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SOP agora é PMOS: o novo nome da síndrome dos ovários policísticos e o que muda na prática

A síndrome dos ovários policísticos foi renomeada para PMOS em consenso global (Lancet, 2026). Entenda o porquê, os critérios diagnósticos e o que muda.

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SOP agora é PMOS: o novo nome da síndrome dos ovários policísticos e o que muda na prática

A síndrome dos ovários policísticos (SOP) — em inglês, PCOS — afeta mais de 170 milhões de mulheres no mundo apenas durante os anos reprodutivos. Em maio de 2026, The Lancet publicou um consenso global multistep que propõe um novo nome para a condição: síndrome ovariana metabólica poliendócrina, ou PMOS (do inglês polyendocrine metabolic ovarian syndrome).

É importante deixar claro desde o início: este documento é um consenso de nomenclatura e de racional diagnóstico, e não uma diretriz completa de tratamento. O que está em jogo é a mudança de nome, o porquê dela, os critérios diagnósticos reafirmados e o que isso implica para a prática clínica. O tratamento detalhado permanece sob a alçada da International Guideline, cuja próxima atualização está prevista para 2028.

Este artigo organiza, de forma didática e fiel à fonte, tudo o que o médico em preparação para o TECM precisa saber sobre essa transição.

Por que renomear a síndrome dos ovários policísticos?

O termo “ovários policísticos” é considerado impreciso e potencialmente enganoso há mais de uma década. A própria fonte resume o caso para a mudança em um painel dedicado (Panel 1: “Context and the case for a new name”). Os principais argumentos são:

Limitação do nome “SOP/PCOS” O que a fonte aponta
Implica cistos ovarianos patológicos O termo “ovário policístico” sugere a presença de cistos ovarianos patológicos, que na verdade não estão aumentados. Embora o desenvolvimento folicular interrompido seja comum, não há aumento de cistos patológicos.
Reduz a condição a um único órgão A SOP engloba características endócrinas, metabólicas, reprodutivas, psicológicas e dermatológicas diversas. O nome atual reflete apenas um órgão e falha em capturar a totalidade.
Atrasa o diagnóstico A confusão gerada pelo nome atrasa o diagnóstico e dificulta o cuidado efetivo — até 70% dos indivíduos afetados permanecem sem diagnóstico.
Reforça estigma O foco reprodutivo do nome pode reforçar estigma, particularmente em contextos socioculturais específicos.
Prejudica codificação e ciência Um nome mais acurado é esperado para melhorar a comunicação científica e a codificação em sistemas de saúde.

A condição é sustentada por distúrbios endócrinos em insulina, androgênios e hormônios neuroendócrinos e ovarianos. Embora por muito tempo tenha sido percebida primariamente como um transtorno ginecológico ou ovariano, a evidência acumulada mostra um quadro multissistêmico.

Na prática O problema central do nome antigo não é estético: ele induz o raciocínio clínico ao erro. “Ovários policísticos” sugere uma doença ovariana isolada com cistos, quando a condição é, na essência, um distúrbio poliendócrino e metabólico. Esperar “cistos” ao ultrassom é interpretar mal a própria morfologia (múltiplos folículos em desenvolvimento arrestado, não cistos patológicos).

O novo nome: PMOS e seu racional

O consenso seguiu uma abordagem deliberadamente evolutiva (não revolucionária): um novo nome acurado, mas que mantém alguma similaridade com “PCOS” para facilitar a transição — em vez de criar a impressão de uma condição inteiramente nova. A própria sigla PMOS preserva proximidade com PCOS.

Os termos preferidos, priorizados ao longo de surveys Delphi iterativos e workshops, foram poliendócrino (polyendocrine), metabólico (metabolic) e ovariano (ovarian), refletindo a fisiopatologia multissistêmica da condição.

Componente do nome Por que foi escolhido (conforme a fonte)
Poliendócrino Reflete múltiplas anormalidades endócrinas interativas (insulina, androgênios, hormônios neuroendócrinos e ovarianos), em vez de um distúrbio ovariano isolado. Foi preferido sobre “endócrino” por oferecer abordagem evolutiva, com similaridade ao acrônimo atual PCOS, e diante de preocupações culturais com o acrônimo alternativo EMOS.
Metabólico Captura obesidade, disglicemia, diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia, doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica, doença cardiovascular e apneia do sono. Termo com forte apoio em pacientes e profissionais.
Ovariano Priorizado em votação de workshop sobre “ovary” e “ovulatory”, por englobar distúrbios endócrinos, foliculares e ovulatórios — sem se restringir a um único aspecto.

Um detalhe importante do processo: o nome mais bem ranqueado na survey B foi inicialmente polyendocrine metabolic ovulatory syndrome. O Workshop B o revisou para polyendocrine metabolic ovarian syndrome, e todos os participantes apoiaram o nome final — exceto dois participantes, que também não apoiavam a mudança de nome. O termo “reprodutivo”, embora acurado em termos de genética, fisiopatologia e clínica, foi evitado pelo potencial de estigmatização social em algumas culturas.

Na prática O nome foi construído sobre seis princípios norteadores: suporte ao cuidado clínico e à pesquisa; acurácia científica e médica (evitando incluir “cistos”); clareza e comunicação; evitação de estigma; adequação cultural e linguística; e viabilidade de implementação. Guarde esses eixos — eles explicam quase todas as decisões do consenso.

Critérios diagnósticos: o que NÃO mudou

Ponto fundamental para a prova e para o consultório: o consenso renomeia a condição, mas reafirma os critérios diagnósticos já estabelecidos pela International Guideline. O diagnóstico continua sendo de exclusão — feito após excluir outros distúrbios.

Em adultos (idade ≥ 20 anos), o diagnóstico exige a presença de pelo menos dois dos três critérios a seguir:

Critério Descrição (conforme a fonte)
1. Oligoanovulação Disfunção ovulatória / oligoanovulação.
2. Hiperandrogenismo Hiperandrogenismo clínico (hirsutismo, acne, alopecia) ou bioquímico.
3. Morfologia ovariana / AMH Ovários policísticos à ultrassonografia ou hormônio anti-Mülleriano (AMH) elevado.

Para adolescentes (idade 10–19 anos), a regra é mais restritiva: exige-se a presença dos dois primeiros critérios (oligoanovulação e hiperandrogenismo). A morfologia ovariana/AMH não é usada isoladamente como critério nessa faixa etária.

Na prática A lógica “2 de 3” em adultos é, na essência, a estrutura dos critérios de Rotterdam reafirmada pela International Guideline, com a adição do AMH elevado como alternativa à imagem ovariana. Em adolescentes, não se aplica o “2 de 3”: são obrigatórios oligoanovulação e hiperandrogenismo. Esse é um ponto clássico de pegadinha em prova.

Fenótipos e a combinação dos critérios

Como o diagnóstico em adultos exige apenas dois dos três critérios, diferentes combinações geram diferentes apresentações clínicas. A combinação dos critérios define o perfil de cada paciente:

Combinação dos critérios em adultos Componentes presentes
Hiperandrogenismo + disfunção ovulatória Androgênios elevados/clínicos + oligoanovulação
Hiperandrogenismo + morfologia ovariana (US) ou AMH elevado Androgênios + critério ovariano, com ciclos ovulatórios
Disfunção ovulatória + morfologia ovariana (US) ou AMH elevado Oligoanovulação + critério ovariano, sem hiperandrogenismo evidente
Todos os três critérios Hiperandrogenismo + disfunção ovulatória + critério ovariano

A fonte enfatiza que o hiperandrogenismo é a característica endócrina e diagnóstica definidora, com androgênios ovarianos — e frequentemente adrenais — elevados contribuindo para hirsutismo, acne, alopecia e para as próprias manifestações metabólicas.

Aspectos metabólicos: o eixo que justifica o “M” de PMOS

A renomeação não é apenas semântica — ela reposiciona a doença como uma condição poliendócrina e metabólica. A fonte detalha a fisiopatologia:

Mecanismo Descrição (conforme a fonte)
Origem poligênica Análises genômicas de larga escala confirmam origem poligênica através de vias neuroendócrinas, metabólicas e reprodutivas.
Eixo neuroendócrino Aumento da pulsatilidade do GnRH, com consequente elevação do LH, que estimula a produção excessiva de androgênio ovariano.
Resistência insulínica Resistência à insulina e hiperinsulinemia compensatória estão presentes em 85% dos indivíduos afetados — e em 75% das mulheres magras (IMC ≤ 25 kg/m²) com PMOS.
Interação metabólico-endócrina A hiperinsulinemia amplifica a secreção de androgênios e perturba a esteroidogênese, evidenciando a interação metabólico-endócrina.
Outros sinais Alterações nas concentrações de AMH, função endócrina ovariana, sinalização de adipocinas e interações intestino-hormônio influenciam as manifestações clínicas.

O IMC costuma ser mais elevado em pessoas com a condição do que em pessoas sem ela, e contribui para a gravidade. As características metabólicas também compõem os riscos gestacionais, somando-se aos distúrbios endócrinos.

Na prática Dois números a memorizar: resistência insulínica em 85% das pacientes em geral e em 75% das pacientes magras. Isso reforça que a avaliação metabólica (glicemia, perfil lipídico, rastreio de disglicemia) não deve ser reservada apenas a pacientes com obesidade. A magreza não exclui o componente metabólico.

O que muda na prática clínica

A mudança é evolutiva e faseada. A fonte descreve uma estratégia de implementação codesenhada em oito estágios, com um período de transição gerenciado de 3 anos. O que isso significa para o dia a dia:

Estágio (Panel 4) Conteúdo
1. Publicação e disseminação acadêmica Publicação do Health Policy, comentários, revisões clínicas e atualização de livros-texto e materiais educacionais.
2. Desenvolvimento de recursos Recursos para pacientes e profissionais em múltiplas línguas e plataformas.
3. Comunicação e engajamento global Toolkits de sociedades, recursos multilíngues, educação profissional e eventos coordenados.
4. Integração em sistemas de saúde e informação Incorporação do novo termo em prontuários eletrônicos, incluindo o SNOMED-CT, e engajamento com fornecedores de prontuário e formadores.
5. Alinhamento de políticas e pesquisa Engajamento com governos, financiadores, editores de periódicos, reguladores e indústria.
6. Classificação internacional Engajamento formal com órgãos internacionais, incluindo a OMS, para integração nos sistemas de classificação de doenças, como a CID/ICD.
7. Transição e refinamento futuro Período de transição gerenciado de 3 anos, com monitoramento, avaliação e consideração de evidências emergentes sobre subtipos.
8. Diretrizes Integração na International Guideline, já usada em 195 países, com próxima atualização prevista para 2028.

Na prática Durante a transição, espere conviver com os dois termos. O diagnóstico, a investigação e a conduta seguem os mesmos critérios — o que muda é o rótulo, o raciocínio que ele induz e, progressivamente, a codificação (CID, SNOMED-CT) e os materiais de referência. Para o paciente, a mensagem é que não se trata de uma doença nova: é a mesma condição, com um nome mais preciso.

Perguntas frequentes

O que significa a sigla PMOS?

PMOS é a sigla, em inglês, de polyendocrine metabolic ovarian syndrome — síndrome ovariana metabólica poliendócrina. Foi o nome de consenso para a condição anteriormente chamada de PCOS/SOP, refletindo sua fisiopatologia multissistêmica: poliendócrina, metabólica e ovariana.

Os critérios diagnósticos mudaram com o novo nome?

Não. O documento é um consenso de nomenclatura, não uma nova diretriz de tratamento. Em adultos (≥ 20 anos), o diagnóstico permanece como pelo menos dois de três critérios — oligoanovulação, hiperandrogenismo clínico ou bioquímico, e ovários policísticos ao ultrassom ou AMH elevado —, após exclusão de outros distúrbios. Em adolescentes (10–19 anos), exigem-se os dois primeiros critérios.

Por que abandonaram o termo “policístico”?

Porque “ovário policístico” implica a presença de cistos ovarianos patológicos, que na realidade não estão aumentados. O nome reflete apenas um órgão e falha em capturar as características endócrinas, metabólicas, reprodutivas, psicológicas e dermatológicas da condição, além de atrasar o diagnóstico e reforçar estigma.

Por que “ovariano” e não “reprodutivo” ou “ovulatório”?

O termo “reprodutivo”, embora acurado, foi evitado pelo potencial de estigmatização social em algumas culturas. “Ovulatório” foi considerado estreito demais e irrelevante após a menopausa. A votação de workshop priorizou “ovariano” por englobar distúrbios endócrinos, foliculares e ovulatórios de forma mais abrangente.

O AMH elevado substitui o ultrassom no diagnóstico?

Conforme a fonte, o terceiro critério em adultos é “ovários policísticos à ultrassonografia ou AMH elevado” — ou seja, o AMH elevado funciona como alternativa à morfologia ovariana por imagem. Lembre-se de que esse critério não é aplicado isoladamente em adolescentes.

A partir de quando devo usar o nome PMOS?

A transição é gerenciada e prevista para ocorrer ao longo de 3 anos, com integração progressiva em prontuários, sistemas de classificação (CID, SNOMED-CT) e na International Guideline, cuja próxima atualização será em 2028. Durante esse período, é esperado o uso de ambos os termos.

Pontos-chave: o que todo médico deve saber

  • A síndrome dos ovários policísticos (SOP/PCOS) foi renomeada, em consenso global publicado na The Lancet (2026), para síndrome ovariana metabólica poliendócrina — PMOS.
  • Trata-se de um consenso de nomenclatura e racional diagnóstico, não de uma diretriz de tratamento.
  • O nome antigo era impreciso: “policístico” sugere cistos patológicos, que não estão aumentados; o termo reduzia a doença a um único órgão.
  • Os termos do novo nome — poliendócrino, metabólico e ovariano — refletem a fisiopatologia multissistêmica.
  • Critérios diagnósticos reafirmados (após exclusão de outros distúrbios): em adultos (≥ 20 anos), pelo menos 2 de 3 — oligoanovulação, hiperandrogenismo clínico ou bioquímico, e ovários policísticos ao US ou AMH elevado. Em adolescentes (10–19 anos), exigem-se os dois primeiros.
  • O hiperandrogenismo é a característica endócrina e diagnóstica definidora.
  • A resistência insulínica está presente em 85% das pacientes — e em 75% das magras: avaliação metabólica para todas, não só para quem tem obesidade.
  • A implementação é evolutiva e faseada, com transição de 3 anos e integração futura na International Guideline (atualização em 2028).

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Aviso: Este conteúdo tem finalidade educacional e de atualização para profissionais e estudantes de medicina, com foco na preparação para o TECM. Não substitui a leitura integral do documento original, o julgamento clínico individualizado nem as diretrizes vigentes. O documento de referência é um consenso de nomenclatura e critérios diagnósticos, não uma diretriz completa de tratamento. As condutas terapêuticas devem seguir a International Guideline aplicável (próxima atualização prevista para 2028).

Referência: Teede HJ, Morman R, Khomami MB, et al; on behalf of the Global Name Change Consortium. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus. The Lancet. 2026;407:2329–39. Publicado online em 12 de maio de 2026. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(26)00717-8