tentativas de suicídio — por isso o rastreamento regular de depressão e suicidalidade é obrigatório. FAEs antigos (fenitoína, carbamazepina, valproato, fenobarbital) podem perturbar a homeostase do cálcio e aumentar o risco de osteopenia/osteoporose, justificando densitometria óssea periódica.

Direção veicular

Este é o tema de aconselhamento mais delicado, pela implicação no trabalho e no transporte.

  • Não há método confiável para prever quem terá crise ao dirigir, nem estudos bem desenhados que provem conclusivamente maior taxa de acidentes em motoristas com epilepsia.
  • Ainda assim, os privilégios de direção costumam ser restritos até um intervalo livre de eventos que varia de alguns meses a até 2 anos, dependendo do estado/jurisdição.
  • As restrições baseiam-se sobretudo em episódios de alteração da consciência, não em crises explicitamente.
  • O clínico deve conhecer as regras de sua região e documentar o aconselhamento fornecido.

Retirada do tratamento

A diretriz da AAN recomenda discutir riscos e benefícios da retirada do FAE no marco de 2 anos livre de crises, reconhecendo que uma recorrência pode afetar os privilégios de direção.

Na prática: estratégias de segurança devem ser equilibradas para não estigmatizar. Vale enquadrá-las como recomendações gerais — capacete ao andar de bicicleta, nadar apenas com salva-vidas, válvulas de segurança em banheiras —, lembrando que pacientes subtratados têm 8 vezes mais queimaduras, fraturas e lesões dentárias.

Perguntas frequentes

Uma única crise já é epilepsia?

Não necessariamente. Pela ILAE, uma crise não provocada caracteriza epilepsia apenas quando o risco de recorrência é alto (≥ 60% em 10 anos), o que ocorre, por exemplo, na presença de EEG epileptiforme ou lesão estrutural. Sem esses fatores, o risco de recorrência após uma crise única é de 21% a 45%, e não se fecha o diagnóstico.

Devo iniciar fármaco antiepiléptico já na primeira crise?

Depende dos fatores de risco. Iniciar tratamento após a primeira crise não melhora a remissão em 3 anos comparado a aguardar a segunda crise. A decisão de tratar após crise única considera AVC ou lesão cerebral prévia, EEG ou imagem anormais e se a crise foi provocada. Para crises não provocadas recorrentes, o tratamento é recomendado.

Um EEG normal exclui epilepsia?

Não. A sensibilidade de um único EEG de rotina é de apenas 30% a 50%. O EEG contínuo é o padrão-ouro, mas pode dar falso-negativo, sobretudo em pacientes em uso de fármaco antiepiléptico. O diagnóstico permanece fundamentalmente clínico.

Qual fármaco antiepiléptico é o de primeira linha?

Lamotrigina, levetiracetam e zonisamida são considerados de primeira linha para epilepsia focal de início recente ou crises tônico-clônicas generalizadas não classificadas. No pronto-socorro, o levetiracetam costuma ser o primeiro pela formulação intravenosa, eliminação renal e baixo potencial de interação.

Quais FAEs são preferidos na mulher que pode engravidar?

Lamotrigina e levetiracetam, por demonstrarem baixo risco fetal. O valproato é relativamente contraindicado na gestação pela teratogênese dose-dependente, redução do QI verbal e aumento do risco de autismo. Prefira contracepção de longa duração (DIU) pelas interações com o P450.

Por quanto tempo o paciente fica proibido de dirigir?

Varia conforme a jurisdição: de alguns meses até 2 anos livre de eventos, baseando-se sobretudo em episódios de alteração da consciência. O clínico deve conhecer as regras locais e documentar o aconselhamento.

Pontos-chave: o que todo médico deve saber

  • Crise não é epilepsia. Epilepsia exige duas crises não provocadas (≥ 24 h de intervalo), ou uma crise não provocada com risco de recorrência ≥ 60% em 10 anos, ou uma síndrome epiléptica.
  • Classifique pelo início: focal, generalizada ou desconhecida. Crises generalizadas sempre cursam com perda de consciência; nas focais, a consciência pode ser preservada ou perdida.
  • Risco de recorrência: 21% a 45% após uma crise única; ~73% após duas crises não provocadas. Sono, EEG/imagem anormais e insulto cerebral aumentam o risco.
  • Investigação da primeira crise: laboratório metabólico e toxicológico, RM (ou TC se RM indisponível) e EEG. Prolactina não é recomendada de rotina.
  • EEG normal não exclui epilepsia (sensibilidade de 30% a 50%); o cEEG é o padrão-ouro, mas pode ser falso-negativo sob medicação.
  • Tratamento: primeira linha com lamotrigina, levetiracetam ou zonisamida; levetiracetam é o preferido no PS pela formulação IV. Até um terço não responde ao primeiro ou segundo fármaco.
  • Mulheres em idade fértil: lamotrigina e levetiracetam têm baixo risco fetal; valproato é relativamente contraindicado na gestação.
  • Segurança: rastrear depressão e suicidalidade (3x mais tentativas); orientar prevenção de afogamento (10x mais frequente) e SUDEP (1,4/1000/ano); restringir direção até intervalo livre de eventos de meses a 2 anos.
  • Refratariedade: considerar VNS, RNS e cirurgia ressectiva; discutir retirada do FAE no marco de 2 anos livre de crises.

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Aviso: este conteúdo tem finalidade educacional e de revisão para preparação ao TECM. Não substitui diretrizes institucionais, julgamento clínico individualizado nem a leitura do material-fonte na íntegra. Condutas devem ser adaptadas a cada paciente.

Referência: In the Clinic: Epilepsy. Annals of Internal Medicine. American College of Physicians, April 2025.