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Retocolite Ulcerativa: Diagnóstico, Estratificação e Tratamento (Guideline ACG 2025)

Diagnostico, estratificacao de gravidade e tratamento da retocolite ulcerativa segundo o guideline ACG 2025, com doses de 5-ASA, biologicos, JAK, S1P e manejo…

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Retocolite Ulcerativa: Diagnóstico, Estratificação e Tratamento (Guideline ACG 2025)

A retocolite ulcerativa (RCU) combina raciocínio diagnóstico, estratificação de gravidade e um arsenal terapêutico que se expandiu muito nos últimos cinco anos. Por isso concentra um volume desproporcional de questões no TECM. Este guia percorre a atualização do guideline da American College of Gastroenterology (ACG) de 2025, conduzida por Rubin e colaboradores, do diagnóstico à colite aguda grave, preservando as doses, os índices e a graduação GRADE de cada recomendação.

Definição, extensão e epidemiologia

A RCU é uma doença inflamatória intestinal (DII) idiopática do intestino grosso, de etiologia ainda não esclarecida, cuja incidência e prevalência seguem em ascensão. Dados recentes pareados de bases comerciais e públicas estimam incidência de 6,3 por 100.000 pessoas-ano (IC 95% 6,1-6,6) em adultos, superior à da doença de Crohn (DC) calculada pela mesma metodologia, e prevalência ajustada de 305 por 100.000, o que extrapola para cerca de 1,253 milhão de norte-americanos vivendo com RCU.

A doença caracteriza-se por inflamação crônica do intestino grosso que frequentemente envolve o reto e tende a se estender proximalmente. A ausência de envolvimento retal é descrita em menos de 5% dos adultos ao diagnóstico, embora possa ocorrer em até um terço dos casos de início pediátrico. A apresentação inicial costuma traduzir o reto inflamado, com sangramento, urgência e tenesmo. A doença pode surgir em qualquer idade, com pico na terceira década de vida, e o padrão é tipicamente recidivante e remitente. Uma parcela menor evolui com atividade persistente apesar do tratamento, e poucos abrem o quadro como colite fulminante.

A classificação por extensão é central para orientar a terapia e os intervalos de vigilância. O guideline define três categorias:

Extensão Limite anatômico Observação
Proctite Limitada aos 18 cm da margem anal, distal à junção retossigmoide Apresentação mais comum
Colite esquerda Do sigmoide até a flexura esplênica
Colite extensa Além da flexura esplênica, incluindo todo o colorreto (pancolite) Maior risco de displasia e CCR

A morbidade é significativa, mas a mortalidade é baixa. Vale registrar a maior prevalência de comorbidades psicológicas, ansiedade e depressão, com impacto sobre a qualidade de vida e o funcionamento social, além do risco definido de displasia e câncer colorretal (CCR) associado à RCU de longa data, atribuído sobretudo ao envolvimento extenso e à atividade inflamatória mucosa prolongada.

Apresentação clínica e diagnóstico

Diarreia com sangue, presença de muco, urgência evacuatória, tenesmo e cólica abdominal devem disparar a suspeita de RCU, sobretudo na ausência de causa alternativa. A anamnese precisa avaliar a frequência das evacuações (incluindo as noturnas), a proporção de evacuações com sangue visível, dor e cólica abdominal, urgência e perda de peso, esta última marcadora de gravidade. Cabe ainda rastrear manifestações extraintestinais (artralgia ou artrite, lesões cutâneas, inflamação ocular, aftas e queilite angular, sinais hepatobiliares como icterícia ou prurido) e potenciais precipitantes, como cessação recente do tabagismo, uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) e infecções entéricas.

A exclusão de etiologia infecciosa é obrigatória ao diagnóstico. A tabela abaixo resume as recomendações de testagem e os agentes a considerar.

Conduta diagnóstica Recomendação (GRADE)
Pesquisa de Clostridioides difficile nas fezes em todo paciente com suspeita de RCU Forte, qualidade muito baixa
Contra a sorologia de anticorpos para estabelecer ou excluir o diagnóstico de RCU Forte, qualidade muito baixa
Contra a sorologia de anticorpos para definir prognóstico Forte, qualidade muito baixa
Calprotectina fecal (FC) para avaliar resposta à terapia, suspeita de recidiva e monitorar a manutenção Forte, qualidade moderada

A infecção por C. difficile (ICD) complica proporção relevante dos pacientes com DII, com prevalência entre 5% e 47% em recém-diagnosticados ou em recidiva, e associa-se a maior risco de hospitalização, colectomia e mortalidade. Outras infecções que mimetizam RCU incluem Escherichia coli (O157:H7), Salmonella, Shigella, Yersinia e Campylobacter, além de parasitoses como a amebíase no contexto clínico adequado.

O diagnóstico de confirmação é endoscópico e histológico. A colonoscopia com intubação do íleo e biópsias de áreas afetadas e não afetadas deve ser realizada, com as amostras interpretadas por patologista, preferencialmente com expertise em patologia gastrointestinal. Se o íleo terminal estiver normal, não há necessidade de investigação adicional do estômago e do intestino delgado por endoscopia alta ou imagem seccional, salvo sintomas ou achados que sugiram envolvimento proximal ou diagnóstico de DC.

Na prática: a calprotectina fecal não fecha o diagnóstico, mas é o marcador não invasivo de escolha para seguir resposta ao tratamento e flagrar recidiva. As sorologias (pANCA, ASCA) não servem nem para diagnosticar nem para prognosticar.

Avaliação de gravidade e atividade

As definições de gravidade orientam as decisões terapêuticas e devem se apoiar em quatro eixos: desfechos relatados pelo paciente (sangramento, normalização do hábito intestinal, urgência), carga inflamatória (avaliação endoscópica de extensão e gravidade, além de marcadores como FC, proteína C-reativa [PCR] e albumina sérica), curso da doença (necessidade de hospitalização, de corticoide, falha de resposta às medicações) e impacto da doença (qualidade de vida relacionada à saúde e funcionamento social).

Historicamente, a gravidade foi classificada pelos critérios de Truelove e Witts, de 1955. O índice é simples e útil para definir necessidade de hospitalização, ainda que limitado para graduar atividade de forma fina.

Parâmetro (Truelove-Witts, 1955) Colite leve Colite grave
Evacuações diárias < 4 > 6
Temperatura Normal Febre
Frequência cardíaca Normal Taquicardia
Hemoglobina Normal (> 11 g/dL) Anemia
VHS Normal (< 20 mm/h) Elevada

A gravidade endoscópica deve ser relatada por escala validada, como o Escore Endoscópico de Mayo (MES) ou o UC Endoscopic Index of Severity (UCEIS). O subescore endoscópico de Mayo varia de 0 a 3:

MES Achado endoscópico
0 Doença normal ou inativa
1 Doença leve (eritema, padrão vascular diminuído, friabilidade leve)
2 Doença moderada (eritema marcado, ausência de padrão vascular, friabilidade, erosões)
3 Doença grave (sangramento espontâneo e ulcerações)

O guideline também sintetiza a atividade em um índice composto (ACG UC Activity Index), que cruza desfechos clínicos, marcadores e achados de imagem por categoria de gravidade.

Parâmetro Remissão Leve Moderada-grave Fulminante
Evacuações/dia Fezes formadas < 4 > 6 > 10
Sangue nas fezes Nenhum Intermitente Frequente Contínuo
Urgência Nenhuma Leve, ocasional Frequente Contínua
Hemoglobina Normal Normal < 75% do normal Transfusão necessária
VHS < 30 < 30 > 30 > 30
Calprotectina fecal (mcg/g) < 150-200 > 150-200 > 150-200 > 150-200
MES 0-1 1 2-3 3
UCEIS 0-1 2-4 5-8 7-8

Com exceção da remissão, o paciente não precisa preencher todos os fatores para ser enquadrado em uma categoria.

O monitoramento da resposta ao tratamento, durante a manutenção e nos períodos de suspeita de recidiva, pode lançar mão de FC, PCR, avaliação endoscópica por sigmoidoscopia flexível ou colonoscopia e ultrassom intestinal. A meta terapêutica de referência é a melhora endoscópica, definida como resolução das alterações inflamatórias com MES 0 ou 1: o guideline recomenda tratar o paciente até alcançá-la, com o objetivo de aumentar a probabilidade de remissão sustentada livre de corticoide e prevenir hospitalizações e cirurgia (recomendação forte, qualidade de evidência moderada). A remissão profunda, combinação de remissão sintomática e cicatrização endoscópica, é o alvo preferencial, e a remissão livre de corticoide define-se por sintomas e achados endoscópicos sem uso de corticoide por período sustentado, geralmente superior a 12 semanas.

Tratamento da RCU leve a moderada: indução e manutenção

O tratamento da doença leve a moderada organiza-se por extensão e centra-se nos aminossalicilatos (5-ASA). A tabela consolida as recomendações de indução por extensão, com doses e graduação.

Cenário Conduta de indução Dose Recomendação (GRADE)
Proctite 5-ASA retal 1 g/dia Forte, qualidade moderada
Proctite não responsiva ao 5-ASA tópico Supositório de tacrolimo ou de beclometasona Condicional, qualidade baixa
Proctite ou colite esquerda Corticoides tópicos (supositório, espuma, enema) sobre nenhum tratamento Condicional, qualidade muito baixa
Proctite ou colite esquerda Enema de 5-ASA, preferível aos esteroides retais ≥ 1 g/dia Forte, qualidade moderada
Colite esquerda Enema de 5-ASA + 5-ASA oral (vs. oral isolado) Enema ≥ 1 g/dia + oral ≥ 2,0 g/dia Condicional, qualidade baixa
Colite esquerda intolerante/não responsiva a 5-ASA oral e retal Budesonida MMX oral 9 mg/dia Forte, qualidade moderada
Colite extensa 5-ASA oral ≥ 2,0 g/dia Forte, qualidade moderada
Qualquer extensão com falha ao 5-ASA Corticoide sistêmico oral Forte, qualidade baixa
Qualquer extensão não responsiva ao 5-ASA oral Adicionar budesonida MMX 9 mg/dia Forte, qualidade moderada

Alguns pontos práticos merecem destaque na falha ao 5-ASA. Em pacientes que não atingem remissão com 5-ASA adequadamente dosado (oral de 2 a 4,8 g/dia e/ou retal de 1 g/dia), sugere-se não trocar de formulação de 5-ASA, e sim considerar outras classes terapêuticas (condicional, qualidade baixa). Na doença leve de qualquer extensão, sugere-se usar dose baixa (2,0-2,4 g) em comparação à dose alta (4,8 g), pois não há diferença na taxa de remissão (condicional, qualidade muito baixa). A posologia do 5-ASA pode ser em dose única diária ou fracionada conforme a preferência do paciente, para otimizar a adesão, já que eficácia e segurança não diferem (recomendação forte, qualidade moderada).

Na manutenção da doença leve, recomenda-se 5-ASA retal 1 g/dia na proctite (recomendação forte, qualidade moderada) e 5-ASA oral em dose de pelo menos 1,5 g/dia na colite esquerda ou extensa (recomendação forte, qualidade moderada). Um conceito-chave recorrente em provas: recomenda-se contra corticoides sistêmicos, budesonida MMX ou tópicos para manutenção de remissão (recomendação forte, qualidade moderada).

Na prática: o corticoide induz, mas não mantém. Diante de falha ao 5-ASA bem dosado, não troque a formulação de 5-ASA: escalone para outra classe.

Tratamento da RCU moderada a grave: indução e manutenção

Na doença moderada a grave, a budesonida MMX oral é recomendada para indução na atividade moderada (recomendação forte, qualidade moderada), e os corticoides sistêmicos orais são recomendados para induzir remissão em qualquer extensão (recomendação forte, qualidade baixa). Recomenda-se contra a monoterapia com tiopurinas ou metotrexato para indução (recomendação forte, qualidade baixa): esses imunomoduladores não têm papel como indutores isolados.

O espectro de terapias avançadas para indução é amplo e quase todo sustentado por recomendações fortes. A tabela reúne as classes, os agentes e a qualidade da evidência para indução.

Classe Agentes Recomendação (indução)
Modulador S1P (esfingosina-1-fosfato) Ozanimode, etrasimode Forte, qualidade moderada
Anti-IL-12/23p40 Ustequinumabe Forte, qualidade moderada
Inibidores de IL-23p19 Guselcumabe, mirikizumabe, risanquizumabe Forte, qualidade moderada
Antiintegrina Vedolizumabe Forte, qualidade moderada
Anti-TNF Infliximabe Forte, qualidade alta
Anti-TNF Adalimumabe, golimumabe Forte, qualidade moderada
Inibidor de JAK Tofacitinibe Forte, qualidade moderada
Inibidor de JAK Upadacitinibe Forte, qualidade alta

Infliximabe e upadacitinibe são os agentes com evidência de qualidade alta para indução nesse cenário.

Há recomendações de posicionamento relevantes. Quando o infliximabe é usado como indução, recomenda-se a terapia combinada com tiopurina (recomendação forte, qualidade moderada para azatioprina). Em pacientes que falharam ao 5-ASA e nos quais se usa terapia avançada com biológico ou inibidor de JAK para indução, sugere-se não manter o 5-ASA para eficácia clínica adicional (condicional, qualidade muito baixa). E, em comparação direta, recomenda-se o vedolizumabe em vez do adalimumabe para indução e manutenção (recomendação forte, qualidade moderada). Na perda de resposta ao anti-TNF em pacientes antes responsivos, sugere-se dosar níveis séricos do fármaco e anticorpos antifármaco (quando o fármaco não estiver presente em quantidade suficiente) para esclarecer a causa (condicional, qualidade muito baixa).

Na manutenção da doença previamente moderada a grave, o princípio dominante é continuar o agente que induziu a remissão. Todas as recomendações abaixo são fortes, com qualidade moderada, sempre em pacientes que responderam à indução com o respectivo agente.

Manutenção Agentes
Moduladores S1P Ozanimode, etrasimode
Anti-IL-12/23p40 Ustequinumabe
Inibidores de IL-23 Guselcumabe, mirikizumabe, risanquizumabe
Antiintegrina Vedolizumabe (IV ou SC)
Anti-TNF Adalimumabe, golimumabe, infliximabe (IV ou SC)
Inibidores de JAK Tofacitinibe, upadacitinibe

Quanto aos corticoides, recomenda-se contra os sistêmicos para manutenção (recomendação forte, qualidade moderada). Para o paciente que entrou em remissão por indução com corticoide, sugerem-se tiopurinas para manutenção em comparação a nenhum tratamento ou ao próprio corticoide (condicional, qualidade baixa), enquanto se sugere contra o metotrexato para manutenção (condicional, qualidade baixa).

Na prática: o 5-ASA tende a ser menos eficaz como manutenção na doença prévia grave do que na moderada. Na manutenção da moderada a grave, mantenha o agente que induziu — não troque por inércia.

Colite aguda grave (ASUC) e manejo hospitalar

A colite aguda grave (ASUC) é definida pela presença de seis ou mais evacuações diárias acompanhadas de ao menos um sinal sistêmico de toxicidade (taquicardia, febre, anemia com hemoglobina abaixo de 10,5 g/dL ou marcadores inflamatórios elevados, como VHS acima de 30 mm/h). Em crianças, utiliza-se PUCAI maior ou igual a 65. O paciente deve ser internado para corticoterapia intravenosa e suporte com fluidos e eletrólitos. Coortes históricas mostram que até um quarto dos pacientes com RCU pode desenvolver ASUC, com colectomia em até 40% deles, e mesmo quando a hospitalização-índice não culmina em cirurgia, esse grupo permanece em alto risco de desfechos adversos subsequentes.

As recomendações graduadas para o manejo hospitalar estão consolidadas abaixo.

Conduta na ASUC Dose / detalhe Recomendação (GRADE)
Testar para infecção por C. difficile Forte, qualidade moderada
Profilaxia farmacológica de TVP para prevenir TEV Forte, qualidade baixa
Contra antibióticos de amplo espectro de rotina Forte, qualidade baixa
Contra nutrição parenteral total para repouso intestinal Condicional, qualidade muito baixa
Corticoide IV para indução Metilprednisolona 60 mg/dia ou hidrocortisona 100 mg 3-4x/dia Forte, qualidade baixa

A regra dos três dias estrutura o manejo. Em pacientes que não respondem adequadamente ao corticoide intravenoso em 3 dias, recomenda-se terapia de resgate medicamentosa com infliximabe ou ciclosporina (recomendação forte, qualidade moderada). A escolha entre os dois deve considerar a experiência do prescritor com o agente, a história de falha prévia a imunomodulador ou anti-TNF e a albumina sérica.

Resgate / manutenção pós-ASUC Conduta Recomendação (GRADE)
Falha ao corticoide IV em 3 dias Resgate com infliximabe ou ciclosporina Forte, qualidade moderada
Remissão com infliximabe Manter o mesmo agente na manutenção Forte, qualidade moderada
Remissão com ciclosporina Manutenção com tiopurinas Condicional, qualidade baixa
Remissão com ciclosporina Manutenção com vedolizumabe Condicional, qualidade muito baixa

Quanto aos inibidores de JAK na ASUC refratária ao corticoide ou ao infliximabe, o guideline considera que ainda há dados insuficientes para recomendar rotineiramente tofacitinibe ou upadacitinibe.

Vários conceitos-chave completam o manejo. Todo paciente com ASUC deve realizar sigmoidoscopia flexível em até 72 horas, e preferencialmente em 24 horas, da admissão, para avaliar a gravidade endoscópica e biopsiar em busca de colite por citomegalovírus (CMV). É obrigatório avaliar a presença de megacólon tóxico. A resposta deve ser monitorada por frequência evacuatória, sangramento retal, exame físico, sinais vitais e PCR seriada. AINEs, opioides e medicações com efeito anticolinérgico devem ser evitados. Diante de falha à terapia medicamentosa em 3 dias ou de suspeita de toxicidade, a consulta cirúrgica deve ser obtida. Ao iniciar infliximabe, deve-se considerar intensificação de dose nos pacientes com albumina sérica baixa (abaixo de 2,5 g/dL).

Na prática: internou com ASUC, comece corticoide IV e marque o relógio. Dia 3 sem resposta significa resgate com infliximabe ou ciclosporina, com sigmoidoscopia precoce para CMV, profilaxia de TEV desde a admissão e olho no megacólon tóxico.

Cirurgia e colectomia

A cirurgia mantém papel definido no algoritmo. Recomenda-se obter consulta com cirurgião e considerar colectomia nos pacientes com doença moderada a grave refratária ou intolerante à terapia medicamentosa. Na perspectiva da manutenção, os pacientes com doença moderada a grave que não sustentam remissão apesar de terapia medicamentosa otimizada devem ser considerados para proctocolectomia eletiva. Na ASUC, as indicações de cirurgia incluem megacólon tóxico, perfuração colônica, hemorragia refratária grave e refratariedade à terapia medicamentosa. Um ponto que se desfaz com frequência na prática e cobra atenção: infliximabe e ciclosporina não aumentam as complicações pós-operatórias da colectomia, de modo que a cirurgia não deve ser adiada com base nessa exposição prévia.

Vigilância de displasia e câncer colorretal

A RCU de longa data carrega risco definido de displasia e CCR, atribuído sobretudo à extensão do acometimento e à atividade inflamatória mucosa prolongada. Esta atualização do guideline da ACG concentra-se em diagnóstico, estratificação, terapia medicamentosa e ASUC, e aborda a prevenção do câncer a partir do controle da inflamação. Dois conceitos-chave sintetizam a mensagem: a mucosa cicatrizada endoscopicamente associa-se a remissão sustentada e menor risco de colectomia, e o controle da inflamação mucosa pode reduzir o risco de displasia. A obtenção de biópsias dos segmentos proximais auxilia na definição da extensão e, por consequência, dos intervalos de vigilância. Dada a natureza crônica da RCU e das suas terapias, o monitoramento de complicações relacionadas à doença e aos fármacos é parte integrante do cuidado, com estratégias preventivas detalhadas em guideline específico da ACG, ao qual o documento remete para os protocolos de vigilância endoscópica propriamente ditos.

Perguntas frequentes

A calprotectina fecal confirma o diagnóstico de retocolite ulcerativa? Não. A calprotectina fecal é um marcador inflamatório não específico, útil para diferenciar DII de causas não inflamatórias de diarreia e, sobretudo, para avaliar resposta à terapia, suspeita de recidiva e monitorar a manutenção (recomendação forte, qualidade moderada). O diagnóstico se confirma por colonoscopia com intubação ileal e biópsias de áreas afetadas e não afetadas.

Qual é a meta de tratamento na RCU? A meta de referência é a melhora endoscópica, definida como resolução das alterações inflamatórias com MES 0 ou 1, para aumentar a probabilidade de remissão sustentada livre de corticoide e prevenir hospitalizações e cirurgia. A remissão profunda, que combina remissão sintomática e cicatrização endoscópica, é o alvo preferencial.

Pode-se usar corticoide para manter a remissão? Não. Recomenda-se contra corticoides sistêmicos, budesonida MMX ou tópicos para manutenção de remissão (recomendação forte, qualidade moderada). O corticoide induz, mas não mantém. Quem entrou em remissão por indução com corticoide pode ser mantido com tiopurinas em comparação a nenhum tratamento ou ao próprio corticoide.

Diante de falha ao 5-ASA bem dosado, devo trocar a formulação? Não. Sugere-se não trocar de formulação de 5-ASA e, sim, considerar outras classes terapêuticas (condicional, qualidade baixa). Subir a dose de 2,0-2,4 g para 4,8 g na doença leve também não aumenta a taxa de remissão.

Como funciona a regra dos três dias na ASUC? O paciente é internado e recebe corticoide IV (60 mg/dia de metilprednisolona ou hidrocortisona 100 mg 3-4x/dia). Se não houver resposta adequada em 3 dias, recomenda-se resgate medicamentoso com infliximabe ou ciclosporina (recomendação forte, qualidade moderada), com consulta cirúrgica diante de falha ou suspeita de toxicidade.

Infliximabe ou ciclosporina prévios contraindicam a colectomia? Não. Infliximabe e ciclosporina não aumentam as complicações pós-operatórias da colectomia, de modo que a cirurgia não deve ser adiada com base nessa exposição prévia.

Pontos-chave: o que todo médico deve saber

A pesquisa de C. difficile nas fezes é mandatória na suspeita de RCU e na ASUC, enquanto as sorologias de anticorpos não servem para diagnosticar nem para prognosticar (todas recomendações fortes). O diagnóstico se confirma por colonoscopia com intubação ileal e biópsias de áreas afetadas e não afetadas, e a extensão se classifica em proctite, colite esquerda e colite extensa. A meta de tratamento é a melhora endoscópica (MES 0 ou 1), com a calprotectina fecal recomendada para avaliar resposta e recidiva. Na doença leve a moderada, o 5-ASA é a base, retal na proctite (1 g/dia) e oral na doença mais extensa (ao menos 2,0 g/dia na indução), com budesonida MMX 9 mg/dia para os refratários ao 5-ASA. Corticoide induz, mas nunca mantém. Na doença moderada a grave, há um leque de terapias avançadas com recomendação forte (anti-TNF, vedolizumabe, ustequinumabe, inibidores de IL-23, moduladores S1P e inibidores de JAK), e o princípio da manutenção é continuar o agente que induziu a remissão. Na ASUC, internação, corticoide IV (60 mg/dia de metilprednisolona), profilaxia de TEV e a regra dos três dias para resgate com infliximabe ou ciclosporina definem o curso, sempre com avaliação precoce de megacólon tóxico e consulta cirúrgica diante de falha.

Erros comuns e armadilhas

Trocar uma formulação de 5-ASA por outra diante da falha é um equívoco frequente: o guideline sugere não fazê-lo e, sim, escalonar para outra classe terapêutica. Subir a dose de 5-ASA de 2,0-2,4 g para 4,8 g na doença leve não aumenta a taxa de remissão. Usar corticoide como manutenção, em qualquer formulação, contraria recomendação forte e expõe o paciente a toxicidade sem benefício de durabilidade. Esquecer a profilaxia de tromboembolismo venoso na ASUC ignora o estado pró-trombótico da doença ativa internada. Prescrever antibiótico de amplo espectro de rotina na ASUC, sem foco infeccioso definido, vai contra a recomendação. Não realizar a sigmoidoscopia precoce com biópsia para CMV nas primeiras 24 a 72 horas e não rastrear megacólon tóxico são falhas de manejo hospitalar. Adiar a cirurgia por receio das complicações atribuídas ao infliximabe ou à ciclosporina é injustificado, pois esses agentes não elevam o risco pós-operatório. Por fim, indicar tiopurina ou metotrexato em monoterapia para induzir remissão na doença moderada a grave desconsidera que esses imunomoduladores não têm papel como indutores isolados.


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Este conteúdo tem caráter educacional e de revisão para fins de preparação médica, não substituindo o julgamento clínico individualizado nem a leitura integral da diretriz original. As condutas devem ser sempre contextualizadas ao paciente.

Referência: Rubin DT, et al. ACG Clinical Guideline: Ulcerative Colitis in Adults (Update). The American Journal of Gastroenterology, Volume 120, June 2025. American College of Gastroenterology.