A retocolite ulcerativa (RCU) combina raciocínio diagnóstico, estratificação de gravidade e um arsenal terapêutico que se expandiu muito nos últimos cinco anos. Por isso concentra um volume desproporcional de questões no TECM. Este guia percorre a atualização do guideline da American College of Gastroenterology (ACG) de 2025, conduzida por Rubin e colaboradores, do diagnóstico à colite aguda grave, preservando as doses, os índices e a graduação GRADE de cada recomendação.
Definição, extensão e epidemiologia
A RCU é uma doença inflamatória intestinal (DII) idiopática do intestino grosso, de etiologia ainda não esclarecida, cuja incidência e prevalência seguem em ascensão. Dados recentes pareados de bases comerciais e públicas estimam incidência de 6,3 por 100.000 pessoas-ano (IC 95% 6,1-6,6) em adultos, superior à da doença de Crohn (DC) calculada pela mesma metodologia, e prevalência ajustada de 305 por 100.000, o que extrapola para cerca de 1,253 milhão de norte-americanos vivendo com RCU.
A doença caracteriza-se por inflamação crônica do intestino grosso que frequentemente envolve o reto e tende a se estender proximalmente. A ausência de envolvimento retal é descrita em menos de 5% dos adultos ao diagnóstico, embora possa ocorrer em até um terço dos casos de início pediátrico. A apresentação inicial costuma traduzir o reto inflamado, com sangramento, urgência e tenesmo. A doença pode surgir em qualquer idade, com pico na terceira década de vida, e o padrão é tipicamente recidivante e remitente. Uma parcela menor evolui com atividade persistente apesar do tratamento, e poucos abrem o quadro como colite fulminante.
A classificação por extensão é central para orientar a terapia e os intervalos de vigilância. O guideline define três categorias:
| Extensão | Limite anatômico | Observação |
|---|---|---|
| Proctite | Limitada aos 18 cm da margem anal, distal à junção retossigmoide | Apresentação mais comum |
| Colite esquerda | Do sigmoide até a flexura esplênica | — |
| Colite extensa | Além da flexura esplênica, incluindo todo o colorreto (pancolite) | Maior risco de displasia e CCR |
A morbidade é significativa, mas a mortalidade é baixa. Vale registrar a maior prevalência de comorbidades psicológicas, ansiedade e depressão, com impacto sobre a qualidade de vida e o funcionamento social, além do risco definido de displasia e câncer colorretal (CCR) associado à RCU de longa data, atribuído sobretudo ao envolvimento extenso e à atividade inflamatória mucosa prolongada.
Apresentação clínica e diagnóstico
Diarreia com sangue, presença de muco, urgência evacuatória, tenesmo e cólica abdominal devem disparar a suspeita de RCU, sobretudo na ausência de causa alternativa. A anamnese precisa avaliar a frequência das evacuações (incluindo as noturnas), a proporção de evacuações com sangue visível, dor e cólica abdominal, urgência e perda de peso, esta última marcadora de gravidade. Cabe ainda rastrear manifestações extraintestinais (artralgia ou artrite, lesões cutâneas, inflamação ocular, aftas e queilite angular, sinais hepatobiliares como icterícia ou prurido) e potenciais precipitantes, como cessação recente do tabagismo, uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) e infecções entéricas.
A exclusão de etiologia infecciosa é obrigatória ao diagnóstico. A tabela abaixo resume as recomendações de testagem e os agentes a considerar.
| Conduta diagnóstica | Recomendação (GRADE) |
|---|---|
| Pesquisa de Clostridioides difficile nas fezes em todo paciente com suspeita de RCU | Forte, qualidade muito baixa |
| Contra a sorologia de anticorpos para estabelecer ou excluir o diagnóstico de RCU | Forte, qualidade muito baixa |
| Contra a sorologia de anticorpos para definir prognóstico | Forte, qualidade muito baixa |
| Calprotectina fecal (FC) para avaliar resposta à terapia, suspeita de recidiva e monitorar a manutenção | Forte, qualidade moderada |
A infecção por C. difficile (ICD) complica proporção relevante dos pacientes com DII, com prevalência entre 5% e 47% em recém-diagnosticados ou em recidiva, e associa-se a maior risco de hospitalização, colectomia e mortalidade. Outras infecções que mimetizam RCU incluem Escherichia coli (O157:H7), Salmonella, Shigella, Yersinia e Campylobacter, além de parasitoses como a amebíase no contexto clínico adequado.
O diagnóstico de confirmação é endoscópico e histológico. A colonoscopia com intubação do íleo e biópsias de áreas afetadas e não afetadas deve ser realizada, com as amostras interpretadas por patologista, preferencialmente com expertise em patologia gastrointestinal. Se o íleo terminal estiver normal, não há necessidade de investigação adicional do estômago e do intestino delgado por endoscopia alta ou imagem seccional, salvo sintomas ou achados que sugiram envolvimento proximal ou diagnóstico de DC.
Na prática: a calprotectina fecal não fecha o diagnóstico, mas é o marcador não invasivo de escolha para seguir resposta ao tratamento e flagrar recidiva. As sorologias (pANCA, ASCA) não servem nem para diagnosticar nem para prognosticar.
Avaliação de gravidade e atividade
As definições de gravidade orientam as decisões terapêuticas e devem se apoiar em quatro eixos: desfechos relatados pelo paciente (sangramento, normalização do hábito intestinal, urgência), carga inflamatória (avaliação endoscópica de extensão e gravidade, além de marcadores como FC, proteína C-reativa [PCR] e albumina sérica), curso da doença (necessidade de hospitalização, de corticoide, falha de resposta às medicações) e impacto da doença (qualidade de vida relacionada à saúde e funcionamento social).
Historicamente, a gravidade foi classificada pelos critérios de Truelove e Witts, de 1955. O índice é simples e útil para definir necessidade de hospitalização, ainda que limitado para graduar atividade de forma fina.
| Parâmetro (Truelove-Witts, 1955) | Colite leve | Colite grave |
|---|---|---|
| Evacuações diárias | < 4 | > 6 |
| Temperatura | Normal | Febre |
| Frequência cardíaca | Normal | Taquicardia |
| Hemoglobina | Normal (> 11 g/dL) | Anemia |
| VHS | Normal (< 20 mm/h) | Elevada |
A gravidade endoscópica deve ser relatada por escala validada, como o Escore Endoscópico de Mayo (MES) ou o UC Endoscopic Index of Severity (UCEIS). O subescore endoscópico de Mayo varia de 0 a 3:
| MES | Achado endoscópico |
|---|---|
| 0 | Doença normal ou inativa |
| 1 | Doença leve (eritema, padrão vascular diminuído, friabilidade leve) |
| 2 | Doença moderada (eritema marcado, ausência de padrão vascular, friabilidade, erosões) |
| 3 | Doença grave (sangramento espontâneo e ulcerações) |
O guideline também sintetiza a atividade em um índice composto (ACG UC Activity Index), que cruza desfechos clínicos, marcadores e achados de imagem por categoria de gravidade.
| Parâmetro | Remissão | Leve | Moderada-grave | Fulminante |
|---|---|---|---|---|
| Evacuações/dia | Fezes formadas | < 4 | > 6 | > 10 |
| Sangue nas fezes | Nenhum | Intermitente | Frequente | Contínuo |
| Urgência | Nenhuma | Leve, ocasional | Frequente | Contínua |
| Hemoglobina | Normal | Normal | < 75% do normal | Transfusão necessária |
| VHS | < 30 | < 30 | > 30 | > 30 |
| Calprotectina fecal (mcg/g) | < 150-200 | > 150-200 | > 150-200 | > 150-200 |
| MES | 0-1 | 1 | 2-3 | 3 |
| UCEIS | 0-1 | 2-4 | 5-8 | 7-8 |
Com exceção da remissão, o paciente não precisa preencher todos os fatores para ser enquadrado em uma categoria.
O monitoramento da resposta ao tratamento, durante a manutenção e nos períodos de suspeita de recidiva, pode lançar mão de FC, PCR, avaliação endoscópica por sigmoidoscopia flexível ou colonoscopia e ultrassom intestinal. A meta terapêutica de referência é a melhora endoscópica, definida como resolução das alterações inflamatórias com MES 0 ou 1: o guideline recomenda tratar o paciente até alcançá-la, com o objetivo de aumentar a probabilidade de remissão sustentada livre de corticoide e prevenir hospitalizações e cirurgia (recomendação forte, qualidade de evidência moderada). A remissão profunda, combinação de remissão sintomática e cicatrização endoscópica, é o alvo preferencial, e a remissão livre de corticoide define-se por sintomas e achados endoscópicos sem uso de corticoide por período sustentado, geralmente superior a 12 semanas.
Tratamento da RCU leve a moderada: indução e manutenção
O tratamento da doença leve a moderada organiza-se por extensão e centra-se nos aminossalicilatos (5-ASA). A tabela consolida as recomendações de indução por extensão, com doses e graduação.
| Cenário | Conduta de indução | Dose | Recomendação (GRADE) |
|---|---|---|---|
| Proctite | 5-ASA retal | 1 g/dia | Forte, qualidade moderada |
| Proctite não responsiva ao 5-ASA tópico | Supositório de tacrolimo ou de beclometasona | — | Condicional, qualidade baixa |
| Proctite ou colite esquerda | Corticoides tópicos (supositório, espuma, enema) sobre nenhum tratamento | — | Condicional, qualidade muito baixa |
| Proctite ou colite esquerda | Enema de 5-ASA, preferível aos esteroides retais | ≥ 1 g/dia | Forte, qualidade moderada |
| Colite esquerda | Enema de 5-ASA + 5-ASA oral (vs. oral isolado) | Enema ≥ 1 g/dia + oral ≥ 2,0 g/dia | Condicional, qualidade baixa |
| Colite esquerda intolerante/não responsiva a 5-ASA oral e retal | Budesonida MMX oral | 9 mg/dia | Forte, qualidade moderada |
| Colite extensa | 5-ASA oral | ≥ 2,0 g/dia | Forte, qualidade moderada |
| Qualquer extensão com falha ao 5-ASA | Corticoide sistêmico oral | — | Forte, qualidade baixa |
| Qualquer extensão não responsiva ao 5-ASA oral | Adicionar budesonida MMX | 9 mg/dia | Forte, qualidade moderada |
Alguns pontos práticos merecem destaque na falha ao 5-ASA. Em pacientes que não atingem remissão com 5-ASA adequadamente dosado (oral de 2 a 4,8 g/dia e/ou retal de 1 g/dia), sugere-se não trocar de formulação de 5-ASA, e sim considerar outras classes terapêuticas (condicional, qualidade baixa). Na doença leve de qualquer extensão, sugere-se usar dose baixa (2,0-2,4 g) em comparação à dose alta (4,8 g), pois não há diferença na taxa de remissão (condicional, qualidade muito baixa). A posologia do 5-ASA pode ser em dose única diária ou fracionada conforme a preferência do paciente, para otimizar a adesão, já que eficácia e segurança não diferem (recomendação forte, qualidade moderada).
Na manutenção da doença leve, recomenda-se 5-ASA retal 1 g/dia na proctite (recomendação forte, qualidade moderada) e 5-ASA oral em dose de pelo menos 1,5 g/dia na colite esquerda ou extensa (recomendação forte, qualidade moderada). Um conceito-chave recorrente em provas: recomenda-se contra corticoides sistêmicos, budesonida MMX ou tópicos para manutenção de remissão (recomendação forte, qualidade moderada).
Na prática: o corticoide induz, mas não mantém. Diante de falha ao 5-ASA bem dosado, não troque a formulação de 5-ASA: escalone para outra classe.
Tratamento da RCU moderada a grave: indução e manutenção
Na doença moderada a grave, a budesonida MMX oral é recomendada para indução na atividade moderada (recomendação forte, qualidade moderada), e os corticoides sistêmicos orais são recomendados para induzir remissão em qualquer extensão (recomendação forte, qualidade baixa). Recomenda-se contra a monoterapia com tiopurinas ou metotrexato para indução (recomendação forte, qualidade baixa): esses imunomoduladores não têm papel como indutores isolados.
O espectro de terapias avançadas para indução é amplo e quase todo sustentado por recomendações fortes. A tabela reúne as classes, os agentes e a qualidade da evidência para indução.
| Classe | Agentes | Recomendação (indução) |
|---|---|---|
| Modulador S1P (esfingosina-1-fosfato) | Ozanimode, etrasimode | Forte, qualidade moderada |
| Anti-IL-12/23p40 | Ustequinumabe | Forte, qualidade moderada |
| Inibidores de IL-23p19 | Guselcumabe, mirikizumabe, risanquizumabe | Forte, qualidade moderada |
| Antiintegrina | Vedolizumabe | Forte, qualidade moderada |
| Anti-TNF | Infliximabe | Forte, qualidade alta |
| Anti-TNF | Adalimumabe, golimumabe | Forte, qualidade moderada |
| Inibidor de JAK | Tofacitinibe | Forte, qualidade moderada |
| Inibidor de JAK | Upadacitinibe | Forte, qualidade alta |
Infliximabe e upadacitinibe são os agentes com evidência de qualidade alta para indução nesse cenário.
Há recomendações de posicionamento relevantes. Quando o infliximabe é usado como indução, recomenda-se a terapia combinada com tiopurina (recomendação forte, qualidade moderada para azatioprina). Em pacientes que falharam ao 5-ASA e nos quais se usa terapia avançada com biológico ou inibidor de JAK para indução, sugere-se não manter o 5-ASA para eficácia clínica adicional (condicional, qualidade muito baixa). E, em comparação direta, recomenda-se o vedolizumabe em vez do adalimumabe para indução e manutenção (recomendação forte, qualidade moderada). Na perda de resposta ao anti-TNF em pacientes antes responsivos, sugere-se dosar níveis séricos do fármaco e anticorpos antifármaco (quando o fármaco não estiver presente em quantidade suficiente) para esclarecer a causa (condicional, qualidade muito baixa).
Na manutenção da doença previamente moderada a grave, o princípio dominante é continuar o agente que induziu a remissão. Todas as recomendações abaixo são fortes, com qualidade moderada, sempre em pacientes que responderam à indução com o respectivo agente.
| Manutenção | Agentes |
|---|---|
| Moduladores S1P | Ozanimode, etrasimode |
| Anti-IL-12/23p40 | Ustequinumabe |
| Inibidores de IL-23 | Guselcumabe, mirikizumabe, risanquizumabe |
| Antiintegrina | Vedolizumabe (IV ou SC) |
| Anti-TNF | Adalimumabe, golimumabe, infliximabe (IV ou SC) |
| Inibidores de JAK | Tofacitinibe, upadacitinibe |
Quanto aos corticoides, recomenda-se contra os sistêmicos para manutenção (recomendação forte, qualidade moderada). Para o paciente que entrou em remissão por indução com corticoide, sugerem-se tiopurinas para manutenção em comparação a nenhum tratamento ou ao próprio corticoide (condicional, qualidade baixa), enquanto se sugere contra o metotrexato para manutenção (condicional, qualidade baixa).
Na prática: o 5-ASA tende a ser menos eficaz como manutenção na doença prévia grave do que na moderada. Na manutenção da moderada a grave, mantenha o agente que induziu — não troque por inércia.
Colite aguda grave (ASUC) e manejo hospitalar
A colite aguda grave (ASUC) é definida pela presença de seis ou mais evacuações diárias acompanhadas de ao menos um sinal sistêmico de toxicidade (taquicardia, febre, anemia com hemoglobina abaixo de 10,5 g/dL ou marcadores inflamatórios elevados, como VHS acima de 30 mm/h). Em crianças, utiliza-se PUCAI maior ou igual a 65. O paciente deve ser internado para corticoterapia intravenosa e suporte com fluidos e eletrólitos. Coortes históricas mostram que até um quarto dos pacientes com RCU pode desenvolver ASUC, com colectomia em até 40% deles, e mesmo quando a hospitalização-índice não culmina em cirurgia, esse grupo permanece em alto risco de desfechos adversos subsequentes.
As recomendações graduadas para o manejo hospitalar estão consolidadas abaixo.
| Conduta na ASUC | Dose / detalhe | Recomendação (GRADE) |
|---|---|---|
| Testar para infecção por C. difficile | — | Forte, qualidade moderada |
| Profilaxia farmacológica de TVP para prevenir TEV | — | Forte, qualidade baixa |
| Contra antibióticos de amplo espectro de rotina | — | Forte, qualidade baixa |
| Contra nutrição parenteral total para repouso intestinal | — | Condicional, qualidade muito baixa |
| Corticoide IV para indução | Metilprednisolona 60 mg/dia ou hidrocortisona 100 mg 3-4x/dia | Forte, qualidade baixa |
A regra dos três dias estrutura o manejo. Em pacientes que não respondem adequadamente ao corticoide intravenoso em 3 dias, recomenda-se terapia de resgate medicamentosa com infliximabe ou ciclosporina (recomendação forte, qualidade moderada). A escolha entre os dois deve considerar a experiência do prescritor com o agente, a história de falha prévia a imunomodulador ou anti-TNF e a albumina sérica.
| Resgate / manutenção pós-ASUC | Conduta | Recomendação (GRADE) |
|---|---|---|
| Falha ao corticoide IV em 3 dias | Resgate com infliximabe ou ciclosporina | Forte, qualidade moderada |
| Remissão com infliximabe | Manter o mesmo agente na manutenção | Forte, qualidade moderada |
| Remissão com ciclosporina | Manutenção com tiopurinas | Condicional, qualidade baixa |
| Remissão com ciclosporina | Manutenção com vedolizumabe | Condicional, qualidade muito baixa |
Quanto aos inibidores de JAK na ASUC refratária ao corticoide ou ao infliximabe, o guideline considera que ainda há dados insuficientes para recomendar rotineiramente tofacitinibe ou upadacitinibe.
Vários conceitos-chave completam o manejo. Todo paciente com ASUC deve realizar sigmoidoscopia flexível em até 72 horas, e preferencialmente em 24 horas, da admissão, para avaliar a gravidade endoscópica e biopsiar em busca de colite por citomegalovírus (CMV). É obrigatório avaliar a presença de megacólon tóxico. A resposta deve ser monitorada por frequência evacuatória, sangramento retal, exame físico, sinais vitais e PCR seriada. AINEs, opioides e medicações com efeito anticolinérgico devem ser evitados. Diante de falha à terapia medicamentosa em 3 dias ou de suspeita de toxicidade, a consulta cirúrgica deve ser obtida. Ao iniciar infliximabe, deve-se considerar intensificação de dose nos pacientes com albumina sérica baixa (abaixo de 2,5 g/dL).
Na prática: internou com ASUC, comece corticoide IV e marque o relógio. Dia 3 sem resposta significa resgate com infliximabe ou ciclosporina, com sigmoidoscopia precoce para CMV, profilaxia de TEV desde a admissão e olho no megacólon tóxico.
Cirurgia e colectomia
A cirurgia mantém papel definido no algoritmo. Recomenda-se obter consulta com cirurgião e considerar colectomia nos pacientes com doença moderada a grave refratária ou intolerante à terapia medicamentosa. Na perspectiva da manutenção, os pacientes com doença moderada a grave que não sustentam remissão apesar de terapia medicamentosa otimizada devem ser considerados para proctocolectomia eletiva. Na ASUC, as indicações de cirurgia incluem megacólon tóxico, perfuração colônica, hemorragia refratária grave e refratariedade à terapia medicamentosa. Um ponto que se desfaz com frequência na prática e cobra atenção: infliximabe e ciclosporina não aumentam as complicações pós-operatórias da colectomia, de modo que a cirurgia não deve ser adiada com base nessa exposição prévia.
Vigilância de displasia e câncer colorretal
A RCU de longa data carrega risco definido de displasia e CCR, atribuído sobretudo à extensão do acometimento e à atividade inflamatória mucosa prolongada. Esta atualização do guideline da ACG concentra-se em diagnóstico, estratificação, terapia medicamentosa e ASUC, e aborda a prevenção do câncer a partir do controle da inflamação. Dois conceitos-chave sintetizam a mensagem: a mucosa cicatrizada endoscopicamente associa-se a remissão sustentada e menor risco de colectomia, e o controle da inflamação mucosa pode reduzir o risco de displasia. A obtenção de biópsias dos segmentos proximais auxilia na definição da extensão e, por consequência, dos intervalos de vigilância. Dada a natureza crônica da RCU e das suas terapias, o monitoramento de complicações relacionadas à doença e aos fármacos é parte integrante do cuidado, com estratégias preventivas detalhadas em guideline específico da ACG, ao qual o documento remete para os protocolos de vigilância endoscópica propriamente ditos.
Perguntas frequentes
A calprotectina fecal confirma o diagnóstico de retocolite ulcerativa? Não. A calprotectina fecal é um marcador inflamatório não específico, útil para diferenciar DII de causas não inflamatórias de diarreia e, sobretudo, para avaliar resposta à terapia, suspeita de recidiva e monitorar a manutenção (recomendação forte, qualidade moderada). O diagnóstico se confirma por colonoscopia com intubação ileal e biópsias de áreas afetadas e não afetadas.
Qual é a meta de tratamento na RCU? A meta de referência é a melhora endoscópica, definida como resolução das alterações inflamatórias com MES 0 ou 1, para aumentar a probabilidade de remissão sustentada livre de corticoide e prevenir hospitalizações e cirurgia. A remissão profunda, que combina remissão sintomática e cicatrização endoscópica, é o alvo preferencial.
Pode-se usar corticoide para manter a remissão? Não. Recomenda-se contra corticoides sistêmicos, budesonida MMX ou tópicos para manutenção de remissão (recomendação forte, qualidade moderada). O corticoide induz, mas não mantém. Quem entrou em remissão por indução com corticoide pode ser mantido com tiopurinas em comparação a nenhum tratamento ou ao próprio corticoide.
Diante de falha ao 5-ASA bem dosado, devo trocar a formulação? Não. Sugere-se não trocar de formulação de 5-ASA e, sim, considerar outras classes terapêuticas (condicional, qualidade baixa). Subir a dose de 2,0-2,4 g para 4,8 g na doença leve também não aumenta a taxa de remissão.
Como funciona a regra dos três dias na ASUC? O paciente é internado e recebe corticoide IV (60 mg/dia de metilprednisolona ou hidrocortisona 100 mg 3-4x/dia). Se não houver resposta adequada em 3 dias, recomenda-se resgate medicamentoso com infliximabe ou ciclosporina (recomendação forte, qualidade moderada), com consulta cirúrgica diante de falha ou suspeita de toxicidade.
Infliximabe ou ciclosporina prévios contraindicam a colectomia? Não. Infliximabe e ciclosporina não aumentam as complicações pós-operatórias da colectomia, de modo que a cirurgia não deve ser adiada com base nessa exposição prévia.
Pontos-chave: o que todo médico deve saber
A pesquisa de C. difficile nas fezes é mandatória na suspeita de RCU e na ASUC, enquanto as sorologias de anticorpos não servem para diagnosticar nem para prognosticar (todas recomendações fortes). O diagnóstico se confirma por colonoscopia com intubação ileal e biópsias de áreas afetadas e não afetadas, e a extensão se classifica em proctite, colite esquerda e colite extensa. A meta de tratamento é a melhora endoscópica (MES 0 ou 1), com a calprotectina fecal recomendada para avaliar resposta e recidiva. Na doença leve a moderada, o 5-ASA é a base, retal na proctite (1 g/dia) e oral na doença mais extensa (ao menos 2,0 g/dia na indução), com budesonida MMX 9 mg/dia para os refratários ao 5-ASA. Corticoide induz, mas nunca mantém. Na doença moderada a grave, há um leque de terapias avançadas com recomendação forte (anti-TNF, vedolizumabe, ustequinumabe, inibidores de IL-23, moduladores S1P e inibidores de JAK), e o princípio da manutenção é continuar o agente que induziu a remissão. Na ASUC, internação, corticoide IV (60 mg/dia de metilprednisolona), profilaxia de TEV e a regra dos três dias para resgate com infliximabe ou ciclosporina definem o curso, sempre com avaliação precoce de megacólon tóxico e consulta cirúrgica diante de falha.
Erros comuns e armadilhas
Trocar uma formulação de 5-ASA por outra diante da falha é um equívoco frequente: o guideline sugere não fazê-lo e, sim, escalonar para outra classe terapêutica. Subir a dose de 5-ASA de 2,0-2,4 g para 4,8 g na doença leve não aumenta a taxa de remissão. Usar corticoide como manutenção, em qualquer formulação, contraria recomendação forte e expõe o paciente a toxicidade sem benefício de durabilidade. Esquecer a profilaxia de tromboembolismo venoso na ASUC ignora o estado pró-trombótico da doença ativa internada. Prescrever antibiótico de amplo espectro de rotina na ASUC, sem foco infeccioso definido, vai contra a recomendação. Não realizar a sigmoidoscopia precoce com biópsia para CMV nas primeiras 24 a 72 horas e não rastrear megacólon tóxico são falhas de manejo hospitalar. Adiar a cirurgia por receio das complicações atribuídas ao infliximabe ou à ciclosporina é injustificado, pois esses agentes não elevam o risco pós-operatório. Por fim, indicar tiopurina ou metotrexato em monoterapia para induzir remissão na doença moderada a grave desconsidera que esses imunomoduladores não têm papel como indutores isolados.
CM Xperts — preparação para o TECM
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Este conteúdo tem caráter educacional e de revisão para fins de preparação médica, não substituindo o julgamento clínico individualizado nem a leitura integral da diretriz original. As condutas devem ser sempre contextualizadas ao paciente.
Referência: Rubin DT, et al. ACG Clinical Guideline: Ulcerative Colitis in Adults (Update). The American Journal of Gastroenterology, Volume 120, June 2025. American College of Gastroenterology.